XV – 26/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP
1) Estou esperando desde o fim de semana que alguém da Bahia. Mas ninguém se toca, nem eles, nem o telefone. Resolvo falar com Claudete do Pelourinho. E ela me disse que estava doente e que está participando do filme Jubiabá, que está sendo feito em Salvador e Cachoeira. Disse que sua participação é de atriz (e não extra) e que faz o papel de uma pessoa mais ajuizada do Pelourinho, que aconselha as prostitutas para mudarem de vida. Chamou-me para ir para lá, ofereceu-me a sua casa. Disse que vai ver sobre apartamento para alugar tanto no seu prédio quanto em outros vizinhos. Contou-me que Clarindo é candidato a deputado estadual. À noite telefonei para Clarindo e ele confirmou: é candidato pelo PMDB que é o partido mais em evidência no momento em Salvador. Aconselhei-o a ir para o PTB. Disse que talvez até mude mais tarde. E que vai precisar de trinta mil votos para se eleger. – Você ganha sim. Você tem o dom de fascinar as pessoas. Não há quem resista ao seu charme, disse-lhe eu. De fato, Clarindo é o negro de alma luminosa. Brilha tanto, clareia tanto, que, se não fosse a sua pele negra, que funciona de quebra contra sua luz, diante da sua pessoa, ficaríamos todos irremediavelmente cegos, diante de tanto fascínio para com tanto brilho.
2) Chegamos atrasadas, eu, a Dinorá e a Liliam à reunião de Tikusá das 15 horas de hoje. Já havia passado o Gongyo e a 2ª parte da palestra já havia começado também. Arimura estava lá. Foi o último a falar e disse coisas importantes respondendo a algumas perguntas feitas por alguns dos outros membros que enchiam, superlotando o salão Kadono. Entre outras coisas que vi, entrou e veio a calhar em mim (pelo menos eu senti que talvez fosse para comigo mesma que ele orientava): que não adianta a gente sair de um lugar para tentar ser feliz noutro lugar. O que vale é a gente lutar no lugar onde já se está. E eu pensei: então por que é que ele saiu do Japão e veio para aqui? Na saída, Akytian e Dona Miê, ao me cumprimentarem, se referiram ao mesmo assunto: que eu não deveria ir, que o meu lugar de luta é aqui. E Akytian contou que Kaoro, seu irmão, foi pra Rondônia, está muito bem e lutando bastante. E eu falei: mas a Sra. Nagasawa também não veio do Japão para aqui? Não é aqui que ela se sente bem? Dona Miê disse que ela veio conhecer o Gohonzon aqui. – Mas muita gente que já tinha o Gohonzon lá também veio pra cá já com o Gohonzon. E Kaoro também não foi para Rondônia com Gohonzon e não está se sentindo muito bem lá? E João também que foi pra Bahia não ficou bem lá? Então. Quando a gente não está bem num lugar mesmo com Gohonzon é melhor tentar outro lugar e recomeçar uma nova vida. Quem sabe é lá o meu lugar?
3) Sabe no momento de quem mais tenho inveja? Daqueles que estão deitadinhos, quietinhos, sossegadinhos, escondidinhos, mortinhos, desfrutando alheios e despreocupados de todo o conforto, deliciosamente repousante das suas respectivas sepulturas.
4) Dual, dualidade, dueto. Dividida em duas... De repente sou duas habitando em mim mesma, ao mesmo tempo. E é aquela briga de foice violenta e contínua entre as duas, no meu íntimo. Cada qual delas quer dominar-me mais, quer apoderar-se do mais do meu corpo e, no momento, quem está ganhando é a mais forte, é a que reúne todas as qualidades suas: a negativa, depressiva, covarde, desanimada, a que só quer morrer. Esta é a mais forte, a mais dominadora. A outra, a positiva, a alegre, corajosa, ambiciosa, otimista, ousada, diante da presença da primeira, quase não me comparece. E quando vem, nem tão rápido e com tanta pressa, que mal eu a sinto, e ela já me deixa. E eu fico entregue aos cuidados da outra por tanto tempo, que até perco as esperanças de que a positiva volte. E é tanto e tão forte a influência da má que eu às vezes quero desistir de viver. E é quando ela quase consegue atingir sua meta que é a de me destruir por completo. Por pouco que ela não consegue. Mas temo que, desse jeito, qualquer dia conseguirá. Pois cada dia eu enfraqueço mais. E é isso o que ela quer: minar as minhas forças.
5) Tem hora que eu sou capaz de tudo. Tem hora que eu sou capaz de nada.
6) Quem nos comanda? O cérebro. Com ele poderemos nos fixar para sempre a um só lugar, percorrermos muitos lugares ou não irmos a parte alguma.
7) Num desses dias, acho que foi no sábado, amanheci e fiquei quase a tarde toda cantando esta canção bem nordestina:
A vida aqui só é ruim
Quando não chove no chão
Mas se chover dá de tudo
Fartura tem de porção
Tomara que chova logo
Tomara, meu Deus, tomara
Só deixo meu Cariri
No último pau de arara
Enquanto a minha vaquinha
Ficar na pele e no osso
E puder com o chocalho
Pendurado no pescoço
Vou ficando por aqui
Que Deus do Céu me ajude
Quem sai da terra natal
Em outros cantos não para
Só deixo meu Cariri
No último pau de arara
Só deixo meu Cariri
No último pau de arara
E cantava e repetia automaticamente esta música e ela não queria me deixar por nada. Achei até esquisito isto porque antes nunca me importei de cantá-la assim por inteiro nunca, e nunca ela me apareceu tão fácil e tão completamente para ser assim tão insistentemente cantada. No fundo, a única explicação que me vem é a de questão psicológica relacionada com a seca braba que, pela primeira vez desde que me conheço por gente, está fazendo aqui nos estados do sul, ou seja, de São Paulo para baixo, tão semelhantes às já costumeiras do Nordeste e à minha pretensão de deixar São Paulo para sempre e ir me para a Bahia. Talvez inconscientemente eu tenha me posto na pele de um nordestino que pensa vir mas não está ainda bem decidido se deve vir mesmo para o Sul na hora do desespero como é o que está acontecendo comigo exatamente neste momento: ao mesmo tempo que penso ir, penso também não ir.
8) Depois do Tikusá, passamos na casa da Jussara. (É o 2º domingo que ela não vem em casa e que eu vou vê-la). Eu não gostei nada de vê-la como está. Pálida. Branca por falta de tomar sol. Não passou de ano. E não quer mudar para melhor o seu estilo de vida. Pelo menos confessou que não quer ir para a Bahia. Prefere ficar como está, com o namoradinho bobo, mole que arranjou, com os colegas que não estudam e que se acomodam como estão. Está muito contente de estar com eles, e com a mesma mentalidade pequena que eles têm. Só trabalhar em qualquer emprego, pagar um aluguel barato de um cômodo e cozinha qualquer em qualquer lugar, comer, dormir, namorar, sustentar e dar mordomias a todos os namoradinhos bestas que arranjarem e aos gatos que fazem parte da família. Bela vida. Bela droga de vida. Bela droga, sem objetivos. É fácil viver assim. Tranquilamente, sem se preocupar com um futuro melhor, sem se preocupar em ser alguém de gabarito na vida. Como se a vida só fosse isso. Só que a vida não é só isso. Ela precisa de partir para uma realidade mais alvissareira que as dela, muita coisa para poder se manifestar. Não reza, não luta, não tem ideais, não tem objetivos incomuns. Só está desperdiçando juventude e beleza à toa. E não enxerga.
9) Só agora Miriam resolveu falar (e não pra mim) que o meu filho João, quando morava lá na casa da avó, quando tinha quatorze anos mais ou menos, desrespeitou-a, ou seja, perdeu o respeito que deveria ter para com ela, sua tia. Fico perplexa, porque não foi esta a educação que dei a ele. E porque aqui dentro de casa eu nunca soube ele ou o Ita tenha desrespeitado nenhuma das irmãs, nem a Dinorá, que sempre morou aqui conosco. Será que aconteceu mesmo? Ou ela só está falando isso porque eu falei do filho dela? E, se aconteceu, por que ela não me contou na época em que aconteceu? Ou melhor, porque ela nunca me contou? Por que ela continuou com amizade com João? Por que só agora eu vim a saber disso pela Matilde e não por ela própria? Na primeira oportunidade quero por tudo isso em prato limpo, acareando os dois, frente a frente, para saber seja qual for e descarar o João se ele for culpado ou se ela tiver fazendo uma calúnia. Essa história está tão esquisita quanto a história da criança que dizem que é do João e da sobrinha da Dona Iracy e que todo mundo só foi saber depois que o João já tinha se casado com Ari.
10) Hoje a música que mais me pediu para que eu a cantasse foi aquela do Lupicínio Rodrigues:
Você sabe o que é ter um amor
Meu senhor
Ter loucuras por uma mulher
E depois encontrar esse amor
Meu senhor
Nos braços de um outro qualquer.... (Nervos de Aço, reescrito na íntegra)
11) Minha querida e inesquecível mais que mestra Dona Marina Augusta Vicente Caetano.
12) Ita chegou às 22:30 horas de Bertioga e disse que Meire estava triste porque estava pensando que eu estava com raiva dela por ciúmes dele, meu filho. Telefonou a ela e disse que eu estava com a cara feia. Perguntou a ela se queria falar comigo. Ela não quis. E ele desligou dizendo-me que ela me mandou um beijo. Não dei a mínima.
13) Fomos dar umas voltas de carro eu, Dinorá e Liliam após sairmos desajeitadamente e chateada da casa da Jussara. Na volta, vimos um ônibus parado e uma mulher caída à beira do muro como se morta. Rodeada de gente. Parei o carro e perguntei a um moço que passava o que tinha acontecido e ele disse que a mulher estava bêbada e fora atropelada pelo ônibus. Já íamos vê-la quando vimos o motorista e o cobrador do ônibus pegando-a e colocando-a dentro do ônibus. – Será que eles vão leva-la para o hospital? Falei para a Dinorá. – Dá medo deles pegarem a mulher e jogarem em qualquer lugar só para se livrarem dela. Pois o ônibus está vazio, só com o motorista e com o cobrador. E o certo era eles chamarem a polícia. Vamos atrás deles? E viramos o carro e fomos até o Hospital São Marcos sem ver o ônibus à nossa frente. Pensamos até que ele tinha descido para a Nove de Julho ou tomado outro rumo qualquer e desaparecido. Mas quando chegamos lá o ônibus ali estava em frente ao São Marcos. Dei a volta por trás do hospital e, quando ia passando em frente, vimos a mulher sendo conduzida do ônibus por maca para dentro do hospital. E o motorista do ônibus, de cor, indo atrás, para dentro do hospital. Louvei a atitude deles. Vieram à toda, tanto que sumiram de nós na estrada. Deram tudo que puderam para conduzir a mulher o mais depressa possível até o hospital. Ainda bem que tiveram consciência. Já pensou se não tivessem? Poderiam nem ter parado o ônibus. Terem ido embora deixando a mulher caída lá onde foi jogada e também jogar ela em qualquer lugar ermo, só para se livrarem da dor de cabeça e da responsabilidade que iriam ter. Ainda bem que foram humanos. Engraçado, né tia, eles falam tanto de gente preta, e o motorista é preto, e foi humano, falou-me a Dinorá. – E gente preta é gente boa. São mais gente do que qualquer branco, respondi-lhe.
Clô