quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

22 de abril de 1983

Poá
22 de abril de 1983
sexta-feira, 13:15 horas.

Aoud,
Meu amor,

          Hoje eu não fui trabalhar. Emendamos o feriado de ontem. E ainda estou atônita, estupefata, sobre as nuvens. Passeando o meu mais íntimo eu, pelo infinito azul, azul, onde você me elevou ontem, e onde todas as emoções são mais quintessentes, deslumbrantes, magnânimas, supremas.
          Por isso, a esta hora, eu estou aqui em casa, no nosso quarto, sentada à minha máquina de escrever, te escrevendo.
          Agora, eu quase paro de escrever, e estou pensando... pensando... Adivinhe em quem!... E em quê!...
          Penso em você. E em tudo que você me fez ontem. Aliás, eu só penso em você. Em tudo que faço, em tudo que pretendo, só existe uma razão, um objetivo, um começo, um meio e um fim: VOCÊ.
          E é tão bom pensar em você. E até que é bom sentir saudades suas. E as de ontem então! Nossa!!! Como as outras, das primeiras vezes!!! Há quase vinte anos atrás, lembra-se? Eu ainda me lembro. E como!
          Ah! Meu querido, eu sinto tanto você! E sinto tanto a sua falta que, mal você sai de mim, e já estou com saudades.

                     Posso até enganar quem me vê
                     Mas, à mim, não iludo:
                     Eu sou nada, se estou sem você
                     Que é tão pouco, tão nada,
                     Mas, que é o meu tudo.

          Eu já lhe disse numa outra quadra uma vez, e torno a lhe repetir agora: “Eu te amo tanto, tanto, que até dói!”. E por te amar assim, tão doída, doída, e doloridamente, é que eu te preciso, é que eu te necessito muito, muito, muito, tanto, tanto, tanto. E na predestinação de tê-lo assim tão pouco, e com tanta demora, é bem possível até que, qualquer dia desses, você chegue aqui, e não me encontre mais... viva. Diante desta viabilidade, é bom que, antecipadamente, você já fique de sobreaviso: se isto acontecer, o que é bem possível, o que é bem provável, saiba que eu morri de tantas saudades suas.
          Mas vamos falar de ontem. (Dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, o meu herói predileto, (depois de você, é claro), o homem que morreu para nos libertar. E eu acho que, lá do seu túmulo, ou lá das esferas espirituais, ele deve ter se sentido realizado, e deve ter ficado bem feliz pelo nosso feito de ontem, e pelo modo fulgurante com que nós dois comemoramos o seu dia. Ele deve ter ficado contentíssimo, pois nunca, em nenhum desses cento e noventa e um (191) anos após sua morte, nunca o seu dia foi tão bem comemorado, como ontem. E nunca ele viu ninguém tão liberto, como nós, eu e você. E como foi bom! E quão deliciosa foi a nossa liberdade! Que achas?). Ontem, meu amor, você estava demais. Você estava o máximo. Desta vez, você veio com tudo, e me deu tudo. Valeu, meu querido. Valeu mesmo. E eu te vi e te senti tal e qual nos nossos bons e velhos tempos, entre 06 de maio a fins de dezembro de 1963, (daqui a alguns dias, precisamos comemorar os nossos vinte anos, não se esqueça), quando você só tinha trinta e seis aninhos. (E que, não sei por quais ingênuos, inexplicáveis e desnecessários escrúpulos ou complexos, com uma fisionomia bem grave e séria, você me dizia já ter trinta e quatro anos. Lembra-se?).
          De novo, agora, você esteve completo, perfeito. E mais que isto: esplêndido! Colossal! Estupendo! Magnífico! E me deixou feliz, feliz, feliz, feliz!!!...
          E transbordo tanto, de tanta alegria, que sinto-me também como se voltasse a ter só vinte e dois anos de idade outra vez.
          Mas, caso isso não lhe interesse, meu amor, desculpe-me , sim? Como eu tenho que lhe prestar contas do dinheiro que você me deu nos últimos dias, aproveitei para junto, desabafar-me um pouco, e prestar-lhe contas também de tudo que você me proporcionou usufruir nestas últimas horas. Foi só isso. Certo?
          E agora, do mais profundo da minha alma, dando-lhe aquele abraço e aquele beijo, eu digo-lhe:
          - Muito obrigada, meu querido. Mas, muito obrigada mesmo, por tudo, sim?
          
                                                                    Clô
           



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