sexta-feira, 31 de outubro de 2014

21/04/98 – terça - Monte Cristo – Clô

Não sei para onde vou. Sei que vou. Por aí... À procura de algo, que eu não sei o que é, se existe, nem onde está...Nem como é... mas que eu sinto falta, e necessito, porque é a única coisa que pode me completar, e me solucionar. Seria a Morte? Ou, uma outra espécie de Vida? Só sei que não tem nada a ver com esta coisa que idolatram tanto, e que chamam de vida, e que, para mim, está muito aquém de ser aquilo que eu sempre considerei como sendo A VERDADEIRA VIDA.
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Estou com a cabeça de um jeito que, tudo que eu penso de noite, não é viável para o dia, e tudo o que penso de dia, não é viável para a noite. Por exemplo, anteontem, quando eu fugi de casa, decidida a abandonar tudo e nunca mais regressar, quando vi que estava próximo de anoitecer, com os pés doloridos, e o corpo quebrado de tanto andar, em vez de prosseguir, resolvi parar. E, só parei, sabe onde? Justamente no Cemitério do Raffo. Fui visitar minha mãe , e invejei-a por já ter se libertado do seu corpo tão pesado, e das suas espirituais convicções, e do seu espiritual orgulho, bem mais pesados até, que o seu corpo, e que só a fizeram distanciar-se cada vez mais de todos os seus, e de todos que a conheceram, pois , para todos nós, ela era apenas uma muito estranha pessoa, que só fazia tudo ao contrário do que deveria ser feito. Hoje, ela já não precisa de ninguém nem de nada. Está lá, escondidinha, como ela sempre disse querer ficar, mas, que em vida, não conseguiu. Ela dizia-nos: “o meu desejo, é ficar fechada num quartinho, onde eu não veja ninguém, nem ninguém me veja, e que alguém me traga comida e água por um buraco debaixo da porta, e só”. Mas quanto mais ela envelhecia, mais desespero ela tinha, para não ficar parada num só lugar. E fosse onde fosse, mesmo já cansada, ela não parava nem aqui, nem lá no Jardim Fernandes, nem em Sorocaba, nem em lugar nenhum. Só parou, quando o seu corpo se paralisou por completo, e entrou em coma, para ir de vez, desta vida tão sem sentido. Hoje, finalmente, ela está no seu tão sonhado quatinho, escondidinha, sem precisar ver, nem ser vista por ninguém, e nem que ninguém lhe leve comida nem água nenhuma, nem nada. Pois o seu quartinho, nem porta, nem buraco debaixo da porta tem, e nem ela tem mais nenhuma necessidade de nada. Só de dormir, e descansar. Hoje, as pessoas que eu mais invejo são os mortos. Hoje (hoje só, não) já vem de longe, bem antes mesmo da senhora perder o seu imenso amor à sua embora muito sofrida vida, eu já tinha perdido o pouco amor que eu sempre tive à minha. Só que a senhora que não desejava, nem pensava (ao contrário de mim) abandoná-la tão cedo, já se foi, enquanto eu, ainda estou perambulando aflita, desesperada, contra a minha vontade, por aqui. E como eu estava dizendo no começo, de repente, parei, e desejando covardemente voltar para casa, telefonei para a Jussara perguntando pelo Ita e pela chave da casa. E em vez de continuar caminhando só para frente, me distanciando cada vez mais de tudo e de todos, como é o meu propósito, regredi. Aproveitei o ônibus que levou todos os acompanhantes daquele defunto tão bonito (que fisionomia e que tom de pele morena lindos!) que dava até dó ter que enterrá-lo! Acho que foi por isso, que escolheram os últimos minutos do final de expediente cemiteriais daquele dia, 19/04/98 (dia do índio e dia do aniversário de 11 anos da Luandinha!) domingo, para enterrá-lo! Engraçado é que, ao vê-lo, não me lembro de ter feito aquela minha clássica pergunta: por que não sou eu? ( percebi que ele era de religião crente, porque alguns acompanhantes ao redor do caixão, estavam se tratando e se referindo a ele, como “o irmão”.


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