sexta-feira, 31 de maio de 2024

08 12 85

LXIV – 08/12/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Dia da Festa da Conceição em Salvador. Ou seja, Conceição da Praia, a padroeira da Bahia. Quem dera estar lá agora! Mergulhada em toda aquela autêntica alegria que é a alegria do povo da Bahia.

 

2) O Ita, logo que se levantou hoje, perguntou-me: 

  - Mãe, e as filhas da senhora não vêm mais pra casa? 

(Jussara telefonou hoje que viria logo de manhã). Então lhe respondi:

  - Jussara já deve estar a caminho.

 

3) Jussara disse que viu a coisa mais horrível que pode ver até hoje: iam ela e o namorado à noite, após a saída dela do mercado, atravessando sob o viaduto de Suzano e, ao passar por um Opala que estava parado com uma das portas meio aberta e, portanto, de luz interna acesa, eles perceberam que no carro estavam dois homens: um meio tombado no carro, bem vestido e com o próprio paletó a lhe cobrir o rosto. Este deveria estar morto. E o outro, ao lado, demonstrando nervosismo, como se a não saber o que fazer. Seria o matador. Que assim que os viu, ficou preocupado e começou a acompanhá-los com o carro. Eles iam andando e o carro atrás deles devagarinho, junto com eles. Eles ficaram todos amedrontados mas ficaram na deles. Teve uma hora que eles pensaram até em perguntar pro cara se ele estava precisando de alguma coisa mas, por sorte, avistaram um Wolks com vários caras dentro, parado e de luz acesa, dando cobertura para o cara do Opala. Então eles acharam melhor passar como se não estivessem vendo nada e ir para o outro lado da linha. Nisso viram quando os dois carros, o Opala e o Wolks, foram embora com o homem morto. Que horror! E que perigo também. São Paulo está um nojo. Dá medo até sair de carro. Já pensou a gente estar indo de carro e um outro carro conduzindo uma quadrilha de assaltantes, fechar a gente e matar a gente pra roubar? Diante disso, dá até medo de comprar um carro bom. Vale mais a gente continuar andando nestes que a gente tem, mas com menos riscos de vida. 

 

                                                                                                       Clô

 

 

A INFINITA CLÔ na Livraria Escariz


A partir deste mês de maio de 2024 já se encontra à venda na Livraria Escariz do Shopping Barra, Salvador, Bahia, o livro A INFINITA CLÔ de Clotilde Sampaio, junto ao livro ANTOLOGIA DO MOVIMENTO EXPLOESIA, no setor de Autores Baianos.

07 12 85

LXIII – 07/12/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Não fiz nada a não ser ficar a tarde inteira tirando os cravos do rosto e das pernas. Nem escrevi. Nem rezei. Nem fui na casa da Sara. Nem fui pra lugar nenhum. Nem lavei o carro que está uma imundície. Estou escrevendo hoje, domingo.

 

2) Sujim esteve aqui na parte da manhã. Conversou bastante com o Ita e chegou a oferecer-lhe emprego em sua fábrica. Pegou-me totalmente desprevenida. Mas mesmo assim, consegui falar-lhe com firmeza sobre os meus planos. Falei-lhe da minha pretensão em candidatar-me a deputada estadual já. E contei-lhe o porquê desta pretensão e como a farei, isto é: só com a cara e a coragem. De início ele me pareceu não querer concordar. Depois, pareceu-me que concordou. Vamos ver. O importante é lutar. E com a minha luta e com a minha fé no Gohonzon vou transformar o impossível em possível. Aliás, eu não vejo o impossível tão impossível assim. Vejo só como uma coisa difícil mas perfeitamente possível o que, de começo, já é um bom sinal. Dinheiro. Se só dinheiro fizesse tudo eu não estaria aqui viva com todos os meus filhos vivos e encaminhados pois, dinheiro sempre foi na minha vida o que mais me faltou e, no entanto, eu tenho estes filhos, esta casa, estes carros e já fiz algumas extravagâncias como as três operações plásticas e outras cositas mais. Enfim, tudo que eu cismei, mas cismei e me empenhei de verdade pra fazer, com ou sem dinheiro, eu sempre consegui fazer. 

 

3) O Ita chegou contando que o primo do pai dele Chafih, um dos grandes lá da Papelão, lhe ofereceu carona ontem para a Faculdade em Mogi e que então ele, Ita, aproveitou para contar tudo sobre o Aoud. E que o Chafih ficou perplexo com o que ouviu e acreditou no Ita a respeito do que ouvia. E que lhe disse que o Ita lembrava bem Aoud e o João Carlos. Gostei que isso tenha acontecido. Aoud merece que os outros lhe conheçam a outra face. Mas no fundo, no fundo, todos os turcos são iguais. 

 

                                                                                       Clô

terça-feira, 21 de maio de 2024

versões de CLÔ em 1972



Clotilde Sampaio em 1972.

Nesta época residia no Jardim Maringá, Vila Matilde, São Paulo, capital.

 

segunda-feira, 20 de maio de 2024

05 e 06 12 85

LXI – 05/12/85 – quinta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Hoje Lilinha repetiu sua melhor proeza: derrubar o fogão. Caiu desta vez sobre as perninhas dela. Sorte que não aconteceu nada. Graças a Deus ela sempre tem sorte. Mas chorou. E ficou meio assustada. Fez aquela bagunça. O café com leite e o resto de água do banho de folhas dela, se espalharam pelo chão, por todo lado. E o jeito foi mesmo eu ter que lavar toda a cozinha, querendo ou não querendo.

 

 

LXII – 06/12/85 – sexta-feira 

 

1) Afinal, toca que apito? O Capitão Expedito? Acordei e estou toda hora com estas duas frases (Talvez origem de uma nova poesia que está querendo sair, quem sabe? Logo veremos) perturbando a minha mente. Por que será, se o Capitão Expedito, com relação a mim, já era?

 

2) Recebi o livro “A festa dos meus Olhos” poesia do escritor Roque Luzzi. Anteontem ele me prometeu pelo telefone que me mandaria pelo correio um de seus livros. Cumpriu rápido. Pôs no correio ontem e já hoje chegou. Não vi nada demais no livro. Versinhos primitivos, piegas que perfazem um livrinho custeado pelo próprio autor apenas para satisfazer o seu ego de escritor e poeta. Aliás, pseudo escritor e pseudo poeta. Mas foi muito gentil e muito simpático. Vale por isto. Só por isto. Porque de méritos, não vi nada. Mas quero conhecê-lo melhor. Preciso conhecer estes intelectuais. Assim, ficará mais fácil minha entrada no meio deles. 

 

3) Passei a tarde toda tomando aquele sol. Quero fica bem preta para que o Aoud acredite que realmente que eu estive em Salvador.  


                                                Clô

Clô na cozinha - 1985


                                   Clotilde em sua cozinha, Jardim Monte Cristo, Suzano, 1985.

04 12 85

LX – 04/12/85 – quarta - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Anteontem, dia 02/12, aniversário da Lilinha, 06 aninhos! Pena é que não fiz, nem comprei nenhum bolo pra ela. Mas dei-lhe, na hora de dormirmos, os seis puxõezinhos de orelhas nela, e cantei-lhe os “parabéns a você” acompanhados de “pique-pique”: e pra Lilinha nada! Tudo! Então como é que é: é pique, é ique, é pique pique pique, é hora, é hora, é hora, é hora é hora. Ra-tim-bum! Lilinha! Lilinha! Lilinha! Palmas! Ela só ria, sem entender nada, coitadinha. Mas Deus vai ajudar que agora ela vá sarar e ficar completamente boa, com o benzimento da mulher de Guararema e os banhos que ela receitou pra tomar: arruda, guiné, trança de alho e alecrim.

 

2) Quase duas horas da manhã de hoje e eu aqui sem ter sono, pensando no João lá no aeroporto de Cumbica, sem dormir e passando frio. Poderia ter passado mais esta noite aqui com a gente, mas o Ita telefonou de Mogi já quase dez horas. Bem tarde portanto e não insisti que ele fosse buscar o João. Mas bem que poderia ter ido. João talvez tenha ficado sem jeito de pedir isso. Mas no fundo era o que ele queria. Por isso telefonou pra cá. Pena eu ser tão tapada ao ponto de não saber ir levá-lo nem ir buscá-lo no aeroporto. Ou será pura negligência, ou relaxamento só de minha parte que me faz agir assim, achando tudo difícil, tudo impossível e com medo de arriscar, ousar fazer o que nunca fiz, por mais simples que seja? 

 

3) Nem sempre quem bate leva a melhor. Como nem sempre quem apanha leva a pior. 

 

4) O fato de eu não estar participando de reuniões ou dos eventos budistas, como antes, não quer dizer que eu seja menos ou mais budista. Apenas pratico a minha religião como acho que devo praticá-la: sem me comprometer com ninguém, sem puxar o saco de ninguém, sem me contradizer, sem me despersonalizar, sem me robotizar, sem deturpar os meus ideais.

 

5) É até bom que Bitoca (ex-vereadora de Suzano) e Cia me vejam e me julguem assim como estão me vendo e me julgando. Aliás quem é ela para me julgar? Nós não compartilhamos do mesmo pensamento. Ela é ela. E Eu sou Eu. Com muita honra, sem abaixar a cabeça pra ninguém. Que eu esteja esquecida, desanimada? Faz parte da imagem que quero expor. No fundo, e no fim, ela vai ver que não é nada disso. E que eu estou com força total. Uma força minha que não depende de ninguém, nem de qualquer rótulo religioso. Temos a mesma religião? Não. Não temos a mesma religião não. O budismo que eu entendo e pratico é um; e o que ela entende e pratica é outro. Embora tenha o mesmo rótulo, o conteúdo é diferente. Assim como a política que ela usa e defende é uma; e a que eu entendo e luto por ela é bem e muito outra.

 

6) Salvador, ou melhor, o Pelourinho, finalmente passou a Patrimônio Cultural da Humanidade. E vi toda a turma do IPAC, onde inclusive deveria estar Ari em torno de seu presidente Benito Sarno, festejando o grande evento. Fico feliz, feliz porque amo a Bahia e os baianos.

 

7) Doca veio me pedir o carro emprestado para ir até Suzano fazer compras e pagar impostos na prefeitura. Aleguei que iria sair também e que o carro não estava nada bom. Não gosto de emprestar o carro pra ninguém, do mesmo modo que não gosto de pegr no carro de ninguém. Nem no Jeep do Ita eu nunca mexi. E acho-o muito folgado. Eu, quando não tenho carro, sei muito bem andar por aí tudo a pé e carregando pesos. Por que ele não pode? Não lhe neguei. Mas ele, por ele mesmo, achou melhor não usar o carro. Antes assim.

 

8) E... Sujim sumiu. Eu é que não lhe irei atrás. Quem vai precisar de mim é ele. Portanto, ele é quem deve me procurar.

 

9) Achei João mais ligado aos colegas e amigos do que mesmo a mim e aos irmãos. E fez uma grande besteira: gastar mais de dois milhões só pra vir até aqui de avião. Pra quê? Ninguém o foi buscar no aeroporto assim como também ninguém o foi levar. Portanto, ninguém sabe se realmente ele veio ou não de avião. Deveria ter vindo de ônibus e gastado este dinheiro em outras coisas. É tão gostoso viajar de ônibus, fazer novas amizades, conhecer novas localidades e admirar belas paisagens. Faz uma limpeza mental que dá gosto. Avião não tem nenhuma graça. A não ser pra quem precisa realmente economizar tempo. Mas não compensa pagar tanto por tão poucas horas de vôo, pra ver só nuvens e só pelas mordomias do avião. Enfim, o dinheiro é dele. E quem manda nele agora é Ari. Por isso não lhe disse nada. Serviu para que ele conhecesse o novo aeroporto de Cumbica. Só. No fundo, sei que Ari também pensa como eu. Pois, do contrário, não teria ficado tão brava quando soube que João não iria chegar ontem, como o previsto, e sim só hoje de manhã, lá pelas dez horas mais ou menos. João, no fundo, é um menino grande ainda que sonha muito. E não pensa direito as coisas antes de fazer. Valia mais ele fazer mais economia. Para ele comprar e pagar com mais folga a prestação do apartamento e do carro Voyage que pretende comprar. Enfim, ele que sabe o que está fazendo. Mas que vale ganhar bastante se gasta bastante também? E sem real necessidade? Espero que tudo dê certo mesmo conforme ele planeja. Ou então que ele aprenda a lição através de mais esta experiência.

 

10) Preciso rezar bastante para que o Ita ganhe cada vez melhor. Cada vez mais. Afinal, eu e a Lilinha, dependemos dele. E eu ainda quero ir à Bahia até o primeiro aniversário da Lorena. E quero ir com batantes, boas e modernas roupas e sapatos. E quero morar em Itaquera ainda este ano. E já planejei que será em um apartamento daquele prédio de Itaquera. Quero morar pelo menos um ano lá. Preciso saber muito sobre a vida de Aoud. E, estando lá, ele vai ficar com a pulga atrás da orelha. E é isso que eu quero.

 

11) Lilinha entrou debaixo da cama pra dormir. E ronca. Vê se pode! Em vez de dormir sobre a cama, dorme no chão duro de debaixo da cama. Só ela mesmo, com a cabecinha dela, pra achar que isso é bom. Deixa eu tirá-la de lá para que ela durma mais confortavelmente, isto na minha concepção. Ou então desperta.  

 

12) Está um dia frio, chuvoso, cinzento, e sem graça, como eu também. Não fiz nada ainda hoje. A casa está de pernas pro ar. Nem rezei. E não estou nada bem nem disposta a fazer nada. Mas preciso fazer alguma coisa e vou me esforçar por fazer.

 

13) Ai! Não falei? É só por a Lilinha na cama, ajeitá-la, cobrir-lhe e ela despertar. Se ainda estivesse no chão duro, garanto que iria dormir por muito tempo. Como não, já despertou, está lá resmungando, já se levantou e está pronta pra fazer mais bagunças na cozinha além d o leite que já derrubou de cima do fogão e que ainda está todo espalhado ao redor, e que eu preciso limpar o quanto antes senão ela, se já não fez, vai lambuzar todo o chão da cozinha.

 

14) Mestre Rolando, estando eu na Bahia 

      Fui bem no fim do fim de mais um dia 

      Revisitar meu templo: livrarias. 

      Onde no altar consagrado à poesia

      Entre as demais geniais companhias. 

 

                                                                      Clô

Clô no IPAC - 1994


 Clotilde, o neto João Vitor e a filha Tarcila estão na sala de espera do IPAC, provavelmente aguardando   para uma reunião com a Diretora Adriana Castro, a respeito de um pleito para relocação de imóvel, no Pelourinho, em 1994.

                                                          Fotografia by Vitória Régia

                                         

03 12 85

LIX – 03/12/85 – terça - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) 1º Aniversário dos tapas de Aoud. E eu que nem cheguei a me lembrar. Engraçado. Um ano depois, e já estou quase completamente de bem com ele. Por exemplo, quinta-feira passada, ou seja, no dia 28/11, um dia depois da vinda do João da Bahia, como tenho feito ultimamente quase que diariamente, telefonei-lhe mais uma vez como ele havia pedido, na parte da manhã, para saber dele quando poderia ser o nosso encontro para falarmos dos nossos filhos. E nossa conversa pelo telefone foi a seguinte:

  - E então? Perguntei-lhe.

  - Hoje não vai dar. Acho que amanhã.

  - Então, não vai dar mais pra mim conversar com você, Aoud.

  - Por que?

  - Meus filhos chegaram da Bahia e querem que eu vá com eles agora passar o fim de ano lá.

  - Então, bom descanso. Descansa bastante. E me telefona de lá.

  - Lá pelo começo de janeiro eu devo estar de volta pra começar com minha campanha.

  - Campanha de que?

  - De Deputada Estadual.

  - Aqui, ou lá?

  - Aqui. O Jânio me pediu. E em 88 serei a futura prefeita de Suzano.

  - Ah é? – Sorriu. – Então boa sorte! Descansa bastante. E não se esquece de me telefonar quando estiver lá, sim?

  - Muito obrigada. Tá bem. Tchau. Olha, se eu não telefonar mais, que você tenha um bom fim de ano, sim?

  - Obrigado. Você também. Mas me telefona de lá, sim?

  - Tudo bem. Tchau. Um beijo.

  - Tchau. Outro.

Moral: nem mesmo os tapas conseguiram por fim ao meu amor por ele, nem ao amor dele por mim. 

 

                      Clô 

Clô no Pelô - 1994


          Clotilde no casarão do Largo do Carmo, 4, onde funcionou o Consulado de Portugal, no Pelourinho  em 1994.

                                                      Fotografia by Vitória Régia
 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

31 11 85

LVIII – 31/11/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Fui na tarde de quarta-feira conhecer o Poeta. O grande poeta Rolando Roque da Silva. Hoje, passados alguns dias, eu o chamo de grande e bendigo tê-lo conhecido. Mas, na dita tarde do grande evento, confesso que saí da União Brasileira de Escritores nada menos que decepcionada. Achei-o arrogante, preconceituoso, presunçoso, antipático, e outras coisas do gênero. Hoje eu o entendo apenas arredio, isolado na dele, tímido para com uma desconhecida. Enfim, merece o meu maior conceito. Um Poeta que poetiza a vida como ele sabe poetizar, só pode ser chamado de um grande poeta. Já li e reli inúmeras vezes, e vou tornar a lê-lo e relê-lo continuamente pois a poesia de Rolando Roque é para ser lida e relida sempre. 

 

2) No tocante à sua aparência, e em relação a como eu o imaginava? Sim se de um lado me surpreendeu por ser baixinho, em vez de alto, de ser mais para branco do que para moreno, e de ter os olhos azuis, em vez de castanhos escuros ou negros, como eu pretendia que fosse, de outro me surpreendeu também porque, aos setenta e um anos de idade, está bem mais conservado do que eu o imaginava.

 

3) João chegou também na quarta-feira. À noite. Eu estava aqui na cozinha conversando com a Miriam um pouco depois da minha chegada pois já eram mais de oito horas quando cheguei. Ouvimos um barulho de carro chegando e em seguida o toque da campainha.

  - É gente de política, disse pra Miriam. Deve ser a turma do PTB. Pergunte quem é e mande esperar. Mas ao ver que ela saiu e se dirigiu a casa dela, saí eu mesma e perguntei:

  - Quem é?

  - João.

  - Que João? 

Deve ser o colega do Ita, pensei. Miriam que resolver ir ver respondeu:

  - É o João da Bahia!

  - Meu filho? Já? Não é possível isso! Assim, sem a gente esperar? Que bom!

Corri e fui abraçá-lo. Veio alegre, cheio de vida, cheio de novidades boas da Bahia. Perguntou de cada um daqui e informou de cada um de lá. Que Lorena está linda e mostrou mais fotos que trouxe para comprovar o que falava. Após um pouco de conversa, quis ir na casa da Miriam e eu o acompanhei. Mas tinha deixado Lilinha sozinha e voltei deixando-o lá. Voltou da casa da Miriam bem tarde. Já passava de uma da manhã; sentamo-nos os dois na cozinha e recomeçamos a conversar. Contei-lhe sobre a minha decisão de ser candidata a deputada estadual em 85 e candidata a prefeita de Suzano em 86. Ele ficou fulo e de cara me deu um severo pega. 

  - Como é que a senhora pode, na situação em que está, fazer tão absurda decisão? É um absurdo isso. A senhora não vê?

  - Absurdo? Absurdo por que? Respondi chocada.

 

                                                                                          Clô 

Filhos de Clotilde - 2019 - Salvador, BA


                     Os filhos de Clô se encontram em Salvador, Bahia, em janeiro de 2019. 

                             João Francisco, Maria Jussara, Vitória Régia e Itamaraty José. 

27 11 85

LVII – 27/11/85 – quarta - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Foi difícil transpor este círculo de cerco que te cerca. 

 

2) Diante da influência infinita de todos os tipos de aventureiros e oportunistas nos últimos dias em minha casa, postulantes e aspirantes à Prefeito e Vereadores de Suzano pelo PTB em 88, decidi ser também candidata a Deputada Estadual em 86 e, ao mesmo tempo, candidata a Prefeita de Suzano em 88. Que achas? Você me assume? Qualidades?  Eu tenho todas as qualidades. Menos o dinheiro. Mas considerando-se que o Estevão também não tinha dinheiro e era um pobre pé rapado antes de ser produzido pra ser prefeito. Por que não eu também? Só estou precisando de um produtor. O resto eu tenho. Moral? Tenho. Desembaraço e simpatia? Tenho. Cultura? A suficiente. E agora a última moda é mulher ser prefeita. Produza-me Sujim, e não se arrependerá. Por que de repente esta decisão? Ora, porque o Jânio ganhou e, com isso, o PTB se fortifica e tem possibilidades de lançar, ele próprio, uma legítima candidatura janista e do PTB. Caso contrário, os aventureiros e oportunistas avançarão e tomarão os nossos lugares. E a gente não pode dar jamais a eles o nosso tão suado lugar assim de mão beijada. Mesmo porque o Jânio precisa ganhar para presidente com gente legitimamente dele. E, nesse caso, ninguém mais legitimamente dele, aqui em Suzano, do que eu. E como disse Dom Manoel, ao seu filho D. Pedro I, pegasse a coroa e botasse em sua cabeça, este é um conselho que nos vem a calhar e ao qual nada mais acertado, nada melhor que obedecer. Dr. Pedro (Miyahira)? Ele já se afundou com o barco do PDT. Não se salva mais. Não teve a necessária inteligência de pular fora enquanto era tempo, como fez o nosso amigo itaquerense Sr. Raimundo Nonato, agora é melhor até nem lembrá-lo. Dr. Pedro se perdeu três vezes: 1ª quando eu fui convidá-lo para vir conosco e ele me disse que o Adhemar iria até o fim mesmo que fosse para ganhar um só voto. E que ele iria trabalhar para o Adhemar. O Adhemar no mesmo dia o contradisse passando para o lado do Fernando Henrique. A 2ª foi quando lhe telefonei convidando-o de novo e critiquei o Adhemar por não ter consultado nem as bases para tomar a decisão que tomou e o Dr. Pedro o defendeu dizendo-me que ele tinha consultado as bases sim. E que ele iria ter uma reunião com o partido e depois, conforme fosse, conversaria comigo, não conversou. A 3ª foi quando malgrado o Adhemar tenha passado para o outro lado, com todos os seus asseclas e entre eles, nitidamente esteve o Dr. Pedro. E mesmo assim, o Jânio ganhou. E todos os do outro lado, afundaram. E entre eles, o Dr. Pedro que aqui em Suzano nunca mais será nada. Bem feito. Quem mandou tomar o barco errado? É uma pena porque o Dr. Pedro é um grande político. E nós do PTB que estamos por cima por que iremos agora nos lembrar dos mortos? E ainda mais de quem nem na última hora quis fazer nada pela gente?

 

                                                                                    Clô    

Praia da Barra, Salvador, BA - 1983


 
                

26 11 85

LVI – 26/11/85 – terça - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Hoje levantei com a macaca, querendo a todo custo por ordem nos feios hábitos da Liliam. Bati-lhe, bati-lhe, bati-lhe nas mãos para ver se ela para de bater as mãos na boca, quase acabei com as mãos dela e com as minhas de tanto bater-lhe. As mãos dela já estavam vermelhas, inchadas e encaroçando, mas nada dela parar. Acabei prendendo-a de novo naquela camisa de força suja e feia mesmo. Não tem jeito. Aprender as coisas feias ela aprende facinho, sem ninguém ensinar. Mas o que é bom não há meio. Se vou ter paciência pra ficar com ela o resto da vida. Eu preciso viver. E agora quero viver. Já que ela não se esforça pra ser gente eu não vou perder mais meu tempo com ela. Que se dane. Não fui eu quem a pus no mundo. Se a mãe dela char ruim que eu bata nela, que cuide oras. Tudo aqui em casa só anda sujo e estragado. É camas, é cadeiras, é janelas, é espelhos, é móveis, é tudo. Assim não dá. Paciência tem limite e a minha já se esgotou.

 

2) Tadinha da Liliam. Tão linda! Por que será que só ela é assim? Tem horas que eu perco a paciência com ela e dá até vontade de entregá-la de novo aos pais e à triste sorte dela com eles. Mas depois, penso um pouco, e não tenho coragem. Não. Eu nunca mais poderei viver sossegada pensando nela, sem saber como ela está vivendo e, principalmente, sabendo que ela não está bem. Creio mesmo que não saberei mais viver sem ela. É uma pena que ela seja assim, mas que fazer? Só Deus sabe o porquê dela ser assim. Nós temos que aceitá-la e gostar dela como ela é. Só isso. Se Deus quiser, um dia ela fica normal. Devemos só pensar positivo e ter esperanças. Só isso. e cuidá-la o melhor que for possível.

 

3) Quanto arrependimento, meu Deus. Ter batido numa criança que nem sabe pedir água, que nem sabe porque que apanha. Esta criança já sofreu tanto nestes menos de seis aninhos de vida que tem, e eu ainda feito louca, feito um demônio, aumento-lhe mais ainda o sofrimento judiando-lhe como hoje. Que dor, meu Deus, que remorso! Pensar no que fui capaz de fazer com ela hoje. Deixei-lhe as mãozinhas todas inchadas, vermelhas e até encaroçando de tantos tapas, a boquinha toda machucada de tapa, dei-lhe tapas no seu rostinho, na cabeça, joguei-a com tudo várias vezes sobre a cama. Eu estava louca, bestializada, endemoniada. Preciso tomar mais cuidado comigo. É numa hora dessas que qualquer pessoa pode cometer até um crime. Deus me livre! Credo. Namyohorenguekyo, namyohorenguekyo, namyohorenguekyo. Valei-nos, meu Gohonzon. Dai-nos força e paciência para enfrentarmos do melhor modo possível todas as adversidades da vida. Deve ter sido por causa dos maus tratos que ela vomitou duas vezes hoje e fez o maior monturo de cocô que eu já vi ela fazer duas vezes também hoje. O sofrimento abalou-lhe as bichas. 

 

4) Amanhã, às 4 horas da tarde, finalmente vou me encontrar e conhecer pessoalmente mais um grande poeta do Brasil. O primeiro foi Jehová de Carvalho, renomado poeta da velha e querida Bahia. O segundo agora é Rolando Roque da Silva, que eu fiquei conhecendo por nome desde a Bahia. Gostei, me identifiquei com o que ele poetiza. E desde então, ou seja, há quase dois anos atrás, desejava conhecê-lo. Amanhã vou realizar meu sonho. É Poeta Paulista dos ótimos. Ou seja, uma raridade. Nem imagino a emoção que terei ao poder vê-lo e falar-lhe pessoalmente. Amanhã será um grande dia para mim. Por enquanto, só sei é que ele tem 72 anos de idade e 27 a mais que eu. É do signo de escorpião, como Aoud. E pelo que escreve, tem a personalidade que eu sonho encontrar num homem. Será bonito? Penso que sim. Será alto? Penso que sim. Será moreno? Penso que sim. Será forte? Penso que sim. Simpático eu já sei que ele é. E se for tudo isso então, eu sendo o que sou, poderemos até nos apaixonar. Por que não? E em ele sendo livre então, quem sabe?

 

                                                  Clô 

panfleto da candidata CLOTILDE SAMPAIO - 1982

 


25 11 85

LV – 25/11/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Diante da infindável romaria de pseudo-janistas ou seja: janistas de última hora, ou melhor ainda, vereadores, ex-vereadores, ex-candidatos a vereadores de outros partidos que, tanto na eleições de 82 quanto até os últimos instantes do resultado das apurações desta de 85, trabalharam fervorosamente contra Jânio, pró Fernando Henrique, ou mais apropriadamente aventureiros, oportunistas que, de repente, lembraram que eu existo no fundo de uma rua, localizada no fundo de um marginal bairro chamado Jardim Monte Cristo. Pessoas estas que, fantasiam seus carros com adesivos janistas, mascaram o rosto de janistas e fazem o horrendo sacrifício de se locomoverem até aqui, só para pedirem o meu apoio às suas futuras candidaturas a prefeito e a vereadores de Suzano pelo PTB, nas eleições de 88, como também para que eu lhes facilite o ingressodeles no PTB de Suzanense. Apoio? Eu? Meu? Mas por que só o meu apoio se eu não sou todo o PTB? Ainda não entendi bem o porquê de, de repente, eu ter me tornado tão lembrada, tão importante. Será por que, de tosos os petebistas de Suzano, eu sou a que mais tenho acesso ao Presidente Jânio Quadros?

 

2) DE TANTO VER TRIUNFAR AS NULIDADES

    DE TANTO VER AGIGANTAR-SE 

    OS PODERES NAS MÃOS DOS MAUS,

    O HOMEM CHEGA

    A DESANIMAR-SE DA VIRTUDE

    A RIR-SE DA HONRA

    A TER VERGONHA DE SER HONESTO.    

                                                                              (RUY BARBOSA)

 

3) PROCURA-SE UM AMIGO

    

    *(Clô reescreve todo esse conhecido texto na íntegra).

 

 

4) Povo de minha terra

    Todo mundo é Jânio

    Quem não gosta de Jânio

    Bom sujeito não é

    É ruim da cabeça

    Ou não sabe o que quer

    No governo do Jânio

    Foi que eu me criei

    E dos ideais do Jânio

    Nunca me separei.

 

5) VOTE NO PTB

    PTB É POVO

    PTB É VOCÊ

 

6) O dia da vitória se aproxima

    São Paulo vai fazer dupla conquista

    Com a Vitória d JÂNIO QUADROS

    Ganhará também

     O povo paulista

     Vitória! Vitória!

     De Jânio Quadros

     Que já é da nossa história

     Vitória! Vitória!

     De Jânio Quadros

     Que volta pra nossa história.

 

7) Acabo de falar pelo telefone sabe com quem??? Com o grande poeta paulista Rolando Roque da Silva!!! Com quem vou me encontrar depois de amanhã na Rua 24 de maio, 250, 13º andar, onde fica a UNIÃO BRASILEIRA DOS ESCRITORES. Já pensou? Há tanto, ou seja, desde a Bahia que ando com o soneto, que quero falar com esse autor... Graças ao Gohonzon, consegui. 

 

                                                       Clô

Convite Explicativo A INFINITA CLÔ no Pelô - frente e verso

 



quarta-feira, 8 de maio de 2024

24 11 85

LIV – 24/11/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Bahia!...

    Ai, minha Bahia gostosa!

    É aqui que mora o meu amor,

    Fiats brancos como o meu.

    Nos quais eu olhava 

    E me lembrava do meu.

    Que saudade!

    Jehová de Carvalho...

    Ai, Jehová, Jehová...

    Que saudade!

 

2) Dei pedaços de pães velhos pro Alexandre. Mas antes não devia ter dado. Que dor! Deveria ter dado o pão que comprei hoje em vez dos velhos que dei. Seria tão bom se todos na minha família fossem melhores que eu... Tivessem melhores condições de vida. E, ninguém precisasse de ninguém. Ninguém precisasse pedir nada pra ninguém, nem depender de ninguém. Mas é sempre a mesma repetitiva história. Sempre todos precisando de mim. Ainda bem que, muito ou pouco, eu sempre tenho pra dar. Seria desastroso se eu também não tivesse. 

 

3) Aqui quem fala é a candidata a Deputada Estadual e próxima Prefeita de Suzano, Clotilde Sampaio. É sério. Não estou brincando não. Só preciso de um produtor. E se não for você, Sujim, será outro. Mas que eu vou ser Deputada Estadual e a mais próxima Prefeita de Suzano, isto vou. Já decidi que vou. E a sorte já está lançada. 

 

4) Por que? Ora, por que. Porque eu acredito em mim. Acredito na minha capacidade de luta, de enfrentar e remover os obstáculos. Acredito na minha capacidade de trabalho. Acredito na minha sinceridade e na minha honestidade.

 

5) Está um silêncio tão grande nesta casa, que eu nem sei o que eu faria se hoje não fosse domingo e o Ita e a Lilinha não estivessem aqui dormindo.

 

6) Jussara faz falta aqui. Vitória faz falta aqui. João faz falta aqui. São presenças que talvez nunca mais eu as tenha junto comigo aqui nesta casa. Estes são os meus filhos que talvez tenham saído de casa para não mais retornar. O único que saiu também mas está sempre mais aqui comigo do que longe é o Ita. João, apesar de estar geograficamente mais longe, não está tão distante quanto a Vitória. Jussara também se lembra de mim e dos irmãos. Só Vitória que se distanciou de vez de nós. Tanto que a distância entre ela e nós é a mesma que existe entre a Terra e um qualquer dos outros planetas. Mas se ela está bem, o importante é que ela esteja bem. 

 

7) Nosso telefone já deve estar valendo mais de dez milhões. Se o único que existe, que é o comercial, está por Cr$ 6.700.000,00 e ainda está mais barato que a próxima expansão. 

 

8) Espero que a Vitória não falte com sua palavra e me pague os sete milhões que me deve até o próximo mês de dezembro, como foi combinado e assinado. Espero que ela não falhe porque se falhar desta vez, vai falhar sempre.  

 

9) Temos boas perspectivas daqui em diante. O Jânio ganhou. O PTB se fortificou. Eu estou rezando. O Ita vai conseguir pagar a Faculdade sem precisar do Aoud. Jussara está trabalhando. Lilinha está boazinha. Eu estou animada, elétrica, querendo e lutando com certeza de poder conseguir o impossível. João vai chegar no dia 1º e mataremos saudades. Lorena está grande e linda. Estou mais ou menos de bem com Aoud e sem precisar dele pra nada. Com perspectivas de nos mudarmos daqui, de alugarmos a casa, de mudar para um carro melhor, e de receber os sete milhões da Vitória. E sou candidata com eleições ganhas para Deputada Estadual em 86 e para Prefeita de Suzano em 88. E com Jânio na Presidência da República de novo em 88. Já pensaram? E um novo Brasil em todos os sentidos. Com pessoas mais sinceras e honestas nos governando. Certo? Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Muito obrigada, Gohonzon. 

 

10) Domingo cinzento, frio e feio, que me faz ficar louca pra que chegue amanhã. Amanhã o telefone será religado e eu poderei me comunicar com os meus interesses. Ita dorme ainda até agora, quase 14:22 horas. Deve ter chegado bem tarde pra estar dormindo tanto assim. Nem tomou café hoje. E não sei se vai gostar de o almoço de hoje constar de polenta, caldo de carne, cheiro verde, e refogado de folhas de beterraba. Com certeza vai comentar: - Que pobreza! Mas não se trata disso. Graças a Deus, tudo está bem. E domingo não precisa necessariamente ser diferente dos outros dias. O importante é ter-se o que comer. E mais ainda, estar de bem com a vida. E isto, todos estamos, Graças a Deus.

 

11) A Liliam é boba. Gosta de ser boba! E chata. Faz tudo para que a gente não goste dela. Bobona. Em vez de fazer o contrário. Morde tudo, e só faz sujeira. Deus que me perdoe mas, tem mais jeito de bicho do que de gente. Morde tudo, lambe tudo, morde a gente. Não entende a gente quando a gente fala com ela, não fala nada, só faz grunhidos, como se fosse animal. Não posso entender a natureza dela. O que é de comer, ela não come. Só gosta de comer sujeira e o que não é de comer. Haja paciência para se aturar um ser assim. 

 

12) Ah! Se Sujim me patrocinasse! Juro que seria Deputada Estadual. Juro que sria Prefeita de Suzano. Mas ele vai me patrocinar. Ele vai me produzir. E eu juro que vou ser tudo isso ainda. Deus quer. E eu vou ser. 

 

13) Será que viver vale a pena? Se “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, assim também, viver vale a pena. Mas a nossa alma, minha e de Liliam, não serão pequenas? E se são, então não vale a pena. Estou cansada da vida, cansada de tudo. Pra que viver essa vida que eu vivo só lutando sozinha, para quê? Só tentando, tentando, tentando ser feliz sem nunca ser. Só adiando, adiando, adiando o dia de morrer. E só complicando cada vez mais a vida dos outros viver. 

 

                                                                                     Clô

    

card A Infinita Clotilde no Pelô - 2023

 



19 11 85

 

LIII – 19/11/85 – terça-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.

 

1) Às vezes eu quero tudo. Às vezes eu quero nada. Não sei o que vale mais a pena querer. 

 

2) Estou morando aqui neste bairro de gente humilde, não de bandidos. Se bem que há bandidos por aqui como os há em todo lugar. Estou presa aqui neste lugar por esta casaDo mesmo modo que estou presa à vida por causa da Liliam. Será que vale a pena viver? 

 

3) Rezo pra ver se mudo pra ver se me decido, pra ver se perco esta instabilidade constante que é o meu estilo de ser agora e que eu abomino. Quero ser uma coisa ou outra e nunca as duas juntas. Ser ou não ser. Eis a questão.

 

4) Lilinha sempre assim doente. E eu que queria tanto que ela fosse normal. Já há duas noites que ela não dorme e não me deixa dormir. E é onde eu fico arrasada. Desanimada. Depressiva. Desejosa de desistir da vida. 

 

5) Meu filho, meu filho. João Francisco. Ler sua carta é tomar uma injeção de ânimo e tomar vergonha na cara. Eu tenho tudo pra ser líder. E vou ser uma líder. Com a ajuda do Gohonzon e do Jânio eu vou ser líder. Apesar de tudo, eu serei uma grande líder. E vocês, meus filhos, são e serão sempre as minhas principais forças.

 

6) Decidi que vou concorrer nesta próxima eleição como candidata a Deputada Estadual. Nem que seja só com a cara e a coragem. Mas preciso arranjar um patrocinador e, com a ajuda do Gohonzon, ele irá aparecer. E vai aparecer logo. Farabulini? Camargo? Sujim? Quem será? De minha preferência, gostaria que fosse Farabulini. Mas se Sujim ou outro topar o que eu vou lhes propor... Poderá ser outro, e tudo bem. 

 

7) Tanto que eu tenho pra dar... 

    Você não quer receber.  

    O que é que eu posso fazer? 

 

                                                       Clô