Aoud,
Nossos relógios estão parados. Mas já deve ser quase ou mais de meia-noite. Deve ser já uma da manhã e sábado. Estou calculando ser isso porque terminei de assistir à novela “O GRITO” já quase às onze e ainda fui corrigir uma carta que escrevi e vou mandar pra você. Desde que o Davi veio aqui, na terça-feira à tarde, perguntando, para e em lugar do Clóvis, se eu ia ou não ia arranjar o carro e, que se eu não fosse, ele (o Clóvis) iria arranjar e começar a trabalhar de motorista em uma transportadora, é que eu me propus escrever-lhe esta carta. Deveria tê-la entregado a você ontem, no máximo. Mas só hoje é que fui terminá-la e ainda só à tarde. Nem hoje, pelo que vejo, não vai ser possível isto, visto que não tomei banho, nem lavei a grudenta cabeça. Portanto, só na semana que vem você tomará conhecimento dela. Está bem?
Não sei o que está acontecendo com nossa filhinha, Aoud. Ontem à noite, todo o corpinho se encheu de uns calombos vermelhos que, mal começaram, se alastraram rapidamente e não paravam de coçar, e a incomodavam muito. Passei-lhe a pomada Furacim e começaram a desaparecer em ritmo veloz tal qual como vieram. Mas, mesmo assim, a coceira não a deixou dormir sossegada. Hoje de manhã, os calombos e a coceira haviam desaparecido só ficando, de resto, umas pequenas bolhas. Ela ficou e eu também fiquei bastante intrigada com o inesperado aparecimento e desaparecimento daquilo. Seria varicela? Alergia? Ou alguma outra doença maior? Para chatear com ela, falei-lhe que era castigo do Gohonzon. Porque ela mentia dizendo que tinha feito o Gongyo sem fazer e não rezava direito.
Pensei que o mal já tinha ido embora pois a pele dela estava já toda limpa. Mas, assim que se tornou noite ontem, começou tudo de novo. Mandei e ajudei-a a passar a mesma pomada nos lugares em que estava reiniciando e creio que hoje não foi tanto como ontem. Porque logo ela pegou no sono e continua dormindo bem.
Ontem à tarde, aqui no Monte Cristo, choveu muito. Foi uma chuva de lascar. E entrou, não sei por onde, um monte de chuva no quarto. A beira da cama até parece um rio. Estou preocupada pois, se o rio Guaió já estava cheio ontem, quando o Ita foi tomar banho, e antes da chuva (pois foi ele quem chegou todo molhado e dizendo “Mãe, o rio está cheio. Tão cheio que deu pra eu dar uns mergulhos bem gostosos!”. Já pensou agora, depois que choveu pra valer? É bem capaz do rio transbordar e vir enchente outra vez.
Aoud, eu gostaria de poder lhe falar de mais coisas, principalmente de mim, para que você pudesse me conhecer melhor. Mas estou com tanto sono! Você me desculpe por hoje, mas já vou dormir que o sono já está rondando e já é bem tarde. Beijos e até amanhã.
DE NOVO: A Akiko veio avisar que domingo terá o Tikusá. Não sei com que cara vou aparecer lá. Pois acho que o Sr. Francisco, do Tiku Manchester, já fez a minha transferência. Deveria ir rezar lá no Seu Laudelino mas choveu e estava trovejando muito. E o pior, é que eu também estava sem vontade, e não fui.
Olhe, hoje, ou melhor, ontem, eu passei o dia todo muito inspirada e pensei muito em você. Lembrei-me de muitas coisas passadas entre nós, tanto de bem, como de mal. Às vezes, senti vontade de me revoltar e de me vingar. Outras, de lhe decantar em prosa, versos e canções, como fazia outrora. Mas nada disso fiz. Só lhe escrevi uma carta e estou a lhe falar nestas linhas. Que tal? Hoje, como ontem, nada rezei pra você. Aliás, nem ontem, nem hoje, eu não rezei nada pra ninguém. O que não é bom. Mas minha fé não está diminuída não. A chuva agora ficou mais forte. Até amanhã.
Clô
Jardim Monte Cristo, Suzano, 13-12-75.
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