Comecei a trabalhar no “Cruzeiro do Sul” novinho. Encontrei
bastante gente conhecida: Dona Alzira e Dona Neuza do SESI do Monte Cristo, e a
Dorcas. O novo diretor, senhor
Mário, também estreou hoje comigo. É simpático. Aliás, parece ser. Fiquei
nervosa o tempo todo, e não dei conta de bater as listas de chamadas todas. Só
duas e com muito sacrifício. Vi Helena. Disse que o marido foi embora e levou
tudo. Está contente. Lourdes foi na escola nos ver e falou da trágica morte do
marido em desastre de moto. Disse que ele queria morrer assim mesmo: com o
corpo todo despedaçado, de modo que só desse para juntar os pedaços num saco.
Foi atendido. Pareceu-me que a Dorcas não gostou de eu ter mudado de merendeira
para auxiliar de secretaria. Fez uma cara! A Lourdes pelo contrário. Disse que
ficou muito contente de ver que eu tinha subido. Entro às sete e saio às onze
para o almoço. Volto às treze e volto às cinco. Fui na Dona Marta na hora do
almoço. Ela me contou da japonesada. Disse que a Elza Tikutan contou no Tikusá
um relato que todo mundo sorriu e achou grande coisa. Só ela, Dona Marta, é que
não gostou. Contou que comprou o telefone, rezou dez horas e desafiou o
Gohonzon. “Gohonzon, eu te desafio: mostre o seu poder. Eu quero o meu telefone
ligado bem depressa”. E o telefone foi ligado com só 14 dias, mas que foi só
por benefício do Gohonzon. Boba. Parece que nunca viu telefone. Se fosse algo
de extrema necessidade, mas desafiar brutalmente o Gohonzon só por status. Seria
mesmo benefício o que ela recebeu? Pode também ser castigo. Faz tempo que não vejo
o Galetti. Nem Nancy. Não quero nem pensar na Vitória. Depois do que ela me
fez, morreu. O Américo não dormiu ontem aqui. Soube que foi mandado embora da
firma. Preocupo-me: onde agora ele irá encontrar outro emprego? Deve ter ido
embora para São Paulo. E tomara que fique por lá. O Ita está firme no Dr. Gil.
Mas a meta dele não é essa. Quer chegar na Papelão. Torço por ele. O João
precisa por na cabeça que modelação não é coisa para ele. Deve por na cabeça
metas mais altas. Por exemplo: cultura, Vivaldo. Bahia, ou qualquer outro lugar
centro de cultura que não seja Suzano. Vitória e Elias vieram no sábado. Pediram
que eu fosse assinar o casamento. Não assino. Me esqueçam. Nunca a Vitória
precisou de mim pra nada. Eu sou a última a saber das coisas, quando deveria
ser a primeira. Vocês me jogam no lixo, me esperam apodrecer e depois ainda vêm
querendo tirar algum proveito? Saí e deixei-os sozinhos na cozinha. Quando
voltei, já não estavam mais. É bom que nunca mais pisem aqui.
Clotilde Costa Sampaio nasceu em 17 de maio de 1940 em Santa Cruz do Rio Pardo, SP e faleceu em 17 de janeiro de 2010 em Mogi das Cruzes, SP. Poeta desde os 23 anos quando, viúva com dois filhos, conheceu o grande amor de sua vida e com ele teve mais dois filhos, em SP, capital. Construiu sua casa em Suzano, SP. Alternava períodos em Salvador, BA, momento em que sua obra ganhou e alcançou novo vigor poético. Deixou os filhos João, Vitória, Itamaraty, Jussara e Tarcila.
Nenhum comentário:
Postar um comentário