LIV – 24/11/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Bahia!...
Ai, minha Bahia gostosa!
É aqui que mora o meu amor,
Fiats brancos como o meu.
Nos quais eu olhava
E me lembrava do meu.
Que saudade!
Jehová de Carvalho...
Ai, Jehová, Jehová...
Que saudade!
2) Dei pedaços de pães velhos pro Alexandre. Mas antes não devia ter dado. Que dor! Deveria ter dado o pão que comprei hoje em vez dos velhos que dei. Seria tão bom se todos na minha família fossem melhores que eu... Tivessem melhores condições de vida. E, ninguém precisasse de ninguém. Ninguém precisasse pedir nada pra ninguém, nem depender de ninguém. Mas é sempre a mesma repetitiva história. Sempre todos precisando de mim. Ainda bem que, muito ou pouco, eu sempre tenho pra dar. Seria desastroso se eu também não tivesse.
3) Aqui quem fala é a candidata a Deputada Estadual e próxima Prefeita de Suzano, Clotilde Sampaio. É sério. Não estou brincando não. Só preciso de um produtor. E se não for você, Sujim, será outro. Mas que eu vou ser Deputada Estadual e a mais próxima Prefeita de Suzano, isto vou. Já decidi que vou. E a sorte já está lançada.
4) Por que? Ora, por que. Porque eu acredito em mim. Acredito na minha capacidade de luta, de enfrentar e remover os obstáculos. Acredito na minha capacidade de trabalho. Acredito na minha sinceridade e na minha honestidade.
5) Está um silêncio tão grande nesta casa, que eu nem sei o que eu faria se hoje não fosse domingo e o Ita e a Lilinha não estivessem aqui dormindo.
6) Jussara faz falta aqui. Vitória faz falta aqui. João faz falta aqui. São presenças que talvez nunca mais eu as tenha junto comigo aqui nesta casa. Estes são os meus filhos que talvez tenham saído de casa para não mais retornar. O único que saiu também mas está sempre mais aqui comigo do que longe é o Ita. João, apesar de estar geograficamente mais longe, não está tão distante quanto a Vitória. Jussara também se lembra de mim e dos irmãos. Só Vitória que se distanciou de vez de nós. Tanto que a distância entre ela e nós é a mesma que existe entre a Terra e um qualquer dos outros planetas. Mas se ela está bem, o importante é que ela esteja bem.
7) Nosso telefone já deve estar valendo mais de dez milhões. Se o único que existe, que é o comercial, está por Cr$ 6.700.000,00 e ainda está mais barato que a próxima expansão.
8) Espero que a Vitória não falte com sua palavra e me pague os sete milhões que me deve até o próximo mês de dezembro, como foi combinado e assinado. Espero que ela não falhe porque se falhar desta vez, vai falhar sempre.
9) Temos boas perspectivas daqui em diante. O Jânio ganhou. O PTB se fortificou. Eu estou rezando. O Ita vai conseguir pagar a Faculdade sem precisar do Aoud. Jussara está trabalhando. Lilinha está boazinha. Eu estou animada, elétrica, querendo e lutando com certeza de poder conseguir o impossível. João vai chegar no dia 1º e mataremos saudades. Lorena está grande e linda. Estou mais ou menos de bem com Aoud e sem precisar dele pra nada. Com perspectivas de nos mudarmos daqui, de alugarmos a casa, de mudar para um carro melhor, e de receber os sete milhões da Vitória. E sou candidata com eleições ganhas para Deputada Estadual em 86 e para Prefeita de Suzano em 88. E com Jânio na Presidência da República de novo em 88. Já pensaram? E um novo Brasil em todos os sentidos. Com pessoas mais sinceras e honestas nos governando. Certo? Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Muito obrigada, Gohonzon.
10) Domingo cinzento, frio e feio, que me faz ficar louca pra que chegue amanhã. Amanhã o telefone será religado e eu poderei me comunicar com os meus interesses. Ita dorme ainda até agora, quase 14:22 horas. Deve ter chegado bem tarde pra estar dormindo tanto assim. Nem tomou café hoje. E não sei se vai gostar de o almoço de hoje constar de polenta, caldo de carne, cheiro verde, e refogado de folhas de beterraba. Com certeza vai comentar: - Que pobreza! Mas não se trata disso. Graças a Deus, tudo está bem. E domingo não precisa necessariamente ser diferente dos outros dias. O importante é ter-se o que comer. E mais ainda, estar de bem com a vida. E isto, todos estamos, Graças a Deus.
11) A Liliam é boba. Gosta de ser boba! E chata. Faz tudo para que a gente não goste dela. Bobona. Em vez de fazer o contrário. Morde tudo, e só faz sujeira. Deus que me perdoe mas, tem mais jeito de bicho do que de gente. Morde tudo, lambe tudo, morde a gente. Não entende a gente quando a gente fala com ela, não fala nada, só faz grunhidos, como se fosse animal. Não posso entender a natureza dela. O que é de comer, ela não come. Só gosta de comer sujeira e o que não é de comer. Haja paciência para se aturar um ser assim.
12) Ah! Se Sujim me patrocinasse! Juro que seria Deputada Estadual. Juro que sria Prefeita de Suzano. Mas ele vai me patrocinar. Ele vai me produzir. E eu juro que vou ser tudo isso ainda. Deus quer. E eu vou ser.
13) Será que viver vale a pena? Se “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, assim também, viver vale a pena. Mas a nossa alma, minha e de Liliam, não serão pequenas? E se são, então não vale a pena. Estou cansada da vida, cansada de tudo. Pra que viver essa vida que eu vivo só lutando sozinha, para quê? Só tentando, tentando, tentando ser feliz sem nunca ser. Só adiando, adiando, adiando o dia de morrer. E só complicando cada vez mais a vida dos outros viver.
Clô
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