1) Que bom! Está orgulhosa de si. Está conseguindo ultimamente
acordar-se sempre por volta das seis horas, mesmo tendo ido se deitar à
meia-noite, como ontem. Hoje acordou-se às cinco e meia, que ótimo. E também
porque está conseguindo deitar-se cedo. Pois, mal termina a novela das oito, já
se sente cansada de tudo, vem para o quarto, começa a ler “Os Sertões” e, em
seguida, já dorme. E a noite inteira, como a noite de segunda para terça. Assim
está esplêndido. E assim que quer mesmo. Está conseguindo assistir todo dia o Telecurso
que começa às seis e meia, ao mesmo tempo que adianta todo o serviço do dia.
2) Está tão gorda, tão balofa, que o espelho hoje é seu pior
inimigo.
3) Não tem mais vontade de ir pra Bahia, não tem mais vontade
de sair daqui. Ao mesmo tempo em que tem todas as vontades de ir pra Bahia,
todas as vontades de sair daqui. Está tão subdividida, tão fragmentada, que nem
sabe se ainda consegue conservar consigo, ou se já estão espalhadas, perdidas
por aí, suas partes mais essenciais.
4) Gosta. Mas tem medo de escrever. Porque todas as coisas de
que gosta, sempre lhe foram proibidas. Assim como até os filhos que tem lhe
quiseram proibir, mesmo se propondo a correr sozinha todos os riscos por eles.
Assim como conseguiram lhe proibir muitos outros filhos que ela gostaria de ter
tido.
5) Não lhe falem em matemática.
6) Estou louca mas não estou ainda de tudo ilúcida. Ainda
consigo conservar em mim a metade da metade da metade de meio termo tanto de
uma como de outra coisa. E nestes meus resquícios de lucidez consigo lembrar
que as tarefas de alugar casa, antigamente, eram atributos de homem.
Clô
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