sexta-feira, 31 de outubro de 2014

21/04/98 – terça - Monte Cristo – Clô

Não sei para onde vou. Sei que vou. Por aí... À procura de algo, que eu não sei o que é, se existe, nem onde está...Nem como é... mas que eu sinto falta, e necessito, porque é a única coisa que pode me completar, e me solucionar. Seria a Morte? Ou, uma outra espécie de Vida? Só sei que não tem nada a ver com esta coisa que idolatram tanto, e que chamam de vida, e que, para mim, está muito aquém de ser aquilo que eu sempre considerei como sendo A VERDADEIRA VIDA.
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Estou com a cabeça de um jeito que, tudo que eu penso de noite, não é viável para o dia, e tudo o que penso de dia, não é viável para a noite. Por exemplo, anteontem, quando eu fugi de casa, decidida a abandonar tudo e nunca mais regressar, quando vi que estava próximo de anoitecer, com os pés doloridos, e o corpo quebrado de tanto andar, em vez de prosseguir, resolvi parar. E, só parei, sabe onde? Justamente no Cemitério do Raffo. Fui visitar minha mãe , e invejei-a por já ter se libertado do seu corpo tão pesado, e das suas espirituais convicções, e do seu espiritual orgulho, bem mais pesados até, que o seu corpo, e que só a fizeram distanciar-se cada vez mais de todos os seus, e de todos que a conheceram, pois , para todos nós, ela era apenas uma muito estranha pessoa, que só fazia tudo ao contrário do que deveria ser feito. Hoje, ela já não precisa de ninguém nem de nada. Está lá, escondidinha, como ela sempre disse querer ficar, mas, que em vida, não conseguiu. Ela dizia-nos: “o meu desejo, é ficar fechada num quartinho, onde eu não veja ninguém, nem ninguém me veja, e que alguém me traga comida e água por um buraco debaixo da porta, e só”. Mas quanto mais ela envelhecia, mais desespero ela tinha, para não ficar parada num só lugar. E fosse onde fosse, mesmo já cansada, ela não parava nem aqui, nem lá no Jardim Fernandes, nem em Sorocaba, nem em lugar nenhum. Só parou, quando o seu corpo se paralisou por completo, e entrou em coma, para ir de vez, desta vida tão sem sentido. Hoje, finalmente, ela está no seu tão sonhado quatinho, escondidinha, sem precisar ver, nem ser vista por ninguém, e nem que ninguém lhe leve comida nem água nenhuma, nem nada. Pois o seu quartinho, nem porta, nem buraco debaixo da porta tem, e nem ela tem mais nenhuma necessidade de nada. Só de dormir, e descansar. Hoje, as pessoas que eu mais invejo são os mortos. Hoje (hoje só, não) já vem de longe, bem antes mesmo da senhora perder o seu imenso amor à sua embora muito sofrida vida, eu já tinha perdido o pouco amor que eu sempre tive à minha. Só que a senhora que não desejava, nem pensava (ao contrário de mim) abandoná-la tão cedo, já se foi, enquanto eu, ainda estou perambulando aflita, desesperada, contra a minha vontade, por aqui. E como eu estava dizendo no começo, de repente, parei, e desejando covardemente voltar para casa, telefonei para a Jussara perguntando pelo Ita e pela chave da casa. E em vez de continuar caminhando só para frente, me distanciando cada vez mais de tudo e de todos, como é o meu propósito, regredi. Aproveitei o ônibus que levou todos os acompanhantes daquele defunto tão bonito (que fisionomia e que tom de pele morena lindos!) que dava até dó ter que enterrá-lo! Acho que foi por isso, que escolheram os últimos minutos do final de expediente cemiteriais daquele dia, 19/04/98 (dia do índio e dia do aniversário de 11 anos da Luandinha!) domingo, para enterrá-lo! Engraçado é que, ao vê-lo, não me lembro de ter feito aquela minha clássica pergunta: por que não sou eu? ( percebi que ele era de religião crente, porque alguns acompanhantes ao redor do caixão, estavam se tratando e se referindo a ele, como “o irmão”.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DESDÉNS X TALENTO



    ...(“Sossega, coração inútil, sossega !
          Sossega, porque nada há que esperar,
          E por isso nada que desesperar também...”)
                                     FERNANDO PESSOA

Para Aoud Id

Este Céu... (que azul suspeito !)
Revoar... (de asas quebradas...)
Para o azar ficar perfeito,
Quase não falta mais nada.

Só falta cortar a água,
Só falta cortar a luz.
Só falta virar-me as costas,
Este quadro de Jesus.

Mas... tenho fé ! E a sustento,
Contra o que tiveres ! – Apostas?
Tens desdéns ? – Tenho talento.
Tens questões? – tenho respostas.

Estás por fora ?... – Estou dentro.
És mentira ? – Sou verdade.
És poluição ?... – Sou vento.
És prisão ? – Sou LIBERDADE !

          Clotilde Sampaio

   Monte Cristo, Suzano, SP, 12/08/1987.





sábado, 25 de outubro de 2014

22 de janeiro de 1976 – quinta-feira

Amanheceu chovendo muito hoje. Levantei-me tarde e de manhã eu não saí. Rezei os dois gongyos e uma hora de daimoku. Já passavam das quatro quando eu saí para Suzano. Como se já não bastasse a barreira (muito barro*) da estrada, para cortar caminho cismei de passar por um velho trilho já coberto de mato e fiquei com as pernas da calça todas ensopadas. E tive de atravessar muito envergonhada a cidade assim. Na gráfica, os talões ainda não estavam prontos. Iam sair depois de quarenta minutos. Eram cinco horas, e pensei: enquanto isso, como combinei com o Clovis, vou a Jundiapeba avisá-lo. Na volta passaremos aqui e pegamos os talões. E rumei para lá. Eram cinco e meia, bem na hora que havia combinado com ele. Mas de longe vi que as portas estavam fechadas e que portanto, ele não estava. E nem cheguei até a loja. De frente da estação mesmo, voltei. Decepcionada pois estou vendo muita falta de interesse da parte do Clovis em me ajudar. Apressei o Aoud em me dar o dinheiro ainda em setembro para começar imediatamente a trabalhar. Dei os Cr$ 4.000,00 no dia 20 de dezembro pra que ele desse a entrada na perua logo para entrarmos o ano já trabalhando. Disse que lá pelo dia 8 de janeiro já apareceria em casa com o carro, eu fiquei esperando e não apareceu. No domingo, dia 18, que eu fui na casa dele, falou que havia gasto o meu dinheiro com os vidraceiros dele. E que ainda ia precisar receber para poder comprar a perua. E pra receber precisa da nota fiscal dos talões que ficaram prontos hoje e que ele não se importou de vir buscar. Um dia desses chegou na loja na companhia do Zé, depois do meio dia só com a desculpa de que chovia muito em São Paulo. Eu só estou faltando ficar louca por causa dessa vidraçaria. Desde que a comecei foi só correr pra lá, correr pra cá, pagar isso, pagar aquilo, e sem vantagem nenhuma, só prejuízo. Até minha saúde e minha animação pela vida, eu já perdi por causa dela. Qualquer dia, o que vai acontecer é que eu perco a cabeça e faço um ato tresloucado por causa dela. E por causa dos meus irmãos, amigos da onça. Nunca, há mais de oito anos, cheguei a estar nessa situação que estou. Doente, sem dinheiro e sem nada. E sem ter de quem depender porque o Aoud, nessas alturas nem é bom pensar que existe. E eu não tenho mais cara de pedir um centavo que seja a ele. Dei um cheque de Cr$ 207,00 na gráfica e o que tenho no banco não cobre esta quantia. Estou viciada em leite em pó. Por isso comprei mais uma lata de 1 quilo de leite Sol. E paguei Cr$ 21,00. E uma lata de cera por sete cruzeiros. Já em casa pusemo-nos, eu e as crianças a saborear o leite assistindo a novela “Um dia o amor”. O Ita começou a implicar com a Jussara. Em determinado momento falou-lhe: não esquente muito a cabeça pra não derreter os seus chifres. Ela respondeu prontamente: é bom que assim eu fico sem chifres. Eu e a Vitória nos pusemos a rir.
                              Clô



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ÓDIO E AMOR



...(“Para que não ter por ti desprezo?
       Por que não perdê-lo?...
       Ah, deixe que eu te ignore...”)...
                   FERNANDO PESSOA

Para Aoud Id


ÓDIO, e AMOR juntos: guerra... trégua... anseio...
Eu, simultânea: congelo... ardo... inflamo...
És... O CANALHA – a quem eu mais odeio.
Mas és também... O HOMEM ! – E a quem mais amo !

Tenho o Melhor... Tenho o Pior... – me veio,
Tudo de ti ! Extremos ! E, te conclamo:
- Vem ! ... Vem bater ! (Com teus mais baixos meios)
 No meu AMOR por ti, meu Amor, - Vamos !...

De novo, (e em fogaréu tão denso, e nosso,)
Ter-te! (Quem dera !) Pois, já sei: - não posso.
Que, aos meus desejos, tudo a Vida... trunca.

Mas, mais me foges, e mais te persigo.
Mais me detestas, mais estou contigo.
E sabes quando vou deixar-te ? ... – NUNCA.

                   Clotilde Sampaio

             Monte Cristo, Suzano, SP,  06/05/1985.



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

10 a 19 março 1980

10/03/80 – segunda-feira

Comprei o dormitório de rosinhas: Cr$ 17.000,00 com mais o colchão, Cr$ 2.000,00. Estou com tanto sono que nem dá para escrever. Os vândalos hoje foram até minha escola. Escreveram palavrões, espalharam o lixo e estragaram todas as fechaduras. Só não conseguiram roubar nada. Mas esvaziaram toda a água da escola. Tudo ficou em petição de miséria. Soubemos que foram alunos da própria escola quem fez isso. Seu Mário foi chamado e veio logo cedo. Não tivemos merenda nem água para beber. Ia no Aoud, mas choveu e estava armando mais temporal. Saí um pouco atrasada. E por tudo isso, não fui. Amanhã irei sem falta. Vitória chegou hoje alegre, conversando normalmente com todos. Recebeu e me deu Cr$ 2.000,00, dizendo “se a senhora precisar, é só pedir mais”. Ótimo. Teve melhoras.

12/03/80 – quarta-feira

Hoje o diretor mudou o horário de todo mundo. Na escola entrou mais uma merendeira que é minha amiga secreta Maria Madalena Lopes Pezzuol. É uma senhora muito simples, quase não sabe nem falar. Parece que é até meio passada. É muito vagarosa no se expressar e vagarosa em tudo. Antigamente eu a achava orgulhosa. Hoje vejo que não é nada disso, e sim, deficiência mental. Passei do horário das 7 às 11 e das 13 às 17 para 7 às 11 e das 12 às 16. Depois fui falar com o seu Mário para me deixar em horário direto e ele me pôs das 11:30 às 17:30 h. E a Jussara vai começar a estudar aqui. E sairemos quase na mesma hora, e tanto ela como eu teremos companhia para ir para casa à noite. Galetti foi na escola hoje, já era quase hora de eu sair quando ele chegou. Sr. Mário é amigão de boxe dele. Mostrou-lhe toda a escola. Saímos juntos e ele me trouxe em casa.

19/03/80 – quinta-feira

Estou pelejando para acabar um soneto para o Aoud e não consigo vir aquém das últimas estrofes. Esta poesia já faz dias que eu comecei. Fiz em dois dias a metade última do soneto. A metade primeira, tento, tento, tento, e não consigo. Já fiz vários dois primeiros versos, que não deram certo para encaixar com os outros últimos, que são os seguintes:

        “De novo, e em fogaréu tão denso e nosso,
        Ter-te. (Quem dera!) Mas já sei: não posso.

        Que aos meus desejos, tudo a vida trunca.”

                                                                                  Clô

terça-feira, 21 de outubro de 2014

QUE ME IMPORTA?

QUE ME IMPORTA ?

A noite vem, distante estás, tudo adormece.
Longínquo, além, dormes também, entre o regaço
De outra mulher que, ingenuamente, desconhece
O meu amor que chega a ti través o espaço
Para embalar os sonhos teus. Cantando em prece!
Pedindo aos Céus, (sem perceber o mal que faço)
O teu calor. O teu carinho, que me aquece
Quando me envolves junto a ti num longo abraço.

E quando a lua se debruça no meu leito
Pra torturar-me com lembranças do passado,
Recordo o instante em que te amei de qualquer jeito.
Mesmo sabendo que serias meu pecado.
Com os raios loiros que ela põe sobre o meu rosto
Fico a lembrar daquela noite enluarada
Que eu me entreguei aos braços teus, a todo gosto!
Sentindo estar perdidamente enamorada!
Não foi pra mim que tu nasceste. Mas, que importa?
Se eu te dei o meu amor, foi porque quis!
Às vezes, Deus, escreve certo em linha torta!
Pois, só contigo, é que eu consigo ser feliz.

Vês, meu Amor? Mesmo à distância estou contigo!
A qualquer hora estou rondando a tua porta.
A todo instante a solidão vem ter comigo
E em pensamentos, pelos ares me transporta
Ao teu redor; porque a saudade é meu castigo
Pelo deslize de te amar. Mas... Que me importa?
Se estás feliz, e estou também, então te digo:
- É quando Deus escreve certo em linha torta!

                                     Clotilde Sampaio


                   Brás, São Paulo, SP, 1963

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

(escrito entre 10 e 20 de abril de 1998) - sobre suas origens

1- Conheci-me, sendo gente, como filha mais velha de uma família que, diziam ser meus tios e que haviam me adotado como filha, quando eu estava nos meus primeiros dias de vida (para preencher a lacuna, de sua primeira filha morta) e que no final, tiveram mais nove filhos (2 mortos e 7 vivos) e aos quais sempre chamei de pai e mãe, e sempre os considerei como tais, e aos outros filhos deles, como meus irmãos, embora, desde muito cedo, notasse a enorme diferença entre a consideração deles para comigo e a consideração deles para com os outros filhos. Foram eles que me registraram como filha legítima deles, embora, em todas as ocasiões possíveis, e desnecessárias, fizessem questão de me maltratar, de me humilhar, e de jogar na minha cara que eles não eram meus pais, e que eu não passava de uma bastarda, e de uma intrometida.

2- Quanto mais eu crescia, mais percebia o desamor, o descaso, a má vontade, o desprezo, a humilhação, e a total incompreensão dos meus supostos pais e irmãos para comigo. E ao me sentir totalmente rejeitada e desamparada por todos aqueles que sempre estiveram mais próximos de mim, o que eu mais desejei em toda a minha infância e adolescência, era sumir, fugir, me libertar deles. Mas para onde? Como? Não havia nem para onde, nem como. E por isto e por todos os muito mais que isto, eu detestava a minha vida. Às vezes, caía numa depressão infinita, e só queria morrer. E ficava questionando tudo, e engendrando formas de morrer. Outras vezes, reagia: começava a fantasiar tudo o que se passava comigo de muito ruim, em coisas muito boas. Por exemplo, forçava o pensamento a acreditar que nada daquilo de muito péssimo que ocorria comigo era verdade. E que a verdadeira verdade é que eu tinha pais e irmãos maravilhosos, e que me amavam muito, e que tudo que faziam, e que até se sacrificavam, era para o meu bem, e para a minha felicidade. E me sentia momentaneamente melhor, para pelo menos me sentir mais conformada, e poder dizer em seguida: bem, já que ninguém gosta de mim, eu tenho a obrigação de, pelo menos eu, gostar muito de mim. E me punha a estudar com o maior afinco, para ser sempre a melhor aluna da classe, a aprender todos os cursos que podia, como costura, crochê, bordado, tricô, e a fazer qualquer serviço, tudo, com a maior perfeição possível, pensando: hoje, eu não sou nada, nem tenho nada. Mas no futuro, quero ser alguém, e ter tudo que sempre sonhei ter, e ser muito feliz. Por isto, não importa o que eu estou passando agora, nem o que mais terei que passar. Só quero e prefiro que tudo que seja de ruim, me venha agora, enquanto sou jovem e vigorosa e saudável e tenho forças para lutar e para resistir e ultrapassar seja lá o que for, do que mais tarde, quando eu nem sei imaginar como e em que estado de saúde e vigor estarei.
                                                                                Clô

domingo, 19 de outubro de 2014

SEMPRE QUE PARTES...


Sempre que vais de mim...
Sinto-te mais feliz, mais sorridente
Livre afinal, das cordas dos meus braços.
Deixas-te encaminhar a solto, independente
Na fuga dos nós cegos dos meus laços.

Sempre que vais de mim...
Percebo até na voz com que te expressas
O tom de uma alegria diferente
De quem se foi de mim, partindo às pressas
De volta ao seu jeitinho de inocente.

Sempre que vais de mim...
Me esqueces. E... me fazes teu  brinquedo.
E eu fico relegada ao abandono.
Sou a boneca de quem fartas muito cedo.
E voltas para a vida do teu sono.

Sempre que vais de mim...
Eu fico aqui de longe a imaginar-te
Correndo pela estrada toda nua
Fugindo da lembrança que foi tua
E que teima perseguir-te em toda parte.

Sempre que vais de mim...
Sei que desvestes tua fantasia
E ingressas no silêncio de alguns anjos
Que esperam-te do regresso da folia
Trazendo todo o íntimo em desarranjo.

Sempre que vais de mim...
Levas de mim toda a felicidade.
E eu fico a vê-la de braços contigo
Com gestos de profunda intimidade
Passeando nos caminhos da saudade
Que outrora percorrias só comigo.

Sempre que vais de mim...
Contido em rija e adulta indiferença
Só sabes levar a sós contigo
O abandono da minha presença.
E enquanto voas nos asfaltos de outras zonas
Eu fico a acalantar tua lembrança
Que deita em teu lugar e que ressona
Enquanto te devolves pra esperança.

                   Clotilde Sampaio

                     Brás, São Paulo, SP, 1963


sábado, 18 de outubro de 2014

Quinta-feira, 5 de outubro de 1978.


Levantei-me cedo. Fiz a marmita do João. Faz uma manhã esplendorosa. E um sol lindo e forte que domina e faz vibrar todo o Monte Cristo. Estou sem nenhum dinheiro trocado e a Vitória não tem nem dinheiro para tomar o ônibus. Juntou todas as moedas e só deu Cr$ 2,60, e o ônibus é Cr$ 2,80. Não vai dar nem para pagar a ida. Na volta terá que vir a pé. Fiz bolinhos porque também não temos trocado para comprar pão, leite e açúcar. O óleo também está no fim mas o pouquinho que tinha deu para fritar os bolinhos. Ia fazer chá mas não tinha açúcar. Só comemos os bolinhos. Estou com as dez notas de Cr$ 500,00 que o Aoud mandou ontem. Mas na venda não trocam. E também não tenho confiança de deixar a Jussara sair com Cr$ 500,00 na mão. Pode alguém mal intencionado ao vê-la trocar tanto dinheiro, segui-la e se apossar do dinheiro, e até machucá-la, o que é pior. Rezei só os Gongyos da manhã e da noite e 20 minutos de daimoku (...). Eram já mais de três horas quando saí para Suzano e a Vitória ainda não havia chegado. Fiquei preocupada porque ela está doente e sem dinheiro para voltar. E sem comer nada. Pode dar uma tontura, cair na rua, e é muito perigoso. Vou ao Banespa saber com relação à minha conta. Quando e porquê foi encerrada. No banco, depois de muita espera e de muita procura por parte do alto funcionário que me atendeu, este me disse o seguinte: é que por falta de movimento e de saldo, o computador eliminou a conta. Eu depositei e caiu fora da conta. O cheque caiu, eles não acharam o saldo correspondente e devolveram sem fundos o cheque. Mas que já estava tudo certo, e que o mesmo cheque poderia ser depositado outra vez. Fiz novo depósito de Cr$ 500,00, e ficou tudo okay outra vez no Banespa. Depositei mais Cr$ 4.000,00 no Nacional. E passei no Depósito São Luiz para avisar sobre o cheque e comprei um outro vitrô de 0,60 x 0,60 para o banheiro que ficou pequeno. Telefonei para o Baiano. Vou encontrá-lo no sábado das cinco e meia às seis. Fiz compras e fui para o ponto de ônibus que demorou muito. O Galetti passou de carro e me viu. Dali a pouco passou a pé e, ao me ver de óculos que eu pus só para enxergar bem o ônibus, gritou “Ei, dona! Está de óculos, heim! Precisa pôr a máscara”. Cheguei, a Vitória já havia chegado. Graças ao Gohonzon. Havia ficado na casa da tia porque não estava bem, até às quatro. O Ita foi quem chegou do jogo de bola com febre e dor de cabeça. Nem foi hoje na escola. Luciano (o encanador), com rifa de Cr$ 3,00 ganhou um jogo de panelas. Sortudo. Teve bafafá agora ao escurecer no cortiço aqui da frente por causa do chifrudo e tarado marido da Du Carmo que, desrespeitou a menina vizinha. O Doca veio me trazer os Cr$ 1.000,00.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

POEMA DO POEMA


Nem sei sobre o quê, aqueles
Poemas que li em sonhos
Sociais, reais, vertiam
E era lê-los e secá-los.
Achei um, demais esplêndido
Bem ao molde do que eu gosto.
Me levou para o infinito
Do mais misterioso abismo
Me elevou para as alturas
Daquele Céu que é o mais alto
Leve, limpo, e livre Céu.

Acordo, e não me recordo
Dos detalhes da Beleza
Cuja essência impregnou
Minha consciente inconsciência
Com a qual este poema
Vem do poema do poema
Que eu li no sonho que tive
Mas não sei de quem seria:
Se de alguém desconhecido (?),
De mim mesma (?), ou, da Poesia (?).

           Clotilde Sampaio

                    SP, Suzano, Monte Cristo, 02/07/87 – quinta-feira



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Clô – 17/01/99 – domingo - sobre suicídio

Hoje, 4a (quarta) tentativa de suicídio frustrada. Desta vez com 410 ml de insulina que fez que ia fazer efeito mas não fez. Senti-me quase desmaiada mas falhou. Ainda não estou bem mas não ao tanto necessário para morrer. Ita de novo vindo só para me provocar. Joãozinho falou-me em dinheiro que a mãe dele tinha mandado e eu lhe disse que não precisava. Pois às vésperas de morrer quem é que está precisando de dinheiro? Qualquer que seja ele, venha de quem for? Quando o filho perde a confiança na mãe ou quando a mãe perde a confiança no filho, tudo já foi para as cucuias. É o caso de mim para com o ... e dele para comigo. Ele nunca foi meu filho. Foi apenas um estranho, um impostor que por acaso nasceu da minha barriga. E quando se tem filhos como eu tenho tipo ..., e tipo ... , vale a pena estar viva? Até quando meu Deus, irei neste martírio? Até quando vou continuar tentando sem êxito?
                                                                                             Clô

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

VIDA E MORTE

      
              ...(“Chegou-me o estado máximo da mágoa! “)...
                                   AUGUSTO DOS ANJOS

               Para Mins Mesmas

De tantas desilusões, desiludida
De tanto fracassar para o mais forte
Por mais que eu queira amar a minha vida
Às vezes chego a desejar a Morte.

Eu gosto de viver! Eu amo a Vida!
E sei: mais que ninguém, a quero eu.
Dentre tudo o que eu amo, é a mais querida
Por ser um dom que recebi de Deus.

Mas, mesmo amando-a, não desprezo a Morte.
Amo-a também. Pois, sei que a minha sorte,
É amar o que já tenho, e o que me vem.

E se a Vida não me quer, só me maltrata,
Se me é, às vezes, por demais ingrata,
Morrer pra mim, não é um mal. É um bem.

                    Clotilde Sampaio

                    Brás, São Paulo, SP, 1965.


Clô. 10/01/99


Flagrantérrima a ignorância das pessoas a respeito da morte e em se falar de morte. Ninguém gosta. É como se todos fossem eternamente imortais. Não querem falar sobre ela, não querem saber nada sobre ela. Isso também acontece com a loucura. Dois assuntos tabus. Dois assuntos proibidos. E chegam até a ficar de mal com a gente e a nos diferenciar preconceituosamente se ousamos abordar sobre quaisquer dessas duas gritantes realidades que podem acometer a qualquer um. Todos querem a alegria, a farra, os bons momentos, o lazer, a diversão a qualquer preço, a qualquer custo. Mas encarar a sério a loucura e a morte ninguém quer. Mesmo as pessoas mais abertas como Dona Maria e Ivonete, não aceitam a idéia. Elas não enxergam que quanto mais intimidade tivermos com a loucura e com a morte, melhor seremos capazes de vivermos a vida. Será que sou louca? Demente? Decrépita? Será que sou só eu assim, esta espécime rara que escandalizo a todos, com esta minha mania de vangloriar e defender tudo isto que trago já de natureza em mim? Sim, porque a loucura e a morte são coisas que fazem parte de mim.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

À TUA ESPERA

      
Eu sei meu Bem, quão longe estás do meu afeto.
De tudo enfim, que tenho n’alma pra te dar.
Mas, mesmo assim, teima em bater desinquieto
Dentro de mim, um coração mais que repleto
De amor por ti. Ei-lo! Que chega a transbordar!

E tu não vens. E eu cá sofrendo à tua espera!
Já saturada de aturar tantas saudades.
Destas que mandas em teu lugar, vir de Itaquera
Pra vigiar a tua Clô, noutra cidade.
Não crês então, Amor, no quanto eu sou sincera?
Que continuo a ser a mesma que antes era?
Que o que te digo é a quintessência da verdade?

Por que te fazes possuído da maldade
De me deixar por tanto tempo aqui sozinha?
Tenhas por mim, um pouco mais de piedade.
Pois afinal, sei que não tens necessidade
De juntar mais desditas, às muitas que eu já tinha.

Não me tortures tanto assim, te peço agora.
Mande-me mais migalhas de felicidade.
Destas que trazes quando vens, levando embora
Antes mesmo de saciar as ansiedades
Que se acumulam no meu ser à toda hora
Em borbotões que jorram à toda intensidade.

E trazem a mim, a tua voz, rasgando o espaço.
Chegando envolta em plúmeas nuvens de quimera.
Sarcástica, irônica, a perguntar-me o que é que eu faço,
Quando debalde aqui me encontro à tua espera.

Digo-lhe então, que em meu amor, nada se altera.
Apenas vejo na esperança vã, frustrada,
Que estou perdendo a minha Vida. Toda à espera
De quem pra mim ao mesmo tempo é tudo e nada.

                                Clotilde Sampaio


                                      Brás, São Paulo, SP, 1963.