Levantei-me cedo. Fiz a marmita do João. Faz uma manhã
esplendorosa. E um sol lindo e forte que domina e faz vibrar todo o Monte
Cristo. Estou sem nenhum dinheiro trocado e a Vitória não tem nem dinheiro para
tomar o ônibus. Juntou todas as moedas e só deu Cr$ 2,60, e o ônibus é Cr$
2,80. Não vai dar nem para pagar a ida. Na volta terá que vir a pé. Fiz
bolinhos porque também não temos trocado para comprar pão, leite e açúcar. O
óleo também está no fim mas o pouquinho que tinha deu para fritar os bolinhos.
Ia fazer chá mas não tinha açúcar. Só comemos os bolinhos. Estou com as dez
notas de Cr$ 500,00 que o Aoud mandou ontem. Mas na venda não trocam. E também
não tenho confiança de deixar a Jussara sair com Cr$ 500,00 na mão. Pode alguém
mal intencionado ao vê-la trocar tanto dinheiro, segui-la e se apossar do
dinheiro, e até machucá-la, o que é pior. Rezei só os Gongyos da manhã e da
noite e 20 minutos de daimoku (...). Eram já mais de três horas
quando saí para Suzano e a Vitória ainda não havia chegado. Fiquei preocupada
porque ela está doente e sem dinheiro para voltar. E sem comer nada. Pode dar
uma tontura, cair na rua, e é muito perigoso. Vou ao Banespa saber com relação
à minha conta. Quando e porquê foi encerrada. No banco, depois de muita espera
e de muita procura por parte do alto funcionário que me atendeu, este me disse
o seguinte: é que por falta de movimento e de saldo, o computador eliminou a
conta. Eu depositei e caiu fora da conta. O cheque caiu, eles não acharam o
saldo correspondente e devolveram sem fundos o cheque. Mas que já estava tudo
certo, e que o mesmo cheque poderia ser depositado outra vez. Fiz novo depósito
de Cr$ 500,00, e ficou tudo okay outra vez no Banespa. Depositei mais Cr$
4.000,00 no Nacional. E passei no Depósito São Luiz para avisar sobre o cheque
e comprei um outro vitrô de 0,60 x 0,60 para o banheiro que ficou pequeno.
Telefonei para o Baiano. Vou encontrá-lo no sábado das cinco e meia às seis.
Fiz compras e fui para o ponto de ônibus que demorou muito. O Galetti passou de
carro e me viu. Dali a pouco passou a pé e, ao me ver de óculos que eu pus só
para enxergar bem o ônibus, gritou “Ei, dona! Está de óculos, heim! Precisa pôr
a máscara”. Cheguei, a Vitória já havia chegado. Graças ao Gohonzon. Havia
ficado na casa da tia porque não estava bem, até às quatro. O Ita foi quem
chegou do jogo de bola com febre e dor de cabeça. Nem foi hoje na escola. Luciano
(o encanador), com rifa de Cr$ 3,00 ganhou um jogo de panelas. Sortudo. Teve
bafafá agora ao escurecer no cortiço aqui da frente por causa do chifrudo e
tarado marido da Du Carmo que, desrespeitou a menina vizinha. O Doca veio me
trazer os Cr$ 1.000,00.
Clotilde Costa Sampaio nasceu em 17 de maio de 1940 em Santa Cruz do Rio Pardo, SP e faleceu em 17 de janeiro de 2010 em Mogi das Cruzes, SP. Poeta desde os 23 anos quando, viúva com dois filhos, conheceu o grande amor de sua vida e com ele teve mais dois filhos, em SP, capital. Construiu sua casa em Suzano, SP. Alternava períodos em Salvador, BA, momento em que sua obra ganhou e alcançou novo vigor poético. Deixou os filhos João, Vitória, Itamaraty, Jussara e Tarcila.
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