É imoral eu ter que precisar morrer agora.
Dizem tanto as boas
Como as más línguas.
Pelo menos,
É esta
A última coisa imoral que eu quero.
Estou atenta:
Eu não posso perder esse trem
Que passa daqui a pouco
Com destino não sei pra onde.
Eu não posso perder as ideias
Que tão velozes quanto um skay-lab
Rodopiam em minha cabeça.
Não há mais tempo.
E eu não quero perder mais tempo.
E eu não quero perder mais nada.
Eu preciso rezar
Eu preciso correr
Eu preciso fugir.
De mim mesma, principalmente.
Eu preciso cometer uma loucura
Eu preciso cometer um adultério
Eu preciso cometer um suicídio.
Eu preciso me desintoxicar
Das leis, regras e normas.
Que legalmente fabricam culpados.
Eu preciso, se preciso, até matar.
Tirar toda a roupa
Plantar bananeira
E andar bem nua
Na Rua Direita
Deformada e flácida
Olhando as vitrines
Da Rua Direita e
José Bonifácio
Despudoradamente plácida
Em pleno meio dia
De uma sexta-feira.
Olhares compridos,
Susto, espanto, impacto!
Polícia. Cadeia?
É tudo que pode acontecer.
E daí?
Mas, tudo isso,
Ainda não é tudo.
Mas é tudo.
Porque agora,
Quando não há mais tempo,
Também não há nada
Do que eu não seja capaz.
Alertem do meu furor à felicidade
Pois,
Ainda que por meios
Anormais,
Imorais,
Ilegais,
Ilícitos,
Agora, nesta hora,
O que eu mais quero
E a única coisa que eu persigo
É ser feliz.
E ser feliz,
Mais do que uma coisa de louco
E mais do que qualquer coisa imoral
É um pecado mortal.
É um crime.
Clotilde Sampaio
Salvador, 18/12/83.
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