quinta-feira, 9 de abril de 2020

21 08 84

21/08/1984 - terça-feira – 14:10 horas – POÁ, SP


“Vivo sou sua parte. Morto sou tua morte!” 
                                 MARTINHO LUTERO

“Importa menos ser feliz do que ser consciente.”
                                   ALBERT CAMUS

“Penso, logo existo.”                        “Existo, logo penso.”
               DESCARTES                                              MARX

“Os cavalos não existem. O que existe é a imagem que temos deles.”
                                                                                               PLATÃO



Estou só. Mais só do que nunca estive. Em todos os sentidos. Não tenho mais diálogo com ninguém. Nem com a Jussara. Nem com o Ita. Nem com a Vitória. Nem com o Aoud. Nem mesmo com o Gohonzon tenho dialogado nestes dias. Sinto que estou toda fora de ritmo. Nem eu entendo ninguém. Nem ninguém me entende. Por isso estou conversando agora com você, folhinha mixuruca de papel de pão que, se não fosse eu achar que você me serviria ainda de algum proveito, além de embalar o pão, já teria sido amassada, empelotada e posta no lixo. E, a essa hora, você já deveria estar no lixo geral para onde vão todos os lixos e, quem sabe, até queimada e virado cinza e pó. Ninguém aqui, agora, a essa hora, (17:30 de terça-feira 21/08/84), neste apartamento. Vitória trabalhando na Corning e de lá vai direto para a Faculdade. Ita fazendo o estágio na Papelão, de onde deveria ir direto para a Faculdade também. Jussara foi em “15 de novembro” fazer trabalho escolar em casa das amigas, que conhecem Aoud e já sabem que ela é filha dele. João e Ari foram em Mogi das Cruzes marcar a passagem de volta à Bahia para a próxima sexta-feira, dia 24/08/84. Não queria que eles já se fossem, mas Ari não está gostando nada do frio daqui. Abrem a porta, está chegando gente. É Ari e João. Vêm cheios de pacotes, estão alegres, me beijam e me abraçam eufóricos me perguntando se estou bem. Digo-lhes que estou bem sim. A despeito de não estar. Pois estou sentada no sofá, quase que imóvel, só escrevendo estas besteiras que acabei de escrever anteriormente à chegada deles, me sentindo muito só e chateada comigo mesma por ser tão besta. – Está bem mesmo? Pergunta-me Ari. Estou sim, por que? João me entrega um envelope de análises clínicas com o nome de Ari. - Pra senhora, diz. Fico sem entender e pergunto: O que é isso? – Um netinho pra senhora. A senhora já é vovó. – Verdade? Fico sem acreditar. Abro o envelope e leio: Ari Araújo de Santana, exame imunológico para o teste de gravidez – “Positivo”. - Puxa, que alegria! É o melhor presente que vocês poderiam me dar. E me abraço de novo com Ari. Parabéns, Ari, muito obrigada. Ari mamãe, João papai, eu vovó e a turminha toda, aqui agora, titios. Eles vão ficar todos contentes quando souberem. Que bacana. Eu me sinto outra pessoa. É como se eu estivesse mais nova, sinto a emoção de estar grávida outra vez. Era a coisa que eu mais queria: ser vovó. O Ita chegou e entrou direto para o quarto do Gohonzon. Demora um pouco, João entra atrás dele. E estão conversando. Venho também para os fundos com a esperança de dar-lhe a boa nova. Mas João já deu. O Ita está sentado no quarto do Gohonzon, já tomou banho, já se vestiu e está calçando as meias. Ao me ver, diz: “Aí, vovó, está contente agora? Seu neto já está vindo aí. Não era isso que a senhora queria?” – E você agora é tio, digo. Ari também chega e o Ita fala: Parabéns, Ari. Agora é mamãe, ainda bem. Porque eu já estava até desconfiado do meu irmão. E com medo que comigo também viesse a ser assim. – Que o João não era de nada? Não, não é isso. Pensei que ele não pudesse ter filhos e que comigo também acontecesse igual. Agora já fico despreocupado...

                                                       Clotilde Sampaio

                                             Rua Vinte e Seis de Março, Edifício Bonini, Poá, SP.


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