quinta-feira, 4 de abril de 2024

JUÍZO FINAL

É imoral eu ter que precisar morrer agora.

Dizem tanto as boas

Como as más línguas.

Pelo menos,

É esta

A última coisa imoral que eu quero.

 

Estou atenta:

Eu não posso perder esse trem

Que passa daqui a pouco

Com destino não sei pra onde.

Eu não posso perder as ideias

Que tão velozes quanto um skay-lab

Rodopiam em minha cabeça.

 

Não há mais tempo.

E eu não quero perder mais tempo.

E eu não quero perder mais nada.

Eu preciso rezar

Eu preciso correr

Eu preciso fugir.

De mim mesma, principalmente.

 

Eu preciso cometer uma loucura

Eu preciso cometer um adultério

Eu preciso cometer um suicídio.

Eu preciso me desintoxicar

Das leis, regras e normas.

Que legalmente fabricam culpados.

Eu preciso, se preciso, até matar.

 

Tirar toda a roupa

Plantar bananeira

E andar bem nua

Na Rua Direita

Deformada e flácida

Olhando as vitrines

Da Rua Direita e 

José Bonifácio

Despudoradamente plácida

Em pleno meio dia

De uma sexta-feira.

 

Olhares compridos,

Susto, espanto, impacto!

Polícia. Cadeia?

É tudo que pode acontecer.

E daí?

 

Mas, tudo isso,

Ainda não é tudo.

Mas é tudo.

Porque agora,

Quando não há mais tempo,

Também não há nada

Do que eu não seja capaz.

 

Alertem do meu furor à felicidade

Pois,

Ainda que por meios

Anormais,

Imorais,

Ilegais,

Ilícitos,

Agora, nesta hora,

O que eu mais quero

E a única coisa que eu persigo

É ser feliz.

 

E ser feliz,

Mais do que uma coisa de louco

E mais do que qualquer coisa imoral

É um pecado mortal.

É um crime.

 

                     Clotilde Sampaio

 

                                                Salvador, 18/12/83.

 

 

 

 

 

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