XIX - 12/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP. (05-93-94-76-80)
1) Eu estava na casa da Dona Augusta. E Seu Raimundo me chamou pra ir ver como estava a construção lá atrás da casa dele, do lado que era nossa casa, mas à beira da rua. Passamos por um pátio coberto e rústico, depois um outro tipo de pátio maior, mais trabalhado, onde o piso era liso e encerado, e dava para a rua. À esquerda mais um ou dois cômodos cujo piso estava com uma parede divisória de tijolo alto do chão, um metro mais ou menos, e com entulhos de alguns blocos empilhados uns sobre os outros em várias pilhas, só que os blocos eram daqueles de superior qualidade que não precisavam ser rebocados, e todos já caiados em beje claro que, a princípio, eu não dei importância nem para o chão alteado nem para as pilhas de blocos quase juntas mas com frestas. Só dei importância quando o Sr. Raimundo me falou que estava erguendo o chão porque estava bem baixo e a terra estava invadindo a sua casa, e mostrou-me como ia ficar e aí é que pude avaliar e saber direito do que se tratava aquela parede alteada sobre o piso e cheio de blocos dentro. Achei interessante e voltei por dentro da casa devagar olhando à minha direita que seria à esquerda de quando eu ia, e os fundos do resto do quintal. E vi que tinha outra porta que dava para outros cômodos e, nesses cômodos, a parede à minha esquerda tinha subdivisões que a tomavam toda em paredes de mais ou menos um metro de altura todas recobertas com o piso e, como as paredes principais, com caquinhos de cerâmica vermelha por todo o piso, paredes e meias paredes. Eram subdivisões de mais ou menos um metro quadrado cada, com o piso que baixava para os fundos e, neste fundo, um buraco de escoamentos. Estava tudo muito limpo e sem mau cheiro algum, e com outras portas que davam para outros compartimentos iguais, e assim sucessivamente parecendo infinitos os compartimentos. Tanto que, quanto mais eu me aprofundava neles, mais tinha onde me aprofundar. Eu procurava e nunca achava o fim. Até que, em vez de prosseguir em frente, virei-me para um lado onde vi outros compartimentos diferentes mas pegados uns com os outros, como se fossem cômodos ou quartos de aluguel (estes já eram em um quintal aberto e não sob um só teto como os subdivididos). Eram inferiores, baixos e detalhes brasilit. Em alguns havia até gente olhando pela janela como dois rapazes que eu vi me espiando e me rindo, em dois deles. Os demais permaneciam fechados e eu não sei se eram habitados ou não. Só sei que encontrei mais um aberto. Pensei que tivesse gente mas, só tinha um guarda-roupa grande antigo com algumas colchas das antigas também dobradas. Usadas, mas em boas condições. Uma delas era listrada em listas largas de verde, azul, amarelo, claros, uma com ramos de flores coloridas estampadas nas listas. Fechei as portas do guarda-roupa pensando. Deve ser Dona Augusta quem guarda essas coisas que já não usa aqui. Assim que fechei as portas do guarda-roupa que havia encontrado escancaradas, por trás de uma de uma das portas, sob um pano forrado, talvez uma mesa, vários e vários pares de sapatos antigos mas quase sem uso. Saí dali e, ao passar por um outro quarto que também estava aberto e sem ninguém à janela, vi, pela porta, um outro monte igual ao primeiro, só que desta vez era um de bolsas. Bolsas que talvez fizeram par com os sapatos. Remexi e, mal comecei a remexer, vi um tipo de bolsa enorme. Peguei e vi tratar-se de uma calcinha cuja frente tanto era uma bolsa como uma saia. Achei tão interessante que a adquiri pra mim. Nisso,
chegaram ali naqueles barracos e só foram chegando, cada vez mais meninas, desfilavam por ali só com rolos de panos nas pernas de calças mas sem a calça, ou seja, sem calcinha, peladas, sem nada mesmo, a não ser um rolo curto colorido em cada perna. Passavam por todos nós normalmente, sem a menor vergonha, sem qualquer inibição estas meninas de 10 a 17 anos. Por enquanto é só o que lembro deste sonho que sonhei hoje. Se lembrar mais, contarei mais.
2) Ita chegou cedo de Ubatuba onde tinha ido sexta-feira à noite encontrar-se com Meire que já estava lá há mais de uma semana. Chegou dizendo que aconteceu um acidente com ele: que ele foi comprar peixe e vinha trazendo o peixe mais ou menos grande, e com barbatanas enormes quando, ao bater o peixe que era em forma de uma seta na ponta, entrou uns dez centímetros na sua perna e não queria mais sair, foi preciso ele puxar com toda a força para conseguir tirá-lo. Mas foi aquela dor. Sorte que ele já tomou vacina anti-tetânica na fábrica que vale por cinco anos. Senão, seria preciso ir até o médico e correria o risco de tétano e teria sido muito pior. Ita disse também que amanhã não vai trabalhar. Vai até São Paulo com o automóvel da firma fazer um curso para e por conta da empresa.
3) E Jussara que prometeu mas não deu sinal de vida aqui hoje. Com essa já são três domingos que ela não aparece e doze dias que eu não a vejo. Está indo pelo mesmo caminho da Vitória.
4) Vitória e Rosinha chegaram hoje em Salvador, às onze horas da manhã. Estavam contentes quando telefonaram. Alegres, animadas e já em companhia do João, que antes já havia telefonado pra cá dizendo que ainda não as tinha encontrado. E já eram quase duas horas da tarde conforme o combinado. Mas às duas em ponto telefonaram todos já juntos.
5) E eu ainda nesta dúvida carnal: fico aqui mesmo? Vou pra Bahia? Ou fico em Itaquera? Recomecei a rezar de novo hoje. E o Gohonzon é quem sabe o que será melhor para todos nós e nos incentivará e ajudará a fazer o que for melhor. Aqui é a luta. Lá é o sossego e a poesia.
6) Já estou tomando raiva dos meninos da Miriam. Já estou de um jeito que não posso mais nem encará-los em minha frente. Não tanto por eles, mas pelo jeito que ela e o Doca não os educam. Pra Miriam e o Doca eles são uns santinhos. Só faltam colocá-los no altar. Não admitem que se fale nada contra eles. Tudo o que eles fazem é como se não fizessem. Em vez de fazerem eles porem as coisas que tiraram do lugar e deixam espalhados pelo quintal no lugar certo, preferem que eles entrem pra dentro de casa ou que saiam pra rua e deixem tudo espalhado para que eu ponha no lugar. Deixe estar que um dia eu posso ter dó deles e rir do Doca e da Miriam. Eles querem que os filhos deles cresçam sendo qualquer coisa. Que se danem então. Eu, de minha parte, vou dar-lhes o completo desprezo. É como se não existissem mais.
Clô
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