sábado, 4 de outubro de 2014

O RATO

   
Um rato esta noite inteira
Não quis me deixar dormir.
Corre aqui, corre acolá
Mexe acolá, mexe aqui.

Quase três horas da noite
Um silêncio...
A insônia... Bem,
De repente: tlém... tlelém...
Soa em tampa de panela.
Na cozinha. Não falei?
Bem que eu falei: tem alguém
Algo. Que eu não sei quem seja.
O que será? Será quem?
Levanto. Dou uma espiada,
E a princípio, nada vejo,
Senão, sobrenatural.
Mas, que será mesmo, será?
Quero logo o que é, contém?
Camundongo?
E na janela
Pelejando pra subir
Pelo vidro, pra sair
Pela fresta. E não consegue.
Ah! É você, seu danado?
Rato ladrão, sem vergonha
Rato da peste! Cachorro!

Se eu não me levantasse
E viesse averiguar
Esse barulho seria
Tal qual da noite passada
De uma pobre assombração
E nunca, nunca de um rato
Audaz, medroso, ladrão.
Pretendendo penetrar
Na panela de pressão
E também se associar
Na polenta das cadelas.

Foi chato o constato a um rato
Sem que o tivesse esperando.
Mas, até prefiro um rato
Que ver uma assombração.

E este rato a noite inteira
Não quis me deixar dormir.
Correndo ali, acolá,
Mexendo acolá e ali.

          Clotilde Sampaio

    Monte Cristo, Suzano, SP, 1984.








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