VI – 09/01/86 – quinta-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Sonhei com Dona Eloá. Que ela era madrinha da Liliam. E que veio com um casal de crianças pequenas de dois anos mais ou menos. Ela chegou cansada em casa, segurando nas mãos das duas lindas crianças, um menino e uma menina. A casa estava cheia de poças de lama e de sujeira. E eu toda desarrumada. E tínhamos marcado de batizar a Liliam naquele dia. Eu, sem prestar atenção nas crianças, mandei que Dona Eloá se sentasse com as crianças numa cama de solteiro que tinha num dos quartos e fui me arrumar. Mas me demorei tanto que ela ficou com sono e se deitou e se cobriu com uma dessas cobertas inferior cinza de duas listas vermelhas que ainda existem. E eu fiquei preocupada por estar demorando tanto a me arrumar e tratar de fazer tudo com mais agilidade mas, em vez de conseguir fazer as coisas melhor e mais rápido, me atrapalhava e fazia tudo errado e tinha que repetir tudo de novo, várias vezes. E só me demorava mais e me preocupava mais. Pois o Jânio e demais homens estavam esperando na Igreja e logo, a qualquer momento, ele poderia chegar bravo, por causa da minha demora e da minha irresponsabilidade. E eu tinha medo da fúria dele. Foi um sufoco. Aquele sufoco de acordar.
2) A Miriam hoje vai ficar o dia todo de mal comigo. Problema dela. Não cuida dos filhos como é preciso, vai cada vez mais ter problemas com eles.
3) Na última hora, tomei a decisão de ir a Mogi pagar a conta do telefone e receber meus dinheiros do INPS. Só consegui pagar o telefone. INPS é só rolo. Só complica cada vez mais as coisas pra gente. Sem vergonhas. Eu quero é cada vez mais distância de vocês. Cada dia é pior. Cada ministro que entra na Previdência mais cachorro é. Waldir Pires, não simpatizo nada com ele. Disse que conseguiu acabar com o déficit do INPS, também a que custos? Sempre é o previdenciário que leva a pior. Desse jeito, meu, até eu. Nojento.
4) Na volta inventei de passar na loja Marisa só pra ver os artigos e seus preços. Não ia comprar nada mesmo mas fiquei olhando calcinhas, cintos e percebia que, para onde ia, um homem (seria o gerente?) me acompanhava. Será que está cismado que eu vou roubar alguma coisa? Cada passo que eu dava, ele atrás. Eu nem lhe olhava na cara. Ou será que ele está querendo me namorar? Vai tomar banho, não estou a fim não. Teve uma hora que eu fui obrigada a topar frente a frente com ele. E ele disse que me conhecia e se eu não me lembrava dele. Que ele era do PTB de Suzano. Eu vi que não me era estranho mesmo. Mas não me lembrava muito bem. Ele disse chamar-se Hélio e começamos a falar sobre política e sobre o Jânio. Mostrei-lhe as minhas fotografias da política de Itaquera. Ele me perguntou se eu não ia me candidatar outra vez.
- Não sei. Estou na dúvida. O Jânio quer que eu me candidate. O Farabulini e o Sujiro também. Mas eu estou mais com vontade de ir para a Bahia. O importante para mim foi o Jânio ganhar. Da outra vez eu me candidatei mais para isso. Agora eu trabalhei para o Jânio, lá em São Paulo, para isso também. Graças a Deus ele ganhou. Agora é preciso levá-lo de novo a presidente. E a campanha do Jânio para presidente eu posso fazer tanto aqui como lá.
- Mas a senhora deve se candidatar. Pode contar comigo que eu tenho conhecimento em toda essa região; e pra quem eu pedir voto pode contar que eles votam na senhora. A senhora tem possibilidades de ganhar.
- Será? Às vezes eu gostaria de ser candidata só pra poder ajudar mais o Jânio. Porque o Jânio precisa de pessoas que realmente são dele. E se os janistas verdadeiros não se candidatarem quem vai sair bem são os oportunistas. Da outra vez, quando ele foi presidente, ele só renunciou porque não tinha ninguém do lado dele, verdadeiramente dele. E agora, não podemos mais deixar que isto se repita. Mas, no momento, eu não tenho condições financeiras para gastar em candidatura. Pois, para deputado estadual, precisa de muita grana.
- Mas isso a gente arranja formas de financiar.
- Só se você puder me providenciar isto. Aí sim. Aí eu até me candidatarei. Mas do contrário eu vou mesmo é pra Bahia.
- Pode deixar.
Disse que viria aqui em casa pra gente poder conversar direito. Veremos. Justo agora que eu estava mesmo decidida a ir pra Bahia, já vou ter que mudar meus planos. Mas quem sabe? Quem sabe eu não dou sorte e ganho mesmo pra Deputado Estadual? E daí pra Prefeita de Suzano? Tenho que mostrar pro Aoud todo o meu valor, que ele faz questão de dar a mínima, e também com quantos paus se faz uma canoa.
Clô
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