segunda-feira, 1 de abril de 2024

DE VOLTA

Como sempre,

Sair da Bahia

É essa dor.

E eu tenho que chorar.

Não dá pra deixá-la sem lágrimas.

Tudo me dá saudades antecipadas.

 

Este bairro proletário 

De casas mal acabadas

Talvez antigas invasões.

Mercedes Benz de Salvador

A estrela de três pontas

Me lembram, sem querer, tanta coisa

Da época do apogeu da minha vida.

 

Esta estrada longa que

Me traz de um tudo

Pra dar-me a outro tudo.

Biscoitos Águia

E eu não sabia que era aqui.

 

Céu transparente 

Deixando que enxerguemos

Os seus segredos.

Ou seja, que ele possui

Outras camadas de Céu

E não só essa camada única e só

Que eu pude enxergar até hoje.

 

Você me pedir desculpas?

Já foi alguma coisa.

Não precisava tudo isso.

Pena eu não poder ter trazido

Nenhum livro seu.

Pois conhecendo o seu pensamento

Quem sabe eu te amaria mais,

Ou menos, conforme o seu merecimento.

Quem sabe eu lhe juntaria ao meu rol

De Mário de Andrade e Fernando Pessoa?

 

Pois estes são os homens a quem

Eu realmente amo.

Eu me recuso ao amor de qualquer homem.

 

As pessoas se perdem delas mesmas

E o único refúgio são as drogas.

Salvador está como eu:

Chorando.

Eu porque a deixo.

Ela porque me perde.

 

Que linda a estrada!

Uma linha cinza entre verde bem verde.

Aliás, duas linhas cinzas.

O sol da Bahia!

E estou tão longe!

 

Estou na maior solidão

De Vinícius de Morais.

Não vou esquecer: 

“Chegue sorrindo

Saia aplaudindo.”

Amélia Rodrigues

Às 9:30 da manhã.

Povoado.

 

Isso que você diz que é amor

Eu não entendo como amor.

Mas como ignorante que sou de muita coisa

Respeito-o. E vou procurar entender.

 

Rodoviária de Feira de Santana:

Que sorriso lindo de homem

A nos receber!

Deve estar pra ir no nosso ônibus.

Ainda bem. 

E tomara que ele sente-se aqui comigo.

Vai sim. Graças a Deus.

Só que vai sentar-se lá atrás.

 

Nove horas de viagem de Salvador até Vitória.

Um coroão bonito, e 

Simpático, também vai.

Que sorte!

Pena que não vai sentar-se aqui.

E sim, também lá atrás.

Ou será que ele não vai?

 

Ah! Vai sim. Que bom!

Só que parece estar com a mulher.

Feira é uma graça.

Cidade grande, plana,

Limpa, movimentada.

Progressiva. De homens bonitos e simpáticos.

E a gente está passando bem no meio da cidade.

Uma senhora gorda, sentou-se

Ao meu lado. Procurei

Ser simpática. Parece-me

Que ela não correspondeu.

E está sentada de modo a

Avançar o meu espaço. Deixando-me

Apertada e desconfortável.

 

Jehová. Valeu. Cantina da Lua,

Minha neta, Clarindo, Jehová, meu livro.

 

Valeu. Agora é esperar os resultados.

Os frutos. Que sei,

Serão robustos. E muitos.

Ainda desta vez não conheci Jorge Amado.

Mas vou conhecê-lo numa boa.

Para isto, plantei.

Estou voltando para São Paulo.

Amanhã verei Vitória, Ita, Jussara,

Dinorá, Liliam. Valeu, fiz três

Coisas importantes. Aprendi muita coisa

Desta vez, aqui na Bahia.

A Bahia é uma grande mestra.

Clarindo, um grande mestre de humanidade.

Jehová, um espetacular e polivalente mestre.

Edina, Betina, Claudete, Davi da Viola e outros.

Grandes e verdadeiros amigos.

 

Santo Estevão! Aqui, hoje, sábado, é dia de feira.

Em Feira, não tinha feira.

Muita carne. Só carne.

Jacas e muita gente.

Um carneirinho que vai indo puxado obrigado.

Ou para ser vendido, ou para morrer.

Festa. Todo mundo nas ruas. Jipe amarelo

Tipo o do Ita. O rapaz que dirige, de óculos escuros

Tipo boyzinho. Deve ser daqui do lugar.

A moça do corpete de lingerie

Exposto como blusa. Outro jipe

Mais modelo como o do Ita. É

Uma cidade bem expressiva esta Santo Estevão.

De gente também muito simpática.

 

Jequié exatamente às três da tarde.

Em toda sua extensão. Em toda a sua

Potencialidade. A cidade da Bahia

Que mais faz sol. A terra mais perto

Do sol. Realmente um solão imenso.

Azul anil escuro, azul anil claro,

Azul verde claro. Um tom inédito de

Verde claro no céu que eu nunca em

Toda a minha vida, vi igual. E o cin-

Zento do céu também em diferentes

Tons de azul marinho prateado.

Ainda cinco horas da tarde.

Ainda não chegamos em Vitória da Conquista.

 

Acordei com as paisagens bonitas de Minas.

Tranquilas,

Bucólicas.

O sol batendo nos picos

Das montanhas mais altas.

E o verde mais lindo que há

Em todos os tons de verdes

Subindo pelas montanhas.

 

Estradas péssimas.

Esburacadas.

Os motoristas, os mesmos

De quando vim.

Alterosas ao longe.

Não alteradas.

Só enfeitando o olhar.

Isso ainda a não chegar em Leopoldina.

Estrada rendada

Crivada de buracos

Em todos os tamanhos e desenhos.

E o motorista fazendo peripécias.

 

Montanhas cheias

Montanhas aparadas

Montanhas descabeladas

Montanhas bem penteadas.

 

A chuva que passou por aqui, foi braba.

Roeu todo o asfalto.

Desmoronou barrancos.

Chão de terra bastante molhado.

Deve ter chovido aqui, bastante ontem.

 

Mais tons de verdes.

Agora já do bem escuro.

Contrastando com os mais claros.

Orgasmos múltiplos e simultâneos?

Ou orgasmos simultâneos e múltiplos?

Qualquer que seja,

É o que sente a minha visão.

 

Jehová, você é Deus!

Você é Deus, Jehová!

Mestre Calá e o Terreiro

De Jesus, são de Jesus!

 

Altertranquilosas!

E o sol que não vem.

E o sol que está demorando chegar.

Já vai dar sete horas

E é frio que domina

Esta manhã de Minas.

Domingo, 21/04/85

E pensar que teremos que viajar ainda o dia todo.

E que daqui a pouco, às 8:15 vai dar

Vinte e quatro horas de começo de viagem.

Agora já é menos

Só mais doze horas.

Daqui a pouco entraremos no Rio.

Logo mais em São Paulo, e chegaremos.

E vou rever meus filhos

Liliam, Dinorá, Jussara, Ita, Vitória.

 

E recomeçar tudo.

Agora sim. Está tudo em seus devidos lugares.

E o que não estiver, colocaremos.

Vamos fazer o seguinte:

Eu, Vitória e Matilde,

Nas costuras.

Jussara e Dinorá, 

Tomando conta da casa e das crianças.

Matilde vem morar lá em casa.

Ih! Mas aquelas crianças...

Aquelas crianças dela é que são de amargar.

 

São de estragar qualquer bom plano.

Se não fossem aquelas duas crianças dela

Tudo daria certo.

Eu pararia de trabalhar fora

E iríamos todos lutar, ou seja,

Nos uniríamos para lutar

Um por todos, e todos por um.

A ordem é Vencer.

Nosso patrão: Vencer.

 

Cachoeira de águas amarelas!

Nunca vi!

Está me fazendo tão bem

Olhar estas paisagens

Tão lindas de Minas nesta manhã!

Frio, mas,

Uma nesga de sol.

Depois das serras violentas

Agora só montanhas

Serenas, carpetadas em todos os tons de verde.

E não sei por que

Me lembram Tancredo

E o poema de Carlos Drummond:

E agora José?

Quer fugir pra Minas,

Minas não há mais.

 

Só aquelas montanhas mais altas

Têm sol. O sol não entra nestes buracos.

Esta estrada parece-se com a estrada do Palmeiras

Em Suzano. Só que não tem nada a ver.

Montanhas limpas, lindas.

Algumas já bem ensolaradas.

 

Vou limpar aquele quintal.

E o Capitão Expedito?

Lindo como sempre, é claro.

Outro Deus.

Pazzianoto? Outro Deus

Que eu não aproveitei.

Que eu deixei passar.

Agora não quero mais deixar passar os Deuses,

Que se interessarem por mim.

Ainda bem que não te deixei passar, Jehová.

Não vi, não ouvi, não falei.

Não vejo, não ouço, não falo.

Pela filosofia do Candomblé.

 

Os Deuses tudo podem

E, em sendo você um Deus, Jehová,

Está explicado.

E quem sou eu pra contestá-lo?

O que eu acho, o que eu não acho,

Fica só comigo.

Posso sim, testemunhá-lo

Pelo bem pouco que vi

E pelo bem muito que senti.

Isso, só se eu for intimada.

Um cavaleiro entre montanhas!

Engraçado! Agora eu sou

Testemunha de Jehová!

Muriaé, Miraí.

E chuva. Muita chuva.

E não sol, como era previsto.

Uma chuva suave. Mas,

Densa. E constante.

 

                       Clotilde Sampaio

 

                      Minas Gerais, 21/04/85, domingo, 10:20 horas.

                    

                   Dia oficial da morte de Tancredo Neves, às 22:23horas. 

                                 Em São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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