XXXIX – 24/02/86 – segunda-feira
1) Assim como estou treinando escrever sobre o presente e estou quase boa, devo também treinar escrever sobre o passado, só pra conseguir me soltar mais e ser mais natural. E é o que eu vou fazer daqui por diante, descrevendo sempre qualquer coisa que já passou.
2) CÂNTICO NEGRO – de José Régio (* a autora reescreve o poema todo na íntegra).
3) Covardia nos homens que se dizem Homens
Medo nas mulheres que se dizem Mulheres.
4) Quer queira ou não queira
Terei que arrastar a vida
Até onde for preciso.
5) Com gesto indeciso
Quer queira ou não queira
Terei que puxar a fieira
Até onde for preciso.
Com choro ou com riso
Relax ou canseira.
6) Uma vontade de morrer, meu Deus, uma vontade de morrer... Mas morrerei sem nada ter feito, não tem graça. Pois o valor da morte só consiste em se ter feito em vida alguma coisa de eterno.
7) Estou cansada de quê? Não sei do que estou cansada.
8) Se eu não consigo escrever minha estória é porque ela não quer ser escrita.
9) Ai Namyohorenguekyo, Namyohorenguekyo, Namyohorenguekyo. Que fiz hoje do dia? NADA. Mas poderia ter feito. Dar um jeito no direito do Prefeito. Lilinha dos meus pecados. Lilinha da minha cruz. Lilinha dos meus amores. Lilinha da minha vida. Lilinha, sempre Lilinha. Contida. Comprometida. Só sei que esta menininha é hoje quem me dá vida. Só sei que esta garotinha, bonitinha, engraçadinha, querida, muito querida, é quem manda em minha vida.
10) O amigo do Ita, Alfredo, telefonou pedindo-me que eu o avisasse de que ele, Alfredo, extraviou o esquema deixado pelo Ita para que ele, Alfredo, assinasse a presença nas aulas da Faculdade para o Ita e que, dessa forma, o Ita está não só perdendo aulas como também perdendo presença nas aulas e que, por este motivo, poderá vir a perder o semestre.
11) Manipanso: fetiche africano. Será que entrei numa fria? Pois tudo que sinto, penso e falo dá poesia.
12) Cabeça tensa, prensou a prensa a crer na crença.
13) Não há nada mais chato que uma mulher casada. Não há nada mais chato que ser uma mulher casada.
14) Estou me acordando pela 2ª vez esta noite. A primeira foi à meia-noite. Este está sendo agora exatas duas horas. E em nenhuma delas despertou-me o desejo de escrever. O ouvido direito a doer, a coçar e a cheirar podre agora está mais dócil. Já posso varar-lhe a ponte do dedo apontador e ele não xingar. Estou com muito sono. Deixa eu dormir mais. A luz permanecerá acesa, por via das dúvidas.
15) Várias vezes dormi, várias vezes acordei, várias vezes sonhei, e sempre os mesmos sonhos do mesmo teor onde as pessoas com quem eu me relacionava não tinham hábitos salutares. Pareciam mas não eram. E eu, que era, estando junto com eles, não parecia ser no fim. Ficávamos todos sendo a mesma coisa. Eles que eram e eu que não era. Que sonhos sufocantes, asfixiantes, complicantes. Ser puta... mas nem em sonho eu quero ser. Esta noite, a noite inteira, eu sonhando que eu era. Que coisa horrível. Perder o respeito dos outros e, o pior, perder o nosso próprio respeito. Não. Nunca. Nem quero que nenhuma das minhas filhas caiam nessa. Não quero que elas se decomponham. A pior coisa que existe é a decomposição de um ser humano vivo. Que pesadelo sem terror, esta noite. Em parte, ou, parecendo ser, sempre ouvindo ofensas, sempre passando por lugares perigosos, ou seja, por cima de trilhos estreitos que eram o cimo de paredes bem altas do chão que, se caísse dali nada sobraria e que eu tinha que passar porque era ali o único lugar existente pra passar. Às vezes as minhas poucas forças não davam e quase ia eu lá embaixo tudo. E sempre ouvindo pilhérias a meu respeito, sempre ouvindo ofensas diretas e indiretas. Sempre, só lutando pra salvar pra salvar a minha vida, e pra salvar a minha reputação. Ou melhor, arriscando a minha vida e a minha reputação. Que situação dolorosa! Que coisa horrível ser mulher. Deu pra mim entender o quanto é triste a vida de uma prostituta mulher. O quanto uma mulher é estigmatizada só pelo fato de ser mulher. Já começa pela família. Pelo pai, pela mãe, pelos irmãos, e vai indo por todos, pela vida afora. Uma mulher, só pelo fato dela ser sozinha, já não vale nada. Ainda que ela não queira ser, mas pela sociedade, ela é. Não tem jeito. Coisa horrível. Vale a pena viver assim? “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Fernando Pessoa.
Clô
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