A VISITA DE AOUD – 13/12/73 – quinta-feira
Aoud veio hoje. Deveriam ser mais ou menos sete e meia da noite, quando ele chegou. Eu estava na cozinha tomando o meu café com biscoitos de polvilho, com as crianças ao meu redor. A campainha tocou várias vezes, em seguida eu falei com as crianças:
- Quem será? Vai ver quem é, João.
Ele foi ver e veio me avisar aos cochichos, da porta do corredor da cozinha:
- É o papai Aoud.
Fiquei meio atrapalhada com a mesa toda em desarranjo e ordenei:
- Mande-o entrar.
Interrompi o meu café, guardei tudo, tirei a toalha da mesa, limpei o fogão, a pia, mandei a Jussara tomar banho, mandei a Vitória dar uma varrida na cozinha, pus na mesa outra toalha bem limpinha e fui atendê-lo na sala. Cheguei e ele já estava sentado no sofá. Disse-lhe um ligeiro boa noite e, ao ver o Ita passar na frente dele sem nem ligar e se encaminhar para fechar a porta, falei:
- Ita, você já conversou com o seu pai?
- Já, ele já falou comigo sim. – Disse Aoud, respondendo pelo Ita.
Nisto, o Ita veio com os cadernos e o boletim para mostrá-lo ao pai. E eu, ainda sem tomar assento no sofá, fiquei a observá-lo a olhar as notas do filho e a conversar com ele. E onde estava escrito APROVADO ele lia REPROVADO, só pra chatear com o menino. Reparei que o boletim estava todo manchado, falei assustada:
- Nossa, Ita, olha como você deixou o boletim todo borrado... Puxa, Ita, não tem vergonha de mostrar o boletim para o seu pai nesse estado? Que relaxamento! Ainda hoje você trouxe o boletim todo direitinho e agora já está assim? Não tem cuidado com nada, precisava molhar o boletim e estragá-lo assim? Quase não dá para se entender mais nada.
Aoud falou desculpando o filho:
- Isso acontece mesmo. Não faz mal. O que interessa é a nota e que ele passou de ano.
Sentei-me ao lado do Ita, olhando o boletim também. Ficamos alguns instantes calados. Eu me levantei e notei que ele, Aoud, havia pintado os cabelos de negro. Pensei: puxa, que luxo! E disse-lhe:
- Está querendo ficar mais novo? Pintou os cabelos?
- É, desse jeito é melhor. Não tenho tempo de cuidar e, assim, fica mais prático.
- Por que? É diferente?
- É sim. Daquele jeito precisava mais cuidados e eu não tinha tempo. Assim, de qualquer jeito que ficar, está bom.
- Eu gostava mais de você do outro jeito.
- Não é só você. Todo mundo fala isto.
- Você deu fim ao seu charme assim.
- Você acha é?
- Lógico. Do outro jeito, isto é, os cabelos grisalhos, te deixavam mais bacana.
Ele riu. Eu saí e vim ver como estava a Jussara. Ela já havia tomado banho e estava no meu quarto se vestindo.
- Puxa, Jussara, só veste esta roupa agora? Espera um pouco, que eu vou te dar outra. Abri o guarda-roupa, apanhei o vestido vermelho e branco, dei para ela substituir a calça marrom com a blusa marrom e amarela. O João veio e me falou:
- Mamãe, o papai está com pressa. Disse que já vai.
- Manda ele vir pra cá, pra cozinha.
Saí do quarto deixando a Jussara se vestindo e vim para a cozinha onde ele já estava. Mostrei-lhe uma cadeira.
- Sente-se, Aoud.
- Não. Eu estou com pressa. Saí da loja e nem tomei banho. Vim direto pra cá. Olhe como é que eu tô.
- Já fechou a loja?
- Já.
- Então, pra que tanta pressa?
- É que eu nem passei em casa. Eu tenho horário pra chegar. A turma lá me espera.
- É Assim? Você só vem correndo. E eu precisava tanto falar com você. Por que você não vem com mais tempo?
- Não dá. E o Seu José? Tem vindo?
- Está na Transamazônica. No Natal agora ele deve vir.
- E a Matilde?
- Também foi pra lá. O Orlando a levou para lá agora.
- E o que é que ela diz de lá?
- Ela não gosta de lá não. Também, perdeu o filho lá.
- É, ela tem razão. Mas a gente, quando tem que morrer, morre em qualquer lugar. A gente não tem hora certa pra morrer?
- É e, pelo que ela fala, o menino estava forte, saudável e, de um dia para o outro, morreu. Não sei se foi o calor. Mas não deve ser.
- Mas foi desidratação?
- Não, foi bronco-pneumonia.
Ah! Então não foi o calor. – E levantando-se – olha, eu já vou. Aqui está o dinheiro.
- Só isso? O que é que eu vou fazer só com quatrocentos cruzeiros?
Nisto, a Jussara aparece.
- Oi, pai, benção, como vai?
E ele abraçando-a:
- Oi, Ju, como vai, tudo bem?
- Aoud, dá pra você trazer algum dinheiro para o Natal das crianças? – interrompi-os.
- Eu vou ver. Esse ano você me desmontou: três vezes doença.
- Não foram três vezes, foram duas. No fim do ano passado e no meio deste.
- Foram três. A Jussara no fim do ano passado, o Ita no começo e agora no meio.
- Você viu os óculos da Jussara?
- Vi. Por que? O que é que ela tem?
- Estrabismo.
Encaminhou-se para a sala rindo:
- Também, esses seus filhos, só vivem doentes...
- Só meus, não. Seus também.
- Se fossem só meus... eles seriam saudáveis.
- Só seus como? Tem algum jeito de você ter filhos só seus? Me explique.
- A Ciência ainda não descobriu. Mas vai descobrir.
- Ah, sim. Mas nem que você mesmo os tiver.
Ele abriu a porta:
- Tchau, já vou. E saiu. A Jussara gritou:
- Pai, espera um pouco.
- O que é? Fala.
. . . . . . . . .
Clotilde Sampaio
Clotilde Sampaio
Rua Teodoro Lorencini, 425, Jardim Maringá, Vila Matilde, SP, capital.
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