1) Ontem, quando passamos por Itaquera, eu me senti tão mal. Por isso, só por isso, é que eu acho que, se eu fosse para Bahia, sararia de vez dessa depressão. Porque lá, eu fico bem distante das coisas ruins que marcaram a minha vida no passado e das coisas ruins que ainda estão me marcando.
2) Minha mãe. Coitada. Dá uma pena tão grande vê-la no estado em que está e não poder fazer nada por ela.
3) Eu acredito no Gohonzon e nos ensinamentos de Nitiren Daishonin. O que eu duvido é das intenções das pessoas que se dizem representantes legítimas do que ele pregou e quis que pregássemos. Vejo falar tanto em dinheiro, em ajuda monetária que acabo crendo que o interesse maior de tais dirigentes é a ganância e os interesses pessoais através da exploração do poder de uma filosofia tão verdadeira e limpa. Por esse motivo eu gostaria de separar as coisas que eu creio das que não creio e fundar uma espécie de nova religião. Dizer direitinho tudo o que sei e acredito às pessoas sofredoras, mas sem interesse monetário ou pessoal de espécie alguma a não ser a de divulgar a filosofia de Buda às pessoas sofredoras, a fim de servir ao Buda, fazendo novas pessoas felizes, e sendo feliz também. Eu sei que tenho uma missão a cumprir, por isso estou aqui ainda, apesar dos pesares, me debatendo comigo mesma, procurando encontrar uma solução para os meus conflitos emocionais e mentais. Creio que só assim me reencontrarei de novo. Por isso preciso por mãos à obra o quanto antes na realização do meu ideal, do meu objetivo de fazer valer as coisas que eu acredito certas e puras, para o bem comum. Fora disso, é melhor que eu nem viva mais, ou melhor, acho que já estou mais morta do que viva.
4) Não sei se fiz bem, se fiz mal, ao rasgar a carteirinha de doação de olhos da Jussara. Vejo falar tanta coisa, e tenho medo que eles arranquem os nossos órgãos antes mesmo de estarmos realmente mortos, só para terem com que fazerem as suas “experiências” e não com o verdadeiro intuito de fazer com que alguém enxergue ou continue vivendo. Se é tão importante para os médicos essas doações, por que não se vê médicos ou familiares de médicos doarem órgãos? Só se vê doadores entre as gentes do povo, as pessoas mais simples e mais pobres. Ontem mesmo houve mais uma experiência neste sentido com o coração de um jovem da minha cidade, Ourinhos, que morreu na sexta-feira em um desastre de motocicleta, cuja mãe, que eu inclusive acabei de vê-la na televisão, dizendo que todos deixassem de ser egoístas, doou do próprio filho morto os olhos, os rins, (fígado) e o coração. Coragem e desprendimento que eu admiro mas que, pelo menos até o momento, não tenho capacidade de seguir. O referido coração viajou ontem, de avião, até São Paulo assim que foi constatada a morte cerebral do jovem. Viajou 400 quilômetros e foi colocado ontem mesmo no peito de um senhor de 42 anos, pedreiro, no Instituto do Coração, mais uma vez, ao mesmo tempo em que louvo, lamento também a atitude da senhora mãe do doador.
5) É involuntária esta minha apatia pela vida. Mas, tantas razões contribuem para que ela exista que, embora tente, não consigo me livrar dela. Os problemas com Aoud, a situação da minha mãe, os traumas de toda a minha vida passada com a minha família, o que minha vida poderia ter sido e que não foi por causa de tudo isso. As decepções que tenho tido com todas as instituições e pessoas em quem acreditava. O problema de Lilinha. Eu gostaria tanto de sair desta, mas não tenho encontrado a força necessária para isso. Às vezes, por momentos, eu até consigo sair. É quando chego a fazer planos. Mas é tão efêmero. Preciso arranjar, com urgência, alguém para compartilhar da minha vida, só para ver se este fantasma some.
6) Uma coisinha tão de nada me atinge tanto... Não sei porquê. Agora mesmo, só porque eu me lembrei de toda a negligência do Aoud, com relação ao nascimento do Ita, há uma trituração, uma corrosão no meu interior. Ah! Gohonzon! Me ajude, me ajude, me ajude. Eu não posso me lembrar dessas coisas. Preciso ir pra Bahia. Mas nem isso eu posso fazer enquanto não terminar a ação com o Aoud.
7) Lilinha, até bem pouco tempo, pronunciava algumas palavras como “dia, deda” e outras derivadas do D ou até do T ou N. Agora só grita. E às vezes sons estranhos, esquisitos, que não me soam nem me fazem bem ouvi-la. Tenho a impressão de que ela regrediu de novo. Não sei se com o excesso de Corintol e Gardenal, se por algum trauma causado por minha impaciência de ultimamente para com ela. Gostaria tanto que ela fosse, pelo menos, quase normal, para que a gente pudesse deixa-la desamarrada, bem vestidinha, bem bonitinha. E para que ela entendesse a gente, sentisse todas as principais emoções e se comunicasse. A vida “taí” e eu “tou” aqui completamente de mal com a vida.
8) Trepidam neste momento todo o meu corpo, o meu coração, e a minha mente, abalados por não sei o quê indefinível e invisível.
9) Gostoso trair esses homens. Esses homens têm mais é que ser traídos. (duas ou três frases rabiscadas por cima).
10) Eu queria ser forte, resistente, inflexível e, no entanto, sou frágil, sensível, imprestável.
11) Fatigada. Impaciente. Sufocada. Eis como eu me encontro ultimamente. Não posso mais esperar. Não há mais tempo. Tudo terá que ser agora. Ou nunca mais.
12) Loreninha de vovó deve estar linda. Cinco “mesinhos” já. Deve estar uma sapequinha de primeira. Uma vontade de vê-la. De matar saudades com ela pulando e gargalhando no meu colo.
Clô
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