LVIII – 31/11/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano, SP.
1) Fui na tarde de quarta-feira conhecer o Poeta. O grande poeta Rolando Roque da Silva. Hoje, passados alguns dias, eu o chamo de grande e bendigo tê-lo conhecido. Mas, na dita tarde do grande evento, confesso que saí da União Brasileira de Escritores nada menos que decepcionada. Achei-o arrogante, preconceituoso, presunçoso, antipático, e outras coisas do gênero. Hoje eu o entendo apenas arredio, isolado na dele, tímido para com uma desconhecida. Enfim, merece o meu maior conceito. Um Poeta que poetiza a vida como ele sabe poetizar, só pode ser chamado de um grande poeta. Já li e reli inúmeras vezes, e vou tornar a lê-lo e relê-lo continuamente pois a poesia de Rolando Roque é para ser lida e relida sempre.
2) No tocante à sua aparência, e em relação a como eu o imaginava? Sim se de um lado me surpreendeu por ser baixinho, em vez de alto, de ser mais para branco do que para moreno, e de ter os olhos azuis, em vez de castanhos escuros ou negros, como eu pretendia que fosse, de outro me surpreendeu também porque, aos setenta e um anos de idade, está bem mais conservado do que eu o imaginava.
3) João chegou também na quarta-feira. À noite. Eu estava aqui na cozinha conversando com a Miriam um pouco depois da minha chegada pois já eram mais de oito horas quando cheguei. Ouvimos um barulho de carro chegando e em seguida o toque da campainha.
- É gente de política, disse pra Miriam. Deve ser a turma do PTB. Pergunte quem é e mande esperar. Mas ao ver que ela saiu e se dirigiu a casa dela, saí eu mesma e perguntei:
- Quem é?
- João.
- Que João?
Deve ser o colega do Ita, pensei. Miriam que resolver ir ver respondeu:
- É o João da Bahia!
- Meu filho? Já? Não é possível isso! Assim, sem a gente esperar? Que bom!
Corri e fui abraçá-lo. Veio alegre, cheio de vida, cheio de novidades boas da Bahia. Perguntou de cada um daqui e informou de cada um de lá. Que Lorena está linda e mostrou mais fotos que trouxe para comprovar o que falava. Após um pouco de conversa, quis ir na casa da Miriam e eu o acompanhei. Mas tinha deixado Lilinha sozinha e voltei deixando-o lá. Voltou da casa da Miriam bem tarde. Já passava de uma da manhã; sentamo-nos os dois na cozinha e recomeçamos a conversar. Contei-lhe sobre a minha decisão de ser candidata a deputada estadual em 85 e candidata a prefeita de Suzano em 86. Ele ficou fulo e de cara me deu um severo pega.
- Como é que a senhora pode, na situação em que está, fazer tão absurda decisão? É um absurdo isso. A senhora não vê?
- Absurdo? Absurdo por que? Respondi chocada.
Clô
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