quarta-feira, 4 de março de 2015

DELÍRIO

Desta distância onde agora te encontras
Chega até mim um murmúrio de vozes
Em sinfonia de frases bonitas
Que devem ser tuas.
E não é só.

Chega também envolvido no vento
O hálito febril de lábios que me beijam
E que devem ser os teus.
Mas que não chegam sós também.

Trazem fictícios contactos de mãos
Que me apalpam e me apertam
Aos quais se juntam roçados de braços
Que me estreitam e me esmagam
Bem colada ao teu peito.
Sim, só pode ser o teu
Pois calor como o dele
Creio que mais ninguém
Poderia me dar.


E o cheiro de tua pele
Morena e queimada
Do sol de Itaquera
Chega e vem
Na minha se entranhar.

E eu te sinto
Todo junto a mim
E o meu corpo se abrasa
Em fogoso delírio
Sem ninguém me tocar.

             Clotilde Sampaio

                São Paulo, capital, entre 1963 e 1965.






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