Poá
22 de abril de 1983
sexta-feira, 13:15 horas.
Aoud,
Meu amor,
Hoje eu não fui trabalhar. Emendamos o
feriado de ontem. E ainda estou atônita, estupefata, sobre as nuvens. Passeando
o meu mais íntimo eu, pelo infinito azul, azul, onde você me elevou ontem, e
onde todas as emoções são mais quintessentes, deslumbrantes, magnânimas,
supremas.
Por isso, a
esta hora, eu estou aqui em casa, no nosso quarto, sentada à minha máquina de
escrever, te escrevendo.
Agora, eu
quase paro de escrever, e estou pensando... pensando... Adivinhe em quem!... E
em quê!...
Penso em
você. E em tudo que você me fez ontem. Aliás, eu só penso em você. Em tudo que
faço, em tudo que pretendo, só existe uma razão, um objetivo, um começo, um
meio e um fim: VOCÊ.
E é tão bom
pensar em você. E até que é bom sentir saudades suas. E as de ontem então!
Nossa!!! Como as outras, das primeiras vezes!!! Há quase vinte anos atrás,
lembra-se? Eu ainda me lembro. E como!
Ah! Meu
querido, eu sinto tanto você! E sinto tanto a sua falta que, mal você sai de
mim, e já estou com saudades.
Posso
até enganar quem me vê
Mas, à
mim, não iludo:
Eu sou
nada, se estou sem você
Que é
tão pouco, tão nada,
Mas,
que é o meu tudo.
Eu já lhe
disse numa outra quadra uma vez, e torno a lhe repetir agora: “Eu te amo tanto,
tanto, que até dói!”. E por te amar assim, tão doída, doída, e doloridamente, é
que eu te preciso, é que eu te necessito muito, muito, muito, tanto, tanto,
tanto. E na predestinação de tê-lo assim tão pouco, e com tanta demora, é bem
possível até que, qualquer dia desses, você chegue aqui, e não me encontre
mais... viva. Diante desta viabilidade, é bom que, antecipadamente, você já
fique de sobreaviso: se isto acontecer, o que é bem possível, o que é bem
provável, saiba que eu morri de tantas saudades suas.
Mas vamos
falar de ontem. (Dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, o meu herói predileto,
(depois de você, é claro), o homem que morreu para nos libertar. E eu acho que,
lá do seu túmulo, ou lá das esferas espirituais, ele deve ter se sentido
realizado, e deve ter ficado bem feliz pelo nosso feito de ontem, e pelo modo
fulgurante com que nós dois comemoramos o seu dia. Ele deve ter ficado
contentíssimo, pois nunca, em nenhum desses cento e noventa e um (191) anos
após sua morte, nunca o seu dia foi tão bem comemorado, como ontem. E nunca ele
viu ninguém tão liberto, como nós, eu e você. E como foi bom! E quão deliciosa
foi a nossa liberdade! Que achas?). Ontem, meu amor, você estava demais. Você
estava o máximo. Desta vez, você veio com tudo, e me deu tudo. Valeu, meu
querido. Valeu mesmo. E eu te vi e te senti tal e qual nos nossos bons e velhos
tempos, entre 06 de maio a fins de dezembro de 1963, (daqui a alguns dias,
precisamos comemorar os nossos vinte anos, não se esqueça), quando você só
tinha trinta e seis aninhos. (E que, não sei por quais ingênuos, inexplicáveis
e desnecessários escrúpulos ou complexos, com uma fisionomia bem grave e séria,
você me dizia já ter trinta e quatro anos. Lembra-se?).
De novo,
agora, você esteve completo, perfeito. E mais que isto: esplêndido! Colossal!
Estupendo! Magnífico! E me deixou feliz, feliz, feliz, feliz!!!...
E transbordo
tanto, de tanta alegria, que sinto-me também como se voltasse a ter só vinte e
dois anos de idade outra vez.
Mas, caso
isso não lhe interesse, meu amor, desculpe-me , sim? Como eu tenho que lhe
prestar contas do dinheiro que você me deu nos últimos dias, aproveitei para
junto, desabafar-me um pouco, e prestar-lhe contas também de tudo que você me
proporcionou usufruir nestas últimas horas. Foi só isso. Certo?
E agora, do
mais profundo da minha alma, dando-lhe aquele abraço e aquele beijo, eu
digo-lhe:
- Muito
obrigada, meu querido. Mas, muito obrigada mesmo, por tudo, sim?
Clô
Nenhum comentário:
Postar um comentário