quarta-feira, 7 de maio de 2025

XXXII - 17/02/286

XXXII- 17/02/86 – segunda-feira – Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Desde o domingo do carnaval que Jussara não aparece. Veio, mas veio correndo. Logo se foi para pular na matinê do Municipal. Disse que viria na terça-feira de carnaval. Mas, não apareceu mais. Faltam três dias só para ela sair do Guaió. Será que ela só vem quando for de vez? 

 

2) As coisas mais gostosas da vida é tomar água quando se está com muita sede, e ir no banheiro quando se está muito apurado, ou apertado. 

 

3) “Vista assim do alto, mais parece um céu no chão. Sei lá, em Mangueira a poesia pelo mar se alastrou, e a beleza do lugar, pra se entender, tem que se achar, que a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber, que as mãos, não ouçam tocar, que os pés, recusam pisar, sei lá, sei lá, não sei, só sei que toda beleza que ali se faz, mora inteirinha no meu coração, em Mangueira a poesia, num sobe e desce constante, anda descalça ensinando, um modo novo da gente viver, de sambar, de sorrir, de sofrer, sei lá não sei, sei lá não sei, sei lá não sei, sei lá não sei não. Em Mangueira a poesia é tão grande, que nem cabe explicação”.

 

  Eu que pensava que esta letra tratava-se de uma poesia de Paulinho da Viola. Mas não, trata-se, isto sim, de uma obra prima do poeta Hermínio Bello de Carvalho.

 

4) “Cosinha masi linda da mamãe, voxê, nonhé filhinha, voxê, nonhé? Só mamã que tem uma cosinha linda dexa daqui. Xó mamã. Nonhé, filhinha? Nenezinho mage lindo do mundo! Nenezinho mage lindo do mundo! Xó mamã que tem nonhé, filhinha? Cosa mase linda! Cosa lica! Cosa lica! Só que é ceta, né filhinha? Só que é ceta. Menininha mase malandinha da mamãe. Mase malandinha memo. Só mamãe que tem, mase ninguém tem. Voxê é linda, filhinha! Voxê é linda! Voxê é linda memo! E... ah! Cosinha safada, codinha xafada!”

 

5) Preciso me desviciar de televisão. É por causa dela que eu não tenho feito nada ultimamente. Até agora o tempo estava escuro, nublado, com jeito de frio e chuva. De repente, o sol lindo, claro, clariando, brilhando. Só um ventinho de contramão. Mas no geral, ao contrário do que eu disse à Lilinha que hoje ela iria passear o dia inteiro, agasalhei-a de blusa e calça comprida porque seria um dia muito frio hoje, por vezes, até parece que vai ser um dia de muito sol.

 

6) “Votê gota colinho mamãe? Votê gota? Nenê inhama mamãe, inhama Lilinha. O nenezinho hoje tá com vavinha mamãe xó poque mamãe pendeu o bexinho do nenê. Polisso o nenê tá titinho. Mai hose a mamãe num vai podê xotá o bexinho do nenê itá fagendo um montão de xugela. Um naliguinho tão monitinho xó tá gotamdo de fazê xugela nunhé, minha bunequinha? Pulixo que o nenê tá titinho, nunhé, filhinha?

 

7) Houve um tempo que eu sabia pensar genuinamente positivo, fazer objetivos aparentemente impossíveis e, pela minha luta, pela minha fé, torná-los possíveis. Hoje já não encontro mais forças para fazer o mesmo, para ser a mesma por mais que eu tente. E já que assim é, quero pelo menos tirar proveito do meu negativismo para com tudo. Tornando o meu cepticismo total com relação à vida e ao mundo em instrumento de criação.

 

 8) Nesta noite que passou não consegui dormir nada: só fiquei com a cabeça tensa, a pensar besteiras. E creio que o pouquinho que consegui cochilar, foi só pra sonhar um sonho sobre as meninas da Dona Augusta, que eu não consigo lembrar.

 

9) Não rezei nada hoje. Nem Gongyo da manhã, nem Gongyo da noite, nem Daimoku nenhum. Embora não quisesse falhar. De manhã falhei porque passou da hora de rezar. À noite idem.

 

10) Horrível o incêndio que se deu hoje no Edifício Andorinha no centro do Rio. Fiquei chocada, só de ver as cenas pela televisão. A cores vê-se como se fosse ao vivo. Duas pessoas se jogaram do prédio. Coisa horrível. Cenas chocantes, impressionantes. Um terror. Eu que, até então, estive em estado de depressão só porque não havia conseguido rezar e porque me cortaram o telefone, ao assistir o incêndio agradeci a Deus por tudo que eu tenho e pedi-lhe perdão por às vezes ficar triste e maldizer da vida sem motivo algum. Eu não tenho motivo pra ser infeliz, graças a Deus. Coisa horrível é ter que passar por tudo o que as vítimas desse incêndio e seus familiares estão passando agora. Nam-myoho-rengue-kyo, nam-myoho-rengue-kyo, nam-myoho-rengue-kyo. Olhai pelos meus filhos, Gohonzon. Que nada aconteça nunca de mal pra eles. Que aconteça comigo, tudo que tiver que acontecer. Para eles não. E que nada tenha acontecido com nenhum dos meus parentes lá do Rio.

 

11) Bem que eu estava estranhando o telefone muito quieto hoje. Ué, ninguém telefona? Ter telefone para não ser utilizado nem vale a pena. Telefone só tem graça quando toca. Será que tem alguma coisa? O que será que tem? Quando vou ver... está mudo! Será? Será que está com defeito? Não. Está cortado! Mas, por que? Nós não pagamos? Eu paguei a penúltima conta em Mogi. O Ita pagou a última conta em Suzano para não ser cortado. Mas nem assim adiantou. O que será que estava errado? Olho na conta e... Eu paguei a conta do mês 12. O Ita pagou a conta do mês 02. Portanto, ninguém pagou a conta do mês 01. Que amolação! Que complicação! Só por isso, cortaram. Nem vale a pena ter telefone assim. É muita exigência, é muita dor de cabeça. Portanto, acho que chega a ser mais vantagem mesmo vendê-lo e acabar de vez com essa palhaçada, com essa amolação. Desse jeito, (é até bom que aconteçam essas coisas) no dia em que eu tiver que o vender, nem vou sentir.

 

12) Lilinha passou hoje o dia todo com o narizinho escorrendo e espirrando. Por isso, hoje não lhe soltei as mãozinhas. Ela não gostou. Ficou o dia inteiro amuada, de cara feia, de cara amarrada, só deitando no chão. Ou melhor, se enfiando debaixo das camas como se fosse um bichinho na toca. Não a soltei porque ela iria bater as mãozinhas na boca e, no escorrimento de ranho do nariz, fazer aquela química de fedor horrível. 

 

                                                                           Clô