Um rato esta noite inteira
Não quis me deixar dormir.
Corre aqui, corre acolá
Mexe acolá, mexe aqui.
Quase três horas da noite
Um silêncio...
A insônia... Bem,
De repente: tlém... tlelém...
Soa em tampa de panela.
Na cozinha. Não falei?
Bem que eu falei: tem alguém
Algo. Que eu não sei quem seja.
O que será? Será quem?
Levanto. Dou uma espiada,
E a princípio, nada vejo,
Senão, sobrenatural.
Mas, que será mesmo, será?
Quero logo o que é, contém?
Camundongo?
E na janela
Pelejando pra subir
Pelo vidro, pra sair
Pela fresta. E não consegue.
Ah! É você, seu danado?
Rato ladrão, sem vergonha
Rato da peste! Cachorro!
Se eu não me levantasse
E viesse averiguar
Esse barulho seria
Tal qual da noite passada
De uma pobre assombração
E nunca, nunca de um rato
Audaz, medroso, ladrão.
Pretendendo penetrar
Na panela de pressão
E também se associar
Na polenta das cadelas.
Foi chato o constato a um rato
Sem que o tivesse esperando.
Mas, até prefiro um rato
Que ver uma assombração.
E este rato a noite inteira
Não quis me deixar dormir.
Correndo ali, acolá,
Mexendo acolá e ali.
Clotilde
Sampaio
Monte
Cristo, Suzano, SP, 1984.
Nenhum comentário:
Postar um comentário