quarta-feira, 23 de julho de 2025

XXI – 06/02/86

XXI – 06/02/86 – quinta-feira – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) Inteligência e caráter como os do Sr. Presidente Jânio Quadros está em extinção. Ou melhor, vão se extinguir com o Senhor. Pena que tudo tenha mudado tanto! Os valores, as pessoas, os conceitos das pessoas. E eu tenho medo que, neste mundo tão deturpado de hoje, já não haja mais lugar para a sua sinceridade, dignidade, honestidade e rigorosidade. Nem para o senso de justiça, de retidão, de imparcialidade, de hombridade e de trabalho. O Sr. vai se matar de trabalhar para o bem do povo à toa porque as forças terríveis vão procurar e se empenhar com todos os meios para jogar o povo, ou seja, a maior força que é o povo, contra o Sr., como sempre fizeram. E a sua luta de restaurar um clima de confiança para com o Brasil, através da sua pessoa será debalde. Infelizmente, Presidente, de todo este povão que está aí, pouquíssimos, raríssimos o merecem. Os mais, embustes inconscientes, só merecem o que eles inconscientemente querem e pedem: sofrer cada vez mais. Parece que o destino desses pobres coitados é fatal e irremediavelmente sofrer. Só sofrer. 

 

2) Vestidos, os mesmos de sempre, batidos, surrados. E até bem desbotados (o que não era moda naquele tempo). Mas, mesmo assim, dentro deles eu fazia sucesso. Todos os meninos queriam me namorar comigo. Eu só gostava de um: Pedrinho. Mas não gostava de desgostar os demais. Por isso, de vez em quando, eu e Pedrinho brigávamos. E, no ensejo desta briga, sempre alguém tirava proveito da brecha deixada por ele. Chegava a ser um namoro contra a minha vontade. E nem sei se seria mesmo um namoro. Mas o que acontece é que o oportunista dizia pra todo mundo que estávamos namorando e ficava como se realmente estivéssemos. E, às vezes, chegava até a me sentir lisonjeada. Mas, em geral, eu me tornava apática e fazia tudo para pular fora depressinha. 

 

3) Fomos ontem, eu e o Ita, no aeroporto de Cumbica. Ele foi comprar as passagens para viajar pra Salvador e eu fui com ele para aprender o caminho para levá-lo hoje até o aeroporto. Será no vôo 354 de 12:30 de amanhã, pela Varig. Pagou pelas passagens ida e volta CR$ 1.131.000,00. Deu quatrocentos e poucos cruzeiros pela entrada e pagará duzentos e sessenta e cinco cruzeiros por cada uma das restantes dez prestações. Ficou contentíssimo. Ele merece. Afinal, ele trabalha e se esforça para isso mesmo. Pena que foi mal localizado. É um aeroporto muito perigoso devido à neblina. E também porque por enquanto ainda não está bem equipado. Falta muita coisa ainda nele. Por isso as causas dos dois recentes desastres ocorridos lá a poucos dias atrás. 

 

                                                                              Clô

sábado, 19 de julho de 2025

XX – 02/02/86

XX – 02/02/86 – domingo – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

01) Ontem à tarde Doca chegou e eu falei pra ele de Lilinha, que já havia mais de uma semana que ela não evacuava e que eu estava preocupadíssima com ela por isso. que já havia lhe dado um monte de Magnésia da Philips e nada havia resolvido. Ele queria levá-la ao médico. Disse-lhe que não precisava. Era só ir lá no Seu Moacir da farmácia de Calmon Viana, que ele era muito bom e muito entendido. E que eu confiava mais nele do que em certos médicos. Que várias vezes eu já o havia consultado por diferentes motivos e sempre o que ele receitava dava certo. Que se levasse no médico, além do tempo que a gente ia gastar, ainda o médico ia olhar pra Liliam de qualquer jeito e dar um monte de remédios que só iriam servir para intoxicá-la e às vezes, em vez de melhorar só poderia piorar a situação. Ele perguntou se eu ia junto com ele levar a Liliam lá. Disse-lhe que não precisava. Que era só ele contar como ela estava que ele daria o remédio. Ele se foi em seguida e trouxe três supositórios bem compridos e bem fininhos destes que eu ainda nunca havia visto igual. Disse que era pra colocar um daqueles naquele dia à tarde e, se não fizesse efeito, no domingo de manhã colocar outro. Bem depressinha tratei de colocá-lo na Liliam. Não foi fácil se colocado como os outros tradicionais que, além de menores, são mais macios. Estes eram duros, compridíssimos (uns quinze centímetros), supositórios de glicerina com um nome americano. Mas foi acabar de ser colocado e tiro e queda. Em menos de cinco minutos funcionou. E eu que pensei que era preciso primeiro que ele se derretesse todo para surgir o efeito. Lilinha fez uma baita e única pelotona de cocô bem duro que foi preciso eu quebrá-la toda em pedaços para poder jogar no banheiro e não entupi-lo. E o supositório estava todo fincado no meio do cocô, como foi posto, sem desgastar. Aí foi que eu vi que a Magnésia da Philips pra Lilinha só fez efeito de água, ou seja, não quis dizer nada. Só foi possível mesmo esse tão demorado, difícil, preocupante santo remédio, o supositório diferente.

 

2) Inventei de telefonar para o Rio, para Djacir, já passavam das 22 horas de sábado, para saber sobre o endereço da primeira esposa do Manoel e minha antecessora Dona Miriam que está morando agora aqui em São Paulo e que eu preciso visitá-la antes de ir pra Salvador. Foi Abadias quem me atendeu e tanto ele quanto eu ficamos contentes com a surpresa. Ele está no Rio de férias, vindo dos EEUU. Disse que não está com vontade nenhuma mais de voltar à América do Norte. E sim, está mais decidido a ficar aqui de novo e para sempre pois, conforme concordou comigo, Brasil é Brasil e não há país nenhum melhor do que o Brasil. Bastante simpático. Gostei dele. Pareceu-me bastante descontraído e simples. Pareceu-me (não sei se é) até melhor, mais simples que Djacir. Perguntou de Vitória, de todos e mandou abraço pra todos e nos convidou a todos para irmos visitá-los no Rio. Iremos sim, como não? E o mais depressa que puder. Tenho documentos que preciso mostrar a eles, sobre a mudança de nome do Manoel ainda na Paraíba.

 

3) Faz mais de duas semanas que eu não tomo banho. E olhe que estes dias (não hoje que choveu à tarde inteira) tem feito o maior calor que eu senti até hoje. Devo estar até fedendo. Mas não estou ainda com a menor vontade de tomar banho. Aliás, não tenho tido vontade ultimamente de fazer nada. Nem rezando estou e só tenho cuidado da Lilinha porque não tem outro jeito. Se eu não cuidar dela, ela não se cuida sozinha. Mas a casa, por exemplo, está aquela sujeira. 

 

                                                                                 Clô

sexta-feira, 18 de julho de 2025

XIX – 31/01/86

XIX – 31/01/86 – sexta-feira – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) João acaba de telefonar (10:00 horas da manhã) contente: passou no vestibular para Arquitetura da UFBA! Que bacana! E eu fico orgulhosíssima com o meu filho! Isto quer dizer que aqui em casa terei um engenheiro industrial, uma professora de letras, um arquiteto e uma médica! Que lindo! Muito lindo ainda será quando Lilinha sarar e puder também estudar e se formar também em alguma coisa grandiosa na universidade. Sim. Eu tenho esperanças de que isso aconteça sim, porque para o Gohonzon, nada é impossível. E eu tenho certeza de que a verei totalmente curada, totalmente normal, e inteligentíssima, e lindíssima aproveitando todas as coisas boas da vida. 

 

2) João me informa que leu na “Isto é” que Farabulini Jr. e seu filho acabam de deixar Jânio Quadros. Será? Farabulini, desde que me conheço por gente, toda vida foi janista. Dos maiores janistas. E não acredito que só pelos motivos alegados (que Jânio fica só recebendo gente ligada ao ex-ministro Delfim Neto e Maluf, e gente da “velha república” em seu gabinete. E esse é o motivo da desincompatibilização dele com Jânio, logo ele que conhece Jânio como ninguém e sabe por que Jânio faz o que faz. Será? Será verídica esta história? Não estou acreditando. E, se realmente for, Farabulini já era pra mim. Melhor porque assim só fico pra Suzim. 

 

3) As meninas, Vitória e Rosinha, vão ficar lá ainda. Só virão depois do carnaval. Melhor. Assim terei mais tempo pra resolver as coisas. E Ita e Jussara, estando lá, verão o que terá que ser visto e nós todos faremos tudo de um modo melhor: terei mais tempo aqui pra fazer tudo o que tenho a fazer e com maior perfeição por exemplo. Escreverei e encaminharei à Global o meu livro, irei à audiência com Jânio, levarei Lilinha para o exame do ouvido, consertaremos o carro, pagarei todas as dívidas da casa e do terreno, e outras coisas mais. Cabula é o bairro que as meninas iam comprar o apartamento, agora lembrei.

 

4) Jânio está botando pra quebrar: nem um mês faz que ele tomou posse (amanhã dia 01/02) e o que ele bagunçou durante todos estes dias não foi brincadeira. 1º despediu 20.000 funcionários. 2º tirou todos os marreteiros do centro da cidade. 3º tirou o cafezinho (caríssimo) de todas as repartições municipais. 4º contratou mais de cinco mil homens para a polícia municipal. 5º corrigiu as prestações de todos os impostos de acordo com as ORTNs da ordem do dia de recebimento dos mesmos. 6º multou todos os conhecidíssimos prédios, vários teatros (Ruth Escobar, por exemplo), cinemas e prédios do centro com ameaça de interdição dos mesmos se não forem recuperados nas suas danificações. 7º fechou um supermercado na Praça da Sé. 8º vai fechar qualquer cinema que exibir o filme de Jean Luc Godard sobre a Virgem Maria. 9º vai proceder a desapropriações dos prédios velhos do centro para a construção de novos prédios que possam ser adquiridos por pessoas de poder aquisitivo melhor, ou seja, pelo povo trabalhador e sofrido. 10º mandou instaurar sindicância no caso da mulher que não foi atendida em estado grave de hemorragia por um hospital. 11º aumentou o salário dos médicos municipais que, como os estaduais, estavam em greve já há quase 80 dias. 12º apreendeu todos os livros escolares de 1º grau que deturpavam a história do Brasil para as crianças e mandou vendê-los a quilo. Engraçado é que o povo, os vereadores, todos metem o pau nele, dizem que tudo que ele está fazendo é inconstitucional e que a Câmara vai anular para anular os decretos dele e, no fim, tudo dá em nada. Ninguém consegue desmanchar nada do que Jânio faz. A “Manchete”, TV e revistas, que metiam o pau nele, agora está querendo até puxar o saco do Jânio. A Globo, que só deturpava o que ele falava e fazia, agora também entrou naquela de querer adular o prefeito. Não adianta. Com Jânio ninguém pode. Ninguém brinca com ele. Ninguém compra ele. O jeito, no fim, é ficar do lado dele e se rebaixar, e se humilhar, para não ser devorado pelo poder do povo que enxerga bem as coisas e que não é nada bobo. Pra Jânio só importa o povo. O resto, seja quem for que seja, doa a quem doer, se estiver errado não tem jeito de escapar ao alcance da justiça dele. O povo, só o povo, trabalhador sofrido, desempregado, injustiçado é que importa para Jânio. Eu acredito inteiramente nele. E não dou a menor vela a quem falar mal dele e do que ele faz. Portanto, se Farabulini saiu fora de Jânio deve ter sido por interesses pessoais não atendidos por Jânio. E não pelo que ele alega demagogicamente contra Jânio. Já vi que Jânio continua o mesmo. Farabulini não. Por isso adeus Farabulini. Fico com Suzim.

 

5) Lilinha faz uma semana que não evacua. Estou preocupada. Dei-lhe ontem várias vezes Leite de Magnésia da Philips. Ontem não fez efeito. Mas espero que hoje faça. Pelo menos, esta noite, ela ficou mais calminha e dormiu bem, e está dormindo até agora, onze horas da manhã, ao contrário da noite de ontem em que ela não dormiu e não deu sossego. E já faz vários dias que ela não se alimenta bem como antes, nem passa bem durante o dia. Passa nervosa, resmungando, tensa, querendo chorar, desassossegada. Tadinha. E não sabe dizer pra gente o que sente. A gente é que tem que adivinhar tudo pra ela. Até quando ela está com sede. Do contrário, ela passa o dia todo com a maior sede e não sabe pedir. 

 

6) Jussara está decidida e bastante contente de poder ir pra Bahia e ficar só estudando e curtindo tudo o que a Bahia tem. Disse que vai pedir pra ser mandada embora hoje. E que vai fazer tudo para ir com o Ita na semana que vem pra Salvador. 

 

7) Logo mais vou conversar com Aoud pelo telefone sobre Jussara e ver o que é que ele pode fazer por ela e como.

 

8) Seria tão bom se Dinorá também pudesse ir pra Bahia com a gente! Ela poderia até arranjar um emprego na TV lá! Do jeito que ela é bonita e inteligente. Ou então ser manequim. Pelo menos lá as qualidades pessoais que ela tem seriam bem mais valorizadas.

 

9) Lilinha eu vou levar nem que seja raptada. Não vou deixá-la aqui de qualquer jeito com a mãe, o pai e os irmãos que tem e que não ligam nem dão a ela o menor valor. Tratam-na como se fosse um peso, um lixo. Com a maior das más vontades, só pra dizer que fazem a obrigação. E com os piores pensamentos negativos para com ela. Parece que eles torcem mais para que ela morra do que para que ela sare. E ela precisa de muito carinho e de muito pensamento positivo. E é o que eu vou me esforçar para dar a ela cada vez mais. 

 

10) Cida telefonou ontem contente, animada, dizendo que tem grande surpresa para me dizer mas que vai me deixar no suspense. Disse que encontrou Severina e que ela também quer muito me ver e conversar comigo. E que Sujim tem grandes objetivos com relação a nós três na campanha dele em Itaquera. Disse que está rezando, que está tudo ficando bom, que está contente, e que quer ir na reunião de budismo em Itaquera. (Preciso me encarregar e providenciar isso o quanto antes, antes de ir pra Bahia). Aliás, preciso me encarregar de tanta coisa! Antes de ir pra Bahia, preciso receber meu dinheiro do INSS em Mogi e preciso ir na reunião do João Carlos escritor, preciso me comunicar com o Jornal de Itaquera, preciso falar com o Sr. Agenor, preciso falar com o Raimundo Nonato, preciso ir na casa de Dona Origina, etc. etc. etc.

 

11) Estou lendo “A viagem de uma Alma” de Peter Richelieu. Um livro interessantíssimo que vale a pena ser lido.

 

                                      Clô

Show do Teatro SESI anunciado no site "Agenda Arte e Cultura UFBA"








 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

XVIII – 30/01/86

XVIII – 30/01/86 – quinta-feira – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) Puxa! Já estamos a 30 de janeiro de 86. Como passa o tempo! Hoje enfim, só hoje, começo a datilografar o meu livro “ESTÁ ESCRITO!” para levá-lo na Global, a mesma editora de Cora Coralina. Espero ter a sorte que ela teve com eles. Pelo menos, pelo telefone de todas as editoras com quem falei, foi a que me pareceu mais simpática, mais familiar, que me deixou mais à vontade. Falei com uma senhorita Miriam, um amor de pessoa, que me atendeu com a maior simpatia e sem restrições ao meu gênero: poesia. Só disse que (é o que os outros disseram também, mas com restrições) vou passar por uma seleção. Depois, após uma demora de dois meses, mais ou menos, se aprovada. Assino um contrato com a Global. Que passo na seleção, disso eu tenho certeza. Acredito naquilo que escrevo, em mim e no Gohonzon, que é justo e certo. Portanto, mãos à obra. E dentro de mais algum tempo estarei dando autógrafos e sendo conhecida como a maior revelação literária do Brasil em 1986, por todo o Brasil.

 

2) Vitória e Rosinha vão mesmo de mudança pra Bahia. Que bom! E nós iremos também: eu, a Jussara e a Lilinha. Este ano de 86, como diz o Ita, será um grande ano para todos nós. Estou de bem com Aoud e ele prometeu nos ajudar lá na Bahia. O que era mais importante. E agora, Bahia! Lá vamos nós! De mala e cuia, todos, todos, todinhos, inteirinhos pra você.

 

3) Pelo telefone, ontem à tarde, Vitória contou tudo sobre a Bahia, que foram na Lavagem do Bonfim, que andaram a pé da casa do João até o Bonfim fazendo aquele sucesso. Que foram numa outra Lavagem (já me esqueci qual) e foi também aquele barato. Que foram ao show do Gil lá no Pelourinho e que Gil andou com elas pelas ruas do Pelourinho normalmente como se não fosse quem fosse. Que foram na Cantina da Lua, que conheceram Clarindo, mas que não falaram com ele (Bobas!). Que acharam legalzinho lá (isso porque elas ainda não viram nada). E que Rosinha (talvez ela também entre de sócia se vender o terreno que tem aqui) vai comprar um apartamento lá onde mora Zete, em frente à Telebahia, bem bonitinho que passe por quarenta milhões para elas mas, em compensação, pagam menos de duzentos mil de prestação por mês, só. E que já estão vindo embora para arrumarem a mudança e querem voltar antes do carnaval. Que lá o carnaval está um barato, vai ser aquela coisa! Que lá tem carnaval todo dia e que o Carnaval lá já começou. Estavam no Mercado Modelo, telefonavam de lá felizes. Disse que Lorena está linda. E inteligentíssima, sapequíssima e que já fala “papi e mamamã”. Que quando ela viu Lorena pessoalmente começou a chorar, que não parava mais de tanta emoção. E que Ari só falava: que tia chorona! Que tia chorona!

 

                                                                             Clô

terça-feira, 15 de julho de 2025

Show do Teatro SESI anunciado no site "Aldeia Nagô"





XVII – 28/01/86

XVII – 28/01/86 – terça-feira – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1)    QUE ME IMPORTA? À Aoud Id em 27/12/63. (Reescrito integralmente).

 

2)    À TUA ESPERA. (Reescrito integralmente).

 

3)    NÃO VÊS? (Reescrito integralmente)

 

4)    QUANDO A SAUDADE É DEMAIS... (Reescrito integralmente)

 

5)    Já eram quase 13 horas quando eu lhe telefonei pela primeira vez:

- Oi, amor, como vai?

E você me respondeu:

- Tudo bem, me telefone à tarde.

- Que horas?

- Às cinco. 

Fui tomar um pouco de sol e às cinco e dez, pelo meu relógio, estava de novo lhe telefonando:

- Oi, meu amor, e então?

- Me telefone às cinco e meia. 

Fiz mais 20 minutos de Daimoku pelo Juzo enquanto tomava sol, completando assim, duas horas de Daimokus pra você. E às cinco e quarenta estava lhe telefonando. Só dava ocupado. De repente, consegui:

- Oi, meu amor, e então? 

- O que você quer? 

- Eu quero falar com você.

- Então vai falando.

- Pelo telefone? Não dá. Eu queria saber quando posso falar com você pessoalmente. É muita coisa que eu tenho pra dizer. 

- Pessoalmente vai ser mais difícil e eu não sei quando vou poder. Vou ter que inventar uma historinha. Adiante pelo telefone. Do que se trata? Onde você está?

- Estou na minha casa. Mas quer dizer que a gente não vai poder nunca mais falar mais pessoalmente? 

- Uma hora você telefona, a gente marca, eu dou um jeito e a gente se encontra. Mas enquanto isso, diga o que precisa por telefone mesmo. 

- É sobre a Jussara.

- O que tem a Jussara?

- É que ela está querendo ir pra Bahia e neste ano ela termina o magistério e quer fazer o cursinho para o vestibular de medicina lá. E não quer ficar nem com o João nem com a Vitória. Aliás, a Vitória está agora na Europa.

- Puxa, está tão bem assim? Como mudou! 

- Você acha que eu criei os meus filhos para serem qualquer coisa?

- E o que é que a Jussara precisa? 

- Ela precisa de dinheiro para pagar o magistério, o cursinho que ela vai fazer, aluguel do apartamento que ela vai alugar e para se manter lá. E eu quero saber o que você pode fazer.

- Você vai também? 

- Eu estou ainda dividida se eu devo ou não ir. A turma quer que eu participe da política mas eu não estou muito interessada. Política, pra mim, só a do Jânio. O resto é politicagem. E eu não quero me envolver. E a política do Jânio eu posso fazer em qualquer lugar que estiver. 

- E o Ita vai pra lá também? 

- O Ita vai agora no carnaval passar um mês lá. Mas não vai definitivamente por causa do emprego dele na Papelão e da Faculdade. Ele vai dar uma olhada pra ver se pode transferir o emprego pra lá pois, parece que tem uma filial da Papelão lá na Bahia. Mas, mesmo assim, acho que ele não vai poder ir por causa da Faculdade. E o que você acha? Devo ir ou não ir? 

- Você deve ir.

- Então eu vou, pois a política do Jânio eu posso fazer em qualquer lugar que estiver. 

- Você vê tudo o que vai precisar e me fale que eu vou ver o que é que eu posso fazer. 

- É o que ela precisa porque ou ela estuda e não trabalha ou trabalha e não estuda não é isso?

- Tudo bem. Você me telefona.

Falou “tchau, um beijo”. Desligou.

O Ita acabou de chegar e eu contei-lhe: 

- Acabei de falar com seu pai sobre a Jussara.

- E ele?

- Disse que vai ajudar só que eu precisei chamá-lo de “meu amor” e contar aquela mentira. Mas ele prometeu ajudar no que for preciso. 

- Quer dizer que a consciência dele está doendo. Mãe, eu tenho certeza que, apesar de todos os pesares, de vez em quando a consciência dele dói. Ele lembra da gente e se arrepende do que nos fez. Ele perguntou de mim? 

- Perguntou. Perguntou se você também ia pra Bahia. E eu disse que não. 

- E a senhora vai? 

- Agora vou. Ele disse que é melhor eu ir. E já que ele manda o dinheiro, não há por que se preocupar.

- E a Jussara será que vai? 

- É lógico que vai. O que é melhor: ela fica na boa vida lá em Salvador indo na praia todo dia e sem trabalhar fora (só estudando) ou ficar aqui se ralando por micharias? Com o dinheiro do carro, o dinheiro do telefone mais o dinheiro que ele der a gente vive muito bem lá. Agora eu vou descansada. Agora eu estou realmente decidida a ir. Estou até mais leve. É tão bom quando a gente decide realmente o que deve fazer. A gente fica tão leve. Estou me sentindo tão leve, bem livre de toda aquela tensão. Agora eu sei que tudo vai dar certo.

- Será que a Jussara vai? Será que ela deixa o namorado pra ir? 

- É lógico que deixa. Ela tem que pensar é no bem estar dela. Na vida dela, nos interesses dela. E não em namorado que não está com nada. 

- A senhora deixaria o meu pai pelos interesses da senhora? 

- Já deixei. Pela voz da minha consciência não há o que eu não deixe. Se eu fosse fazer só que ele queria eu não teria vocês. 

 

                                                              Clô   

Espetáculo do MOVIMENTO EXPLOESIA 10 ANOS no Teatro SESI


 

sexta-feira, 27 de junho de 2025

XVI – 27/01/86

XVI – 27/01/86 – segunda – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) João telefonou logo de manhã. Disse que Vitória foi ontem na reunião de Tikusá em Salvador e que está bem animada a morar lá. E que ela está decidida a praticar na Divisão das Moças e que chegou tarde, não mais encontrou matrícula para a faculdade. Mas que vai descansar neste semestre, por a vida em ordem e no fim do ano termina. Ótimo. Estou contente com isso. disse que estão procurando casa. Mas que Rosinha está desanimada e não foi na reunião de ontem. E que vão ficar lá até o carnaval ou até arranjar casa. Que ela fique lá e que faça sua felicidade lá está ótimo. Não precisa Rosinha ficar. Ela é ela, e tem que pensar nela. Rosinha é Rosinha. Vitória tem que fazer a vida dela independente da Rosinha. Cada uma é cada uma. Oxalá também Jussara fosse para lá pra mudar de vida e ser alguém também. Só assim eu viveria menos preocupada e melhor. *(abaixo mensagens psicografadas).

 - Clotilde, você tem que ser a maior poeta do Brasil agora. Mande o seu livro para a Global.

 - E sobre Aoud?

 - Aoud te ama. Ele está querendo que você volte pra ele.

 - Ele vai fazer o que eu vou pedir pra ele com relação à Jussara? 

 - Sim. 

 - Se eu pedir um carro pra ele, ele me dá?

 - Sim. 

 

2) Ita disse que levou o carro hoje no funileiro para orçar a funilaria. Vai ficar em oitocentos mil cruzeiros fora a pintura. Ita disse que está barato porque tem muita coisa para ser feita: desamassamentos, ferrugens e podridão.

 

3) Transcrição completa do poema NUNCA ME DEIXES SÓ. 

 

                                                                                                      Clô

XV – 26/01/86

XV – 26/01/86 – domingo – Jardim Monte Cristo – Suzano – SP

 

1) Estou esperando desde o fim de semana que alguém da Bahia. Mas ninguém se toca, nem eles, nem o telefone. Resolvo falar com Claudete do Pelourinho. E ela me disse que estava doente e que está participando do filme Jubiabá, que está sendo feito em Salvador e Cachoeira. Disse que sua participação é de atriz (e não extra) e que faz o papel de uma pessoa mais ajuizada do Pelourinho, que aconselha as prostitutas para mudarem de vida. Chamou-me para ir para lá, ofereceu-me a sua casa. Disse que vai ver sobre apartamento para alugar tanto no seu prédio quanto em outros vizinhos. Contou-me que Clarindo é candidato a deputado estadual. À noite telefonei para Clarindo e ele confirmou: é candidato pelo PMDB que é o partido mais em evidência no momento em Salvador. Aconselhei-o a ir para o PTB. Disse que talvez até mude mais tarde. E que vai precisar de trinta mil votos para se eleger. – Você ganha sim. Você tem o dom de fascinar as pessoas. Não há quem resista ao seu charme, disse-lhe eu. De fato, Clarindo é o negro de alma luminosa. Brilha tanto, clareia tanto, que, se não fosse a sua pele negra, que funciona de quebra contra sua luz, diante da sua pessoa, ficaríamos todos irremediavelmente cegos, diante de tanto fascínio para com tanto brilho.

 

2) Chegamos atrasadas, eu, a Dinorá e a Liliam à reunião de Tikusá das 15 horas de hoje. Já havia passado o Gongyo e a 2ª parte da palestra já havia começado também. Arimura estava lá. Foi o último a falar e disse coisas importantes respondendo a algumas perguntas feitas por alguns dos outros membros que enchiam, superlotando o salão Kadono. Entre outras coisas que vi, entrou e veio a calhar em mim (pelo menos eu senti que talvez fosse para comigo mesma que ele orientava): que não adianta a gente sair de um lugar para tentar ser feliz noutro lugar. O que vale é a gente lutar no lugar onde já se está. E eu pensei: então por que é que ele saiu do Japão e veio para aqui? Na saída, Akytian e Dona Miê, ao me cumprimentarem, se referiram ao mesmo assunto: que eu não deveria ir, que o meu lugar de luta é aqui. E Akytian contou que Kaoro, seu irmão, foi pra Rondônia, está muito bem e lutando bastante. E eu falei: mas a Sra. Nagasawa também não veio do Japão para aqui? Não é aqui que ela se sente bem? Dona Miê disse que ela veio conhecer o Gohonzon aqui. – Mas muita gente que já tinha o Gohonzon lá também veio pra cá já com o Gohonzon. E Kaoro também não foi para Rondônia com Gohonzon e não está se sentindo muito bem lá? E João também que foi pra Bahia não ficou bem lá? Então. Quando a gente não está bem num lugar mesmo com Gohonzon é melhor tentar outro lugar e recomeçar uma nova vida. Quem sabe é lá o meu lugar? 

 

3) Sabe no momento de quem mais tenho inveja? Daqueles que estão deitadinhos, quietinhos, sossegadinhos, escondidinhos, mortinhos, desfrutando alheios e despreocupados de todo o conforto, deliciosamente repousante das suas respectivas sepulturas. 

 

4) Dual, dualidade, dueto. Dividida em duas... De repente sou duas habitando em mim mesma, ao mesmo tempo. E é aquela briga de foice violenta e contínua entre as duas, no meu íntimo. Cada qual delas quer dominar-me mais, quer apoderar-se do mais do meu corpo e, no momento, quem está ganhando é a mais forte, é a que reúne todas as qualidades suas: a negativa, depressiva, covarde, desanimada, a que só quer morrer. Esta é a mais forte, a mais dominadora. A outra, a positiva, a alegre, corajosa, ambiciosa, otimista, ousada, diante da presença da primeira, quase não me comparece. E quando vem, nem tão rápido e com tanta pressa, que mal eu a sinto, e ela já me deixa. E eu fico entregue aos cuidados da outra por tanto tempo, que até perco as esperanças de que a positiva volte. E é tanto e tão forte a influência da má que eu às vezes quero desistir de viver. E é quando ela quase consegue atingir sua meta que é a de me destruir por completo. Por pouco que ela não consegue. Mas temo que, desse jeito, qualquer dia conseguirá. Pois cada dia eu enfraqueço mais. E é isso o que ela quer: minar as minhas forças.

 

5) Tem hora que eu sou capaz de tudo. Tem hora que eu sou capaz de nada. 

 

6) Quem nos comanda? O cérebro. Com ele poderemos nos fixar para sempre a um só lugar, percorrermos muitos lugares ou não irmos a parte alguma. 

 

7) Num desses dias, acho que foi no sábado, amanheci e fiquei quase a tarde toda cantando esta canção bem nordestina:

      A vida aqui só é ruim

      Quando não chove no chão

      Mas se chover dá de tudo

      Fartura tem de porção

      Tomara que chova logo

      Tomara, meu Deus, tomara

      Só deixo meu Cariri

      No último pau de arara

      Enquanto a minha vaquinha

      Ficar na pele e no osso

      E puder com o chocalho

      Pendurado no pescoço

      Vou ficando por aqui

      Que Deus do Céu me ajude

      Quem sai da terra natal

      Em outros cantos não para

      Só deixo meu Cariri

      No último pau de arara

      Só deixo meu Cariri

      No último pau de arara

E cantava e repetia automaticamente esta música e ela não queria me deixar por nada. Achei até esquisito isto porque antes nunca me importei de cantá-la assim por inteiro nunca, e nunca ela me apareceu tão fácil e tão completamente para ser assim tão insistentemente cantada. No fundo, a única explicação que me vem é a de questão psicológica relacionada com a seca braba que, pela primeira vez desde que me conheço por gente, está fazendo aqui nos estados do sul, ou seja, de São Paulo para baixo, tão semelhantes às já costumeiras do Nordeste e à minha pretensão de deixar São Paulo para sempre e ir me para a Bahia. Talvez inconscientemente eu tenha me posto na pele de um nordestino que pensa vir mas não está ainda bem decidido se deve vir mesmo para o Sul na hora do desespero como é o que está acontecendo comigo exatamente neste momento: ao mesmo tempo que penso ir, penso também não ir. 

 

8) Depois do Tikusá, passamos na casa da Jussara. (É o 2º domingo que ela não vem em casa e que eu vou vê-la). Eu não gostei nada de vê-la como está. Pálida. Branca por falta de tomar sol. Não passou de ano. E não quer mudar para melhor o seu estilo de vida. Pelo menos confessou que não quer ir para a Bahia. Prefere ficar como está, com o namoradinho bobo, mole que arranjou, com os colegas que não estudam e que se acomodam como estão. Está muito contente de estar com eles, e com a mesma mentalidade pequena que eles têm. Só trabalhar em qualquer emprego, pagar um aluguel barato de um cômodo e cozinha qualquer em qualquer lugar, comer, dormir, namorar, sustentar e dar mordomias a todos os namoradinhos bestas que arranjarem e aos gatos que fazem parte da família. Bela vida. Bela droga de vida. Bela droga, sem objetivos. É fácil viver assim. Tranquilamente, sem se preocupar com um futuro melhor, sem se preocupar em ser alguém de gabarito na vida. Como se a vida só fosse isso. Só que a vida não é só isso. Ela precisa de partir para uma realidade mais alvissareira que as dela, muita coisa para poder se manifestar. Não reza, não luta, não tem ideais, não tem objetivos incomuns. Só está desperdiçando juventude e beleza à toa. E não enxerga.

 

9) Só agora Miriam resolveu falar (e não pra mim) que o meu filho João, quando morava lá na casa da avó, quando tinha quatorze anos mais ou menos, desrespeitou-a, ou seja, perdeu o respeito que deveria ter para com ela, sua tia. Fico perplexa, porque não foi esta a educação que dei a ele. E porque aqui dentro de casa eu nunca soube ele ou o Ita tenha desrespeitado nenhuma das irmãs, nem a Dinorá, que sempre morou aqui conosco. Será que aconteceu mesmo? Ou ela só está falando isso porque eu falei do filho dela? E, se aconteceu, por que ela não me contou na época em que aconteceu? Ou melhor, porque ela nunca me contou? Por que ela continuou com amizade com João? Por que só agora eu vim a saber disso pela Matilde e não por ela própria? Na primeira oportunidade quero por tudo isso em prato limpo, acareando os dois, frente a frente, para saber seja qual for e descarar o João se ele for culpado ou se ela tiver fazendo uma calúnia. Essa história está tão esquisita quanto a história da criança que dizem que é do João e da sobrinha da Dona Iracy e que todo mundo só foi saber depois que o João já tinha se casado com Ari.

 

10) Hoje a música que mais me pediu para que eu a cantasse foi aquela do Lupicínio Rodrigues:

      Você sabe o que é ter um amor

      Meu senhor

      Ter loucuras por uma mulher

      E depois encontrar esse amor

      Meu senhor

      Nos braços de um outro qualquer.... (Nervos de Aço, reescrito na íntegra)

 

11) Minha querida e inesquecível mais que mestra Dona Marina Augusta Vicente Caetano. 

 

12) Ita chegou às 22:30 horas de Bertioga e disse que Meire estava triste porque estava pensando que eu estava com raiva dela por ciúmes dele, meu filho. Telefonou a ela e disse que eu estava com a cara feia. Perguntou a ela se queria falar comigo. Ela não quis. E ele desligou dizendo-me que ela me mandou um beijo. Não dei a mínima. 

 

13) Fomos dar umas voltas de carro eu, Dinorá e Liliam após sairmos desajeitadamente e chateada da casa da Jussara. Na volta, vimos um ônibus parado e uma mulher caída à beira do muro como se morta. Rodeada de gente. Parei o carro e perguntei a um moço que passava o que tinha acontecido e ele disse que a mulher estava bêbada e fora atropelada pelo ônibus. Já íamos vê-la quando vimos o motorista e o cobrador do ônibus pegando-a e colocando-a dentro do ônibus. – Será que eles vão leva-la para o hospital? Falei para a Dinorá. – Dá medo deles pegarem a mulher e jogarem em qualquer lugar só para se livrarem dela. Pois o ônibus está vazio, só com o motorista e com o cobrador. E o certo era eles chamarem a polícia. Vamos atrás deles? E viramos o carro e fomos até o Hospital São Marcos sem ver o ônibus à nossa frente. Pensamos até que ele tinha descido para a Nove de Julho ou tomado outro rumo qualquer e desaparecido. Mas quando chegamos lá o ônibus ali estava em frente ao São Marcos. Dei a volta por trás do hospital e, quando ia passando em frente, vimos a mulher sendo conduzida do ônibus por maca para dentro do hospital. E o motorista do ônibus, de cor, indo atrás, para dentro do hospital. Louvei a atitude deles. Vieram à toda, tanto que sumiram de nós na estrada. Deram tudo que puderam para conduzir a mulher o mais depressa possível até o hospital. Ainda bem que tiveram consciência. Já pensou se não tivessem? Poderiam nem ter parado o ônibus. Terem ido embora deixando a mulher caída lá onde foi jogada e também jogar ela em qualquer lugar ermo, só para se livrarem da dor de cabeça e da responsabilidade que iriam ter. Ainda bem que foram humanos. Engraçado, né tia, eles falam tanto de gente preta, e o motorista é preto, e foi humano, falou-me a Dinorá. – E gente preta é gente boa. São mais gente do que qualquer branco, respondi-lhe.

                                                                                                                                  Clô