LVI – 26/11/85 – terça - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Hoje levantei com a macaca, querendo a todo custo por ordem nos feios hábitos da Liliam. Bati-lhe, bati-lhe, bati-lhe nas mãos para ver se ela para de bater as mãos na boca, quase acabei com as mãos dela e com as minhas de tanto bater-lhe. As mãos dela já estavam vermelhas, inchadas e encaroçando, mas nada dela parar. Acabei prendendo-a de novo naquela camisa de força suja e feia mesmo. Não tem jeito. Aprender as coisas feias ela aprende facinho, sem ninguém ensinar. Mas o que é bom não há meio. Se vou ter paciência pra ficar com ela o resto da vida. Eu preciso viver. E agora quero viver. Já que ela não se esforça pra ser gente eu não vou perder mais meu tempo com ela. Que se dane. Não fui eu quem a pus no mundo. Se a mãe dela char ruim que eu bata nela, que cuide oras. Tudo aqui em casa só anda sujo e estragado. É camas, é cadeiras, é janelas, é espelhos, é móveis, é tudo. Assim não dá. Paciência tem limite e a minha já se esgotou.
2) Tadinha da Liliam. Tão linda! Por que será que só ela é assim? Tem horas que eu perco a paciência com ela e dá até vontade de entregá-la de novo aos pais e à triste sorte dela com eles. Mas depois, penso um pouco, e não tenho coragem. Não. Eu nunca mais poderei viver sossegada pensando nela, sem saber como ela está vivendo e, principalmente, sabendo que ela não está bem. Creio mesmo que não saberei mais viver sem ela. É uma pena que ela seja assim, mas que fazer? Só Deus sabe o porquê dela ser assim. Nós temos que aceitá-la e gostar dela como ela é. Só isso. Se Deus quiser, um dia ela fica normal. Devemos só pensar positivo e ter esperanças. Só isso. e cuidá-la o melhor que for possível.
3) Quanto arrependimento, meu Deus. Ter batido numa criança que nem sabe pedir água, que nem sabe porque que apanha. Esta criança já sofreu tanto nestes menos de seis aninhos de vida que tem, e eu ainda feito louca, feito um demônio, aumento-lhe mais ainda o sofrimento judiando-lhe como hoje. Que dor, meu Deus, que remorso! Pensar no que fui capaz de fazer com ela hoje. Deixei-lhe as mãozinhas todas inchadas, vermelhas e até encaroçando de tantos tapas, a boquinha toda machucada de tapa, dei-lhe tapas no seu rostinho, na cabeça, joguei-a com tudo várias vezes sobre a cama. Eu estava louca, bestializada, endemoniada. Preciso tomar mais cuidado comigo. É numa hora dessas que qualquer pessoa pode cometer até um crime. Deus me livre! Credo. Namyohorenguekyo, namyohorenguekyo, namyohorenguekyo. Valei-nos, meu Gohonzon. Dai-nos força e paciência para enfrentarmos do melhor modo possível todas as adversidades da vida. Deve ter sido por causa dos maus tratos que ela vomitou duas vezes hoje e fez o maior monturo de cocô que eu já vi ela fazer duas vezes também hoje. O sofrimento abalou-lhe as bichas.
4) Amanhã, às 4 horas da tarde, finalmente vou me encontrar e conhecer pessoalmente mais um grande poeta do Brasil. O primeiro foi Jehová de Carvalho, renomado poeta da velha e querida Bahia. O segundo agora é Rolando Roque da Silva, que eu fiquei conhecendo por nome desde a Bahia. Gostei, me identifiquei com o que ele poetiza. E desde então, ou seja, há quase dois anos atrás, desejava conhecê-lo. Amanhã vou realizar meu sonho. É Poeta Paulista dos ótimos. Ou seja, uma raridade. Nem imagino a emoção que terei ao poder vê-lo e falar-lhe pessoalmente. Amanhã será um grande dia para mim. Por enquanto, só sei é que ele tem 72 anos de idade e 27 a mais que eu. É do signo de escorpião, como Aoud. E pelo que escreve, tem a personalidade que eu sonho encontrar num homem. Será bonito? Penso que sim. Será alto? Penso que sim. Será moreno? Penso que sim. Será forte? Penso que sim. Simpático eu já sei que ele é. E se for tudo isso então, eu sendo o que sou, poderemos até nos apaixonar. Por que não? E em ele sendo livre então, quem sabe?
Clô
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