segunda-feira, 20 de outubro de 2014

(escrito entre 10 e 20 de abril de 1998) - sobre suas origens

1- Conheci-me, sendo gente, como filha mais velha de uma família que, diziam ser meus tios e que haviam me adotado como filha, quando eu estava nos meus primeiros dias de vida (para preencher a lacuna, de sua primeira filha morta) e que no final, tiveram mais nove filhos (2 mortos e 7 vivos) e aos quais sempre chamei de pai e mãe, e sempre os considerei como tais, e aos outros filhos deles, como meus irmãos, embora, desde muito cedo, notasse a enorme diferença entre a consideração deles para comigo e a consideração deles para com os outros filhos. Foram eles que me registraram como filha legítima deles, embora, em todas as ocasiões possíveis, e desnecessárias, fizessem questão de me maltratar, de me humilhar, e de jogar na minha cara que eles não eram meus pais, e que eu não passava de uma bastarda, e de uma intrometida.

2- Quanto mais eu crescia, mais percebia o desamor, o descaso, a má vontade, o desprezo, a humilhação, e a total incompreensão dos meus supostos pais e irmãos para comigo. E ao me sentir totalmente rejeitada e desamparada por todos aqueles que sempre estiveram mais próximos de mim, o que eu mais desejei em toda a minha infância e adolescência, era sumir, fugir, me libertar deles. Mas para onde? Como? Não havia nem para onde, nem como. E por isto e por todos os muito mais que isto, eu detestava a minha vida. Às vezes, caía numa depressão infinita, e só queria morrer. E ficava questionando tudo, e engendrando formas de morrer. Outras vezes, reagia: começava a fantasiar tudo o que se passava comigo de muito ruim, em coisas muito boas. Por exemplo, forçava o pensamento a acreditar que nada daquilo de muito péssimo que ocorria comigo era verdade. E que a verdadeira verdade é que eu tinha pais e irmãos maravilhosos, e que me amavam muito, e que tudo que faziam, e que até se sacrificavam, era para o meu bem, e para a minha felicidade. E me sentia momentaneamente melhor, para pelo menos me sentir mais conformada, e poder dizer em seguida: bem, já que ninguém gosta de mim, eu tenho a obrigação de, pelo menos eu, gostar muito de mim. E me punha a estudar com o maior afinco, para ser sempre a melhor aluna da classe, a aprender todos os cursos que podia, como costura, crochê, bordado, tricô, e a fazer qualquer serviço, tudo, com a maior perfeição possível, pensando: hoje, eu não sou nada, nem tenho nada. Mas no futuro, quero ser alguém, e ter tudo que sempre sonhei ter, e ser muito feliz. Por isto, não importa o que eu estou passando agora, nem o que mais terei que passar. Só quero e prefiro que tudo que seja de ruim, me venha agora, enquanto sou jovem e vigorosa e saudável e tenho forças para lutar e para resistir e ultrapassar seja lá o que for, do que mais tarde, quando eu nem sei imaginar como e em que estado de saúde e vigor estarei.
                                                                                Clô

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