sexta-feira, 3 de abril de 2020

13 12 73 - A visita de AOUD

A VISITA DE AOUD – 13/12/73 – quinta-feira

      Aoud veio hoje. Deveriam ser mais ou menos sete e meia da noite, quando ele chegou. Eu estava na cozinha tomando o meu café com biscoitos de polvilho, com as crianças ao meu redor. A campainha tocou várias vezes, em seguida eu falei com as crianças:
      - Quem será? Vai ver quem é, João.
      Ele foi ver e veio me avisar aos cochichos, da porta do corredor da cozinha:
      - É o papai Aoud.
      Fiquei meio atrapalhada com a mesa toda em desarranjo e ordenei:
      - Mande-o entrar.
      Interrompi o meu café, guardei tudo, tirei a toalha da mesa, limpei o fogão, a pia, mandei a Jussara tomar banho, mandei a Vitória dar uma varrida na cozinha, pus na mesa outra toalha bem limpinha e fui atendê-lo na sala. Cheguei e ele já estava sentado no sofá. Disse-lhe um ligeiro boa noite e, ao ver o Ita passar na frente dele sem nem ligar e se encaminhar para fechar a porta, falei:
      - Ita, você já conversou com o seu pai?
      - Já, ele já falou comigo sim. – Disse Aoud, respondendo pelo Ita.
      Nisto, o Ita veio com os cadernos e o boletim para mostrá-lo ao pai. E eu, ainda sem tomar assento no sofá, fiquei a observá-lo a olhar as notas do filho e a conversar com ele. E onde estava escrito APROVADO ele lia REPROVADO, só pra chatear com o menino. Reparei que o boletim estava todo manchado, falei assustada:
      - Nossa, Ita, olha como você deixou o boletim todo borrado... Puxa, Ita, não tem vergonha de mostrar o boletim para o seu pai nesse estado? Que relaxamento! Ainda hoje você trouxe o boletim todo direitinho e agora já está assim? Não tem cuidado com nada, precisava molhar o boletim e estragá-lo assim? Quase não dá para se entender mais nada.
      Aoud falou desculpando o filho:
      - Isso acontece mesmo. Não faz mal. O que interessa é a nota e que ele passou de ano.
      Sentei-me ao lado do Ita, olhando o boletim também. Ficamos alguns instantes calados. Eu me levantei e notei que ele, Aoud, havia pintado os cabelos de negro. Pensei: puxa, que luxo! E disse-lhe:
      - Está querendo ficar mais novo? Pintou os cabelos?
      - É, desse jeito é melhor. Não tenho tempo de cuidar e, assim, fica mais prático.
      - Por que? É diferente?
      - É sim. Daquele jeito precisava mais cuidados e eu não tinha tempo. Assim, de qualquer jeito que ficar, está bom. 
      - Eu gostava mais de você do outro jeito.
      - Não é só você. Todo mundo fala isto.
      - Você deu fim ao seu charme assim.
      - Você acha é?
      - Lógico. Do outro jeito, isto é, os cabelos grisalhos, te deixavam mais bacana.
      Ele riu. Eu saí e vim ver como estava a Jussara. Ela já havia tomado banho e estava no meu quarto se vestindo.
      - Puxa, Jussara, só veste esta roupa agora? Espera um pouco, que eu vou te dar outra. Abri o guarda-roupa, apanhei o vestido vermelho e branco, dei para ela substituir a calça marrom com a blusa marrom e amarela. O João veio e me falou:
      - Mamãe, o papai está com pressa. Disse que já vai.
      - Manda ele vir pra cá, pra cozinha.
      Saí do quarto deixando a Jussara se vestindo e vim para a cozinha onde ele já estava. Mostrei-lhe uma cadeira.
      - Sente-se, Aoud.
      - Não. Eu estou com pressa. Saí da loja e nem tomei banho. Vim direto pra cá. Olhe como é que eu tô.
      - Já fechou a loja?
      - Já.
      - Então, pra que tanta pressa?
      - É que eu nem passei em casa. Eu tenho horário pra chegar. A turma lá me espera.
      - É Assim? Você só vem correndo. E eu precisava tanto falar com você. Por que você não vem com mais tempo?
      - Não dá. E o Seu José? Tem vindo?
      - Está na Transamazônica. No Natal agora ele deve vir.
      - E a Matilde?
      - Também foi pra lá. O Orlando a levou para lá agora.
      - E o que é que ela diz de lá?
      - Ela não gosta de lá não. Também, perdeu o filho lá.
      - É, ela tem razão. Mas a gente, quando tem que morrer, morre em qualquer lugar. A gente não tem hora certa pra morrer? 
      - É e, pelo que ela fala, o menino estava forte, saudável e, de um dia para o outro, morreu. Não sei se foi o calor. Mas não deve ser.
      - Mas foi desidratação?
      - Não, foi bronco-pneumonia.
      Ah! Então não foi o calor. – E levantando-se – olha, eu já vou. Aqui está o dinheiro.
      - Só isso? O que é que eu vou fazer só com quatrocentos cruzeiros?
      Nisto, a Jussara aparece.
      - Oi, pai, benção, como vai?
      E ele abraçando-a:
      - Oi, Ju, como vai, tudo bem?
      - Aoud, dá pra você trazer algum dinheiro para o Natal das crianças? – interrompi-os.
      - Eu vou ver. Esse ano você me desmontou: três vezes doença.
      - Não foram três vezes, foram duas. No fim do ano passado e no meio deste.
      - Foram três. A Jussara no fim do ano passado, o Ita no começo e agora no meio.
      - Você viu os óculos da Jussara?
      - Vi. Por que? O que é que ela tem?
      - Estrabismo.
      Encaminhou-se para a sala rindo:
      - Também, esses seus filhos, só vivem doentes...
      - Só meus, não. Seus também.
      - Se fossem só meus... eles seriam saudáveis.
      - Só seus como? Tem algum jeito de você ter filhos só seus? Me explique.
      - A Ciência ainda não descobriu. Mas vai descobrir.
      - Ah, sim. Mas nem que você mesmo os tiver.
      Ele abriu a porta:
      - Tchau, já vou. E saiu. A Jussara gritou:
      - Pai, espera um pouco.
      - O que é? Fala.
     
          . . . . . . . . .
                                                    Clotilde Sampaio

                                       Rua Teodoro Lorencini, 425, Jardim Maringá, Vila Matilde, SP, capital.



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