02- 08-80 – sábado –
Suzano
Horas de brigas. Só brigas. Quantas e quantas vezes acordava
alta noite com o barulhão dos dois quebrando o pau. Era toda sorte de
palavrões, xingamentos, ameaças, o diabo a quatro, berrados ao mais alto
possível.
- Sua ordinária! Eu te mato, diabo! Mulher como você só
presta mesmo é pra apanhar.
E avançava com tapas e empurrões para o lado dela, que
também xingava, rezava e chorava ao mesmo tempo.
- Ordinário é você, seu cachorro. Ó meu Deus do céu, que
vida mais triste é essa minha. Dá um jeito na minha vida, meu Deus. Ou então me
mate logo de uma vez. Crê em Deus Padre todo poderoso...
E continuava rezando entre lágrimas desesperadas, todas as
orações que sabia. Era o Crê em Deus Padre, era o Padre Nosso e era a Ave
Maria. E era pancada dali e era pancada de lá. Eu acordava assustada e
sobressaltada com tanto estalar de tapas.
- O que é isso, pai? O que é isso, mãe?
- É o seu pai que está querendo me matar.
- É agora mesmo que eu te mato, peste. Quer ver? E o
festival de agarrões e tapas prosseguia indo cada vez mais violento. E ela
estava apanhando e perdendo. E ele era mesmo o mais forte e ia mesmo matá-la.
- Pai, não! Não mate a mãe não, pai!
Gritava aflita, vendo a morte na minha frente.
- Não, não mate a mãe. Vai dormir, deixa a mãe dormir por
favor, pai. Pelo amor de Deus!
E caia num convulsivo e desesperado pranto.
Como por milagre, ele parava de agredi-la e, xingando os
piores impropérios, jogava um lençol no chão, à beira da minha cama e se
deitava ali.
03- 08- 80 – domingo
Eu estava com cinco anos de idade, nesta época. Pois já
fazia mais ou menos um ano que tínhamos vindo do interior. E éramos em três
irmãos apenas: meu irmãozinho Benedito tinha três anos, e minha irmã Matilde
era recém-nascida. E ali, na Olaria do turco, ou seja, do Salim Maluf, era o
quarto lugar que morávamos, depois de termos chegado em São Paulo. Esta Olaria
estava situada na estrada de Itaquera, à margem direita de quem vinha de
Itaquera para o Carrão. Era já a segunda casa em que habitávamos, após ter
chegado ali na Olaria. A casa perto de um antigo estábulo de vacas foi onde
nasceu minha irmã. E foi onde
conhecemos Dona Justina, a senhora que morava na casa grande, e que não tinha
filhas, e que gostava muito de mim! Ela e minha mãe discutiaram um dia, porque
minha mãe espalhou para todo mundo que ela vendia ovos escondida do marido dela.
Mas mesmo assim, de mal com minha mãe, ela me chamava às escondidas, na casa
dela, para me dar retalhinhos de pano, e me dar aveia com suco de laranja, ou geléia
de mocotó. E me falava: “agora você vai, filha, e não diga que eu te chamei
aqui porque a sua mãe não vai gostar, e é capaz de te dar uma surra se souber
que você vem aqui em casa.
Clô
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