sábado, 25 de outubro de 2014

22 de janeiro de 1976 – quinta-feira

Amanheceu chovendo muito hoje. Levantei-me tarde e de manhã eu não saí. Rezei os dois gongyos e uma hora de daimoku. Já passavam das quatro quando eu saí para Suzano. Como se já não bastasse a barreira (muito barro*) da estrada, para cortar caminho cismei de passar por um velho trilho já coberto de mato e fiquei com as pernas da calça todas ensopadas. E tive de atravessar muito envergonhada a cidade assim. Na gráfica, os talões ainda não estavam prontos. Iam sair depois de quarenta minutos. Eram cinco horas, e pensei: enquanto isso, como combinei com o Clovis, vou a Jundiapeba avisá-lo. Na volta passaremos aqui e pegamos os talões. E rumei para lá. Eram cinco e meia, bem na hora que havia combinado com ele. Mas de longe vi que as portas estavam fechadas e que portanto, ele não estava. E nem cheguei até a loja. De frente da estação mesmo, voltei. Decepcionada pois estou vendo muita falta de interesse da parte do Clovis em me ajudar. Apressei o Aoud em me dar o dinheiro ainda em setembro para começar imediatamente a trabalhar. Dei os Cr$ 4.000,00 no dia 20 de dezembro pra que ele desse a entrada na perua logo para entrarmos o ano já trabalhando. Disse que lá pelo dia 8 de janeiro já apareceria em casa com o carro, eu fiquei esperando e não apareceu. No domingo, dia 18, que eu fui na casa dele, falou que havia gasto o meu dinheiro com os vidraceiros dele. E que ainda ia precisar receber para poder comprar a perua. E pra receber precisa da nota fiscal dos talões que ficaram prontos hoje e que ele não se importou de vir buscar. Um dia desses chegou na loja na companhia do Zé, depois do meio dia só com a desculpa de que chovia muito em São Paulo. Eu só estou faltando ficar louca por causa dessa vidraçaria. Desde que a comecei foi só correr pra lá, correr pra cá, pagar isso, pagar aquilo, e sem vantagem nenhuma, só prejuízo. Até minha saúde e minha animação pela vida, eu já perdi por causa dela. Qualquer dia, o que vai acontecer é que eu perco a cabeça e faço um ato tresloucado por causa dela. E por causa dos meus irmãos, amigos da onça. Nunca, há mais de oito anos, cheguei a estar nessa situação que estou. Doente, sem dinheiro e sem nada. E sem ter de quem depender porque o Aoud, nessas alturas nem é bom pensar que existe. E eu não tenho mais cara de pedir um centavo que seja a ele. Dei um cheque de Cr$ 207,00 na gráfica e o que tenho no banco não cobre esta quantia. Estou viciada em leite em pó. Por isso comprei mais uma lata de 1 quilo de leite Sol. E paguei Cr$ 21,00. E uma lata de cera por sete cruzeiros. Já em casa pusemo-nos, eu e as crianças a saborear o leite assistindo a novela “Um dia o amor”. O Ita começou a implicar com a Jussara. Em determinado momento falou-lhe: não esquente muito a cabeça pra não derreter os seus chifres. Ela respondeu prontamente: é bom que assim eu fico sem chifres. Eu e a Vitória nos pusemos a rir.
                              Clô



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