segunda-feira, 1 de abril de 2024

07 10 85

XXIX – 07/10/85 – segunda - Jardim Monte Cristo, Suzano.

 

1) Neste fundo de poço em que nasci

    Onde na ânsia de lutar para sair

    Só arrastei mais gente ao fundo dele.

 

2) Nova República:

    Só nome. 

    Novas esperanças? 

    Só nome. 

    Mudanças?

    Em quê?

    Só novos nomes.

    Novos engodos.

    Tudo só novos nomes. 

    Novas formas de camuflar

    Novos velhos engodos.

 

3) Eu finjo que finjo pra viver

    É no escuro que eu acho que tenho mais coragem.

 

4) Tantas sujeiras endossam tantas sujeiras

     Gerando tantas sujeiras.

 

5) Poeta todo mundo quer ser

    Mas bem poucos hoje o são.

    Não os que são

    Mas só os que não!

    Os ricos.

 

6) Não consigo esquecer dos dez mil que sumiram. O pior é que tem ladrão aqui em casa entre a Jussara e a Dinorá. Camuflado. Escondido. Ainda não identificado. Mas tem. É tão ruim ter que ser perder a confiança em alguém. Dinorá está mais pesada. Não tem dado mostras quando pode de honestidade. Sempre que lhe dou dinheiro para alguma coisa. E eu sei que volta troco. Mas ela nunca apresenta o troco. Que adianta parecer uma coisa e ser outra. Ela não precisa disso. Sempre que ela me pede, eu nunca lhe neguei nada. Outro dia também sumiu dez mil do Ita que até agora não apareceu. Igual o meu dinheiro que criou perninhas aqui dentro de casa sozinho. E não estava em lugar nenhum. Foi a mesma pessoa que pegou o meu dinheiro e o dinheiro do Ita. Tenho quase certeza disso. 

 

7) Rico faz qualquer besteira é arte. Pobre faz arte, não passa de besteira.

 

8) Hoje eu não estou bem. Acordei às quatro e meia preocupada com o horário do Ita levantar. Pensei que já fosse seis e meia e que já estaria na hora dele se levantar. Lilinha acordou logo depois e queria bagunçar. Parece que carrego uma tonelada de tudo quanto não presta no cérebro. Preocupações, apreensões, medos, negativismo, tédio por tudo. Canseira de tudo. Nada vale a pena. Que fazer então? Morrer. Deitar numa cama abaixo do nível do chão. E dormir eternamente, não ver mais ninguém, não ser vista mais por ninguém. Não falar mais com ninguém, não saber mais nada. Pior é que eu ainda não posso fazer isso. Lilinha não deixa.

 

9) Tem gente que só de ver faz mal. Não nos fez mal nenhum. Mas é cansativa, enjoativa, nauseante. Que mulher chata. Nunca vi ninguém tão chata em toda a minha vida. Uma personalidade tão insossa, tão pobre. Que pena. E talvez ela nem tenha tanta culpa de ser assim. É que a fizeram assim talvez. Lilinha que não tem cabeça pra nada tem mais cabeça que ela. Será que veio visitar Matilde mesmo? Ou só veio emposturar? Pelo que eu saiba, ela não tem amizade chegada com ninguém aqui de casa. Nem mesmo com a Miriam que é esposa do primo dela. Pelo que eu sei, ninguém aqui tem nada contra ela, mas não a toleram. Esta é a segunda vez já que ela vem ter aqui em casa. É boba. Coitada. Não enxerga o quanto é demais em qualquer ambiente. Reinaldo está feito. Melhor não poderia estar. E acho que ele merecia alguém mais gente. Alguém mais nítida como gente. E não este ser tão apegado, que se chama Dindi. Ela só combina com ele na falta de dentes na frente. Os dois juntos nada mais passam que um casal de vampiros. Par perfeito! Agora estou lembrando que ela morria de ciúmes da Matilde por causa do Reinaldo. E agora esta visita assim, sem mais nem menos... não estou entendendo.

 

10) Continuando sobre o ocorrido com Matilde, ou seja, sobre o capítulo XXVIII, 05/10/85, sábado, conseguimos chegar lá ainda na hora da visita. Perguntei à moça na portaria: 

  - Nós viemos visitar Matilde Lima Costa...

Ela olhou no livro e respondeu:

  - Quarto número 111, no fim deste corredor.

  - Neste primeiro?

  - Sim.

Foi fácil achá-lo. E um instantinho depois, abri a porta do 111 e da porta mesmo vi Matilde deitada, na cama defronte, acordada. Ficou contente quando nos viu.

  - Pensei que tinham me esquecido, falou.

Eu abracei-a quase, ou melhor, com os olhos lacrimosos de emoção por vê-la, graças a Deus, sã e salva. E pensar que, pelo que passou, poderia até ter morrido. Graças ao Gohonzon ela estava ali viva. 

  - Como está? O que aconteceu?

  - É que caiu tudo pra baixo. E eu tive hemorragia. Por pouco não morri.

  - Mas agora, você está bem? Que que os médicos fizeram?

  - Eu operei. Eu tinha que fazer esta operação já há muito tempo. Mas fui deixando, deixando, e aconteceu o que aconteceu.

  - Agora você precisa ter bastante repouso. Tem que ficar três meses sem pegar nenhum peso. O importante é que agora você está bem. Você agora precisa fazer aquela outra pra não ter mais filhos. Mas deixa sarar desta e em seguida você faz a outra. 

  - Não veio ninguém aqui, e eu pensei que tinham me esquecido.  

  - A gente não sabia. Só fomos saber ontem de tarde, e ainda assim, porque a Miriam mandou o Dudu lá na sua casa, aí que nós ficamos sabendo que a Dinorá não tinha ido na escola, e que você tinha ido pro hospital. Mas a gente nem soube nada direito. Hoje que a inquilina da Miriam veio contar como é que aconteceu tudo. E nós ficamos preocupadas. Viemos a pé de lá de casa aqui. Perdemos o ônibus, e pensamos que nem ia conseguir te fazer visita. E você quando vai sair daqui?

  - Eu já estou de alta. 

  - Se a gente tivesse trazido dinheiro, a gente te levava agora de taxi. Mas o dinheiro que a gente tem aqui não dá. Eu vou falar com o Ita, assim que ele chegar, pra vir te buscar com o carro. Você espera aí que a gente vai logo pra ver se encontra ele em casa e avisar. Ele foi pra São Paulo fazer compras. E já deve até ter chegado. Se a gente demora aqui, ele pode sair e a gente se extravia. 

Despedimo-nos, eu e a Miriam dela, e voltamos a pé. Fiquei com as pernas pedindo outras de tanta canseira. E toda quebrada. Miriam, grávida já de cinco meses, ficou moída. Mas na volta viemos mais devagar. Graças a Deus tudo deu certo. Encontramos ela bem, até corada, disse que tomou dois litros de soro e meio litro de sangue. Conversando bem. Animada. Voltamos alegres. Fomos e voltamos a pé e ainda voltamos cedo. Fiquei revoltada de não ter podido fazer nada por ela na hora que ela mais precisou. E só porque a Dinorá não teve a mínima capacidade de avisar a gente antes dela sair na sexta de manhã. Foi levada e abandonada lá sozinha sem ter ninguém para interná-la, como se não tivesse ninguém, nenhum parente, como se fosse indigente. Norá é esquisita, onde já se viu fazer isso com a própria mãe? É também, isso que me revolta: uma mulher caprichosa, trabalhadora, limpa, que ama os filhos, não arranja um homem pra tomar conta dela. Só arranja estes sem-vergonhas pra atrapalhar a vida dela e sumir. Tanta mulher aí que não vale nada, e arranja um homem que faz tudo e que lhe dá o maior valor. É karma de família. Nós, mulheres da nossa família, temos que lutar a vida inteira, e criar os filhos, e passar o resto da vida sozinhas. Também, pra arranjar qualquer coisa, é bem melhor sozinha que mal acompanhada. Eu, por exemplo, só vivo com alguém se vale a pena. Pra arranjar qualquer pé rapado, ignorante, é preferível ficar sempre como estou. Ita chegou só à noite. Disse que se perdeu umas três vezes na cidade. E que passou na avó, deixou alguns mantimentos principais pra ela, mais dez mil cruzeiros. Isto mesmo, meu filho. Ela merece tudo. Quanto mais a gente pudesse dar, melhor seria. Foi chegar, descarregar o carro, e saiu buscar a tia! Menino de ouro, está aí sempre pronto pra tudo. Assumiu com menos de 21 anos mais do que todas as responsabilidades de uma família nas costas. Valeu, meu filho. Valeu. A coisa que mais valeu na minha vida, foi eu ter tido estes filhos que eu tive. E você então, vale sozinho, por todos os outros filhos que eu não pude ter. Matilde vai ficar aqui em casa se restabelecendo pelo menos uma semana. O pior disto tudo, é ter que aguentar também os filhos dela de contrapeso. Nem eu nem a Miriam temos mais paciência para tanto. Mas a gente dá um jeito. 

 

11) Passei hoje o dia inteiro com a pressão muito baixa. Deve ter chegado a cinco. Senti tonturas o dia todo. E teve uma hora que quase caí. Deve ter sido o AS que a Miriam me deu pra tomar estes dias por causa da minha terrível dor de cabeça que ainda não passou de tudo.

 

12) Ita consertou a parte elétrica do carro no sábado. Agora disse que ele está ótimo. E falou pra mim ontem que ele está decidido a vender tudo. A partir do telefone. Jussara perguntou quanto o Sidfone está pagando por um telefone, eles disseram que pagam até CR$ 5.400.000,00. Se na telefônica está CR$ 4.700.000,00, é vantagem. Mas será que é isso mesmo? Será que a Jussara não entendeu errado?

 

13) Lilinha passou o dia todo de hoje bem boazinha como de há muito não ficava, e como eu gosto que ela sempre esteja. Calminha, atenciosa, falou mamãe, neném, dá, como nos velhos tempos. É o santo remédio Rivotril. O Corintol só bagunça mais com a mente dela. E ela fica irreconhecível. Ficou sorrindo o dia inteiro e hoje dormiu mais cedo, sem se bater, quietinha, como uma criança normal. Comeu bem. Feijão, arroz e ovo. 

 

                                                                                                                             Clô

 

 

    

 

    

    

    

 

 

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