domingo, 19 de outubro de 2014

SEMPRE QUE PARTES...


Sempre que vais de mim...
Sinto-te mais feliz, mais sorridente
Livre afinal, das cordas dos meus braços.
Deixas-te encaminhar a solto, independente
Na fuga dos nós cegos dos meus laços.

Sempre que vais de mim...
Percebo até na voz com que te expressas
O tom de uma alegria diferente
De quem se foi de mim, partindo às pressas
De volta ao seu jeitinho de inocente.

Sempre que vais de mim...
Me esqueces. E... me fazes teu  brinquedo.
E eu fico relegada ao abandono.
Sou a boneca de quem fartas muito cedo.
E voltas para a vida do teu sono.

Sempre que vais de mim...
Eu fico aqui de longe a imaginar-te
Correndo pela estrada toda nua
Fugindo da lembrança que foi tua
E que teima perseguir-te em toda parte.

Sempre que vais de mim...
Sei que desvestes tua fantasia
E ingressas no silêncio de alguns anjos
Que esperam-te do regresso da folia
Trazendo todo o íntimo em desarranjo.

Sempre que vais de mim...
Levas de mim toda a felicidade.
E eu fico a vê-la de braços contigo
Com gestos de profunda intimidade
Passeando nos caminhos da saudade
Que outrora percorrias só comigo.

Sempre que vais de mim...
Contido em rija e adulta indiferença
Só sabes levar a sós contigo
O abandono da minha presença.
E enquanto voas nos asfaltos de outras zonas
Eu fico a acalantar tua lembrança
Que deita em teu lugar e que ressona
Enquanto te devolves pra esperança.

                   Clotilde Sampaio

                     Brás, São Paulo, SP, 1963


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