Eu sei meu Bem, quão longe estás do meu afeto.
De tudo enfim, que tenho n’alma pra te dar.
Mas, mesmo assim, teima em bater desinquieto
Dentro de mim, um coração mais que repleto
De amor por ti. Ei-lo! Que chega a transbordar!
E tu não vens. E eu cá sofrendo à tua espera!
Já saturada de aturar tantas saudades.
Destas que mandas em teu lugar, vir de Itaquera
Pra vigiar a tua Clô, noutra cidade.
Não crês então, Amor, no quanto eu sou sincera?
Que continuo a ser a mesma que antes era?
Que o que te digo é a quintessência da verdade?
Por que te fazes possuído da maldade
De me deixar por tanto tempo aqui sozinha?
Tenhas por mim, um pouco mais de piedade.
Pois afinal, sei que não tens necessidade
De juntar mais desditas, às muitas que eu já tinha.
Não me tortures tanto assim, te peço agora.
Mande-me mais migalhas de felicidade.
Destas que trazes quando vens, levando embora
Antes mesmo de saciar as ansiedades
Que se acumulam no meu ser à toda hora
Em borbotões que jorram à toda intensidade.
E trazem a mim, a tua voz, rasgando o espaço.
Chegando envolta em plúmeas nuvens de quimera.
Sarcástica, irônica, a perguntar-me o que é que eu faço,
Quando debalde aqui me encontro à tua espera.
Digo-lhe então, que em meu amor, nada se altera.
Apenas vejo na esperança vã, frustrada,
Que estou perdendo a minha Vida. Toda à espera
De quem pra mim ao mesmo tempo é tudo e nada.
Clotilde Sampaio
Brás, São Paulo, SP, 1963.
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