Hoje
é o aniversário da Vitória. DEZESSETE ANINHOS!!! Num sábado, há dezessete anos
atrás, eram mais ou menos seis e meia. Eu, que já havia começado a sentir as
tais dores, pedi à minha mãe que fosse avisar Dona Rosa, nossa velha e boa
vizinha, que já estava chegando a hora e se ela poderia, conforme prometera, ir
comigo até a maternidade. Ela, coitada, mais que depressa arrumou-se muito
solícita, veio até em casa, pegou a minha sacola de roupas, ajudou-me a ir até
a rua, parou um táxi, e rumamos, na maior rapidez, para a Maternidade Leonor Mendes
de Barros. Mal cheguei e já me subiram. Dona Rosa ficou lá embaixo esperando. Examinaram-me,
fizeram a minha ficha, deram as minhas roupas e a ficha para Dona Rosa levar e,
dali a meia hora, ou seja, às nove horas, nascia uma menininha de rosto em forma
de coração, bem bochechuda e cabeluda. Tinha (que grande coincidência) o rosto
igualzinho ao do pai morto há três meses atrás. Aliás, para ser uma fiel
miniatura do pai, só faltava ser homem. Porque o resto era tudo igual. Em meio
a todas as espécies de tristezas que me rodeavam, como eu fiquei feliz! Só
faltou, para completar minha felicidade, o Manoel estar vivo e estar ali
comigo. Como ele seria feliz vendo pela primeira vez a filha que tanto desejava
ter comigo. E como seríamos felizes nós, os quatro, todos juntos! Por que foi
acontecer toda essa tragédia tão feia assim conosco? E chorei, chorei, chorei
de tristeza por ele, e de alegria pela criança que ele me deixou em lugar dele
como companhia. Bem, o tempo foi passando e, graças a Deus, a Vitória cresceu
sempre forte e com saúde e, até os três anos de idade, de tanto que ela
parecia-se com o pai, se fosse um menino, seria bonito. Porque ele era um tipo
de homem que reunia as duas faces que um homem precisa ter, isto é, era feio e
bonito ao mesmo tempo. De frente, e de um dos perfis, ele era um tanto
grosseiro e até grotesco. Mas do outro perfil era lindo, lindo. E além disso,
ele era muito alegre e descontraído, além de inteligente e caprichoso. Tinha os
traços do nariz, do queixo e da boca perfeitos, e os mais lindos olhos verdes
que eu já vi em toda minha vida. A Vitória puxou tudo dele, isto é, as orelhas
de abano dele, o rosto bochechudo e em forma de coração dele, os cabelos bem
pretos, bem brilhantes, de um liso ondeado lindo dele, as sobrancelhas muito
espessas dele, e também peluda, peluda como ele. Os olhos bem vivos e espertos
como os dele mas sem ter o mesmo formato e a mesma cor. E a coisa que eu queria
que ela puxasse, a linda cor verde dos olhos do pai. As formas do nariz, da
boca e do queixo também não condiziam com as do pai. Nem comigo, não sei por
que. Pois de mim ela só havia puxado a cor dos olhos, castanhos. Mas, em
compensação, até os três anos, no geral, ela era toda o Manoel. E de tanto que
se parecia com o pai dela, para uma menina, tinha um aspecto um tanto
masculinizado e grosseiro. E eu que havia sonhado de ter uma filha muito
bonita, apesar de gostar demais dela, achava-a tão feia a ponto de chegar a
dizer: coitadinha da minha filha, é tão feia, tomara que se modifique pois se
crescer feia assim, certamente vai ser muito infeliz. E pelejava para tornar
afilado o nariz bem achatado que ela tinha. E, toda vez que ia lavar-lhe o
rosto ou limpar-lhe o nariz, apertava-o muito várias vezes, para torná-lo mais
fino. E os seus olhos também, como eram caídos, eu os puxava constantemente
para cima, para que eles chegassem pelo menos um pouco mais no lugar certo. Mas
essa feiura da Vitória felizmente foi só até os três ou pouco mais de três anos
de idade. Porque depois ela começou a mudar. E mudou completamente. Tanto que o
próprio padrinho, que por um ano a criou quando era pequena, quando a viu aos
seis anos de idade, não mais a reconheceu. Também pudera: de bem branca, ficou
bem morena; do rosto bochechudo e em forma de coração, ficou com o rosto sem
bochecha, fino e comprido; o nariz normal; os olhos, puxados e lindos como o do
pai (com os mesmos cílios virados); o formato do corpo também mudou, de
troncuda como o dele, ficou fininho e frágil como convém a uma menina. Enfim, a
metamorfose física foi completa. E aí sim, do aspecto um tanto masculino e
grosseiro que ele tinha, transformou-se numa menina, de formas e traços
delicados, ou seja, bem digna do seu sexo. As únicas coisas que não foram
possíveis serem mudadas nela, foram a cor dos olhos e as sobrancelhas espessas,
a sua vivacidade e a sua constante alegria. Pois sempre viveu, desde muito
pequenininha, só, só, sorrindo e fazendo todo mundo ao seu redor sorrir, com as
suas frases e respostas espirituosas, inteligentes e bem humoradas sobre tudo
que, com a mais aguda lógica e precisa percepção, quando criança, observava ao
seu redor. Quando bem pequenininha, logo que começou a falar, para quem lhe
perguntasse o nome ela respondia sorrindo e bem depressa: Vitória Régia Dagosta
Sampaio. E era uma gracinha aquela menininha de dois aninhos, cabelos
compridos, lisos e ondulados até as costas, rechonchudinha e alegre, que sabia
responder, sem vacilar e sempre sorrindo, a tudo que qualquer um lhe
perguntasse. E assim foi crescendo a minha menina. Cada vez mais alegre. Até
hoje nunca repetiu nenhum ano na escola e, no primário, era ela quem tirava,
todos os meses, a melhor nota da classe, e sempre foi bem querida por todos.
Enfim, a esse respeito, nunca me deu qualquer espécie de problema. Pelo
contrário, só me deu orgulho e alegria. Só o ano passado é que ela, por causa
de namorado, andou saindo um pouco fora da linha e andou me desobedecendo e me
dando muita preocupação, muito desgosto, muita tristeza. Mas, felizmente, creio
que isso tudo já passou. E, graças ao Gohonzon, tudo agora está normal. E hoje,
ela faz dezessete aninhos. Digo aninhos porque é o último aniversário dela como
menor. Puxa vida, nem dá pra acreditar!
A minha filha, aquela bonequinha que media 49 centímetros e pesava 3
quilos e 200 gramas, em meio a tanta tristeza, se constituiu numa das minhas
maiores alegrias e numa das duas únicas razões que eu, ainda tão jovem, tinha
para continuar vivendo e tendo forças para lutar pela vida, hoje faz dezessete
anos! E nem dá para descrever o tamanho do duplo orgulho que hoje eu sinto por
ela e por mim. Por ela ser a boa filha que é, ajuizada, inteligente, bonita,
simples, compreensiva, enfim, dona de uma belíssima personalidade. E por mim
pois, apesar de ter me defrontado e vivido a maior parte da minha vida em meio
a tantos tristes e sérios reveses e tribulações, venci. E hoje vejo todos os
meus esforços e sacrifícios coroados de êxito, por ter a minha filha Vitória
Régia do jeitinho certo, como eu gostaria que ela fosse. E hoje, com muita
razão, ela está toda eufórica! Já ganhou os 17 puxões de orelha da Jussara, sua
irmã, da Iara, sua colega, e também as únicas coisas que eu posso lhe dar hoje,
isto é, os meus parabéns e os meus dezessete puxões de orelha. Não lhe posso
dar mais que isso porque estamos construindo a casa e, com dívidas, por isso
não podemos fazer gastos. E também porque além de tudo estou sem dinheiro. Não
fui a primeira a cumprimentá-la porque estes dias não estou bem e, por isto,
estou levantando um pouco tarde e hoje não foi exceção. São nove horas já. O
João ainda está deitado e eu preciso acordá-lo para ir ao Aoud. Abro a janela
do quarto dele, e a primeira coisa que vejo é uma Brasília amarela-bandeira em
frente e o motorista olhando para cá. Não o conheço. E como estou muito feia,
afasto-me antes que o homem comece a falar comigo pois parece-me que ele
procura ou quer saber alguma coisa. Falo com o João e venho para o meu quarto.
Ouço uma buzinada, saio até o corredor e mando que a Vitória, que está saindo
da cozinha, vá ver. Ela entra na sala, e antes de atender me chama, pensando
que é comigo, pois parece que o homem está com um pacote na mão. Ele pergunta:
Vitória Régia Costa Sampaio é aqui? – Sou eu, ela responde. E ele lhe entrega
um lindo ramalhete de botões de rosas vermelhas e brancas. Ela entra para o
corredor sorrindo com o ramalhete nas mãos e, todos nós, principalmente eu,
tiramos um sarro e sorrimos também. – Quem será que mandou? Pergunto. Ela olha
o cartão pendurado. – Elias! Digo. Só pode ser o Elias, completo. – É o que
estou pensando, só pode ser ele, responde-me ela. Abre, é um cartão, e é ele
mesmo. – Sabia, completei. Ela está toda feliz. Tão feliz e envergonhada que
nem acaba de ler o cartão. Deixa-o em cima da máquina, onde depositou as
flores, para que a Jussara e eu leiamos. Falei: é, ainda bem que alguém lembrou
de te fazer surpresas. Mas é bobo, em vez de dar um presente, dá flores. Eu,
pessoalmente, nunca gostei que ninguém me desse flores. Prefiro que não me dê
nada. Acho tão inútil gastar dinheiro com flores. É bacana, é chic, é distinto,
mas é temporário e não dura nada. O máximo que dura é uma semana. Portanto,
acho um dinheiro jogado fora. A não ser quando a gente tem uma casa bonita e
pode por num vaso bem bonito para enfeitar a casa. Mas aqui, com esta casa do
jeito que está, que proveito tem? Nem vasos, nem jeito para enfeitar nada a
gente tem. A não ser que a Vitória queira guardar o ramalhete inteiro assim
como está dentro da gaveta dela de lembrança. A Vitória pegou a carta, guardou
e deixou o ramalhete como estava, em cima da máquina, sem se importar ao menos
de desmanchar o ramalhete e por as flores nos vasos. E ali em cima da máquina
permaneceu até que eu as desmanchasse e guardasse para que não se estragassem
ali mesmo, no cartucho em que vieram. E o seu José, malandro, não veio hoje.
Ele está abusando. Falou que no sábado e no domingo viria trabalhar aqui e hoje
não apareceu. E eu com pressa desse banheiro, e o material todo aí parado, sem
ele vir trabalhar. Assim eu estou vendo que não pode continuar. E ele prometeu
que neste fim de semana o banheiro ficaria pronto. E já vi que não vai ficar. Estou
por conta com ele. E assim não dá. O Aoud se viesse aqui hoje iria ficar
decepcionado de eu tê-lo apertado para ter mandado os materiais e ainda depois
de tanto tempo estar tudo cru. Ainda não rezei nada, mas vou rezar. Preciso
terminar mais uma hora de Daimoku para o Aoud. Antes vou ver se acabo de tirar
a cerca que caiu com esta ventania, do nada que está ventando estes dias.
Desamarro os arames, prego no poste, mas fica ainda um mourão de cerca em pé,
que não quer ser arrancado por nada. Bato que bato e ele não sai. Empurro que
empurro e ele não cai. O João está saindo para ir no Aoud e, ao ver-me em
labuta com a cerca, tenta me ajudar e acaba ficando pior pois, de tanto bater
com a enxada no mourão, quebra a enxada e não derruba o mourão. Grito com ele:
aí, agora ficou pior, e agora você não vai consertar a enxada. Ele sai, ponho
fogo na cerca, que começa a erguer umas chamas até razoáveis, tanto que alguns
homens que iam passando na Av. Paulista descem pensando que é incêndio e vêm se
oferecer para apagar. Digo-lhes que sou eu que estou querendo queimar a cerca.
Agradeço-lhes e eles se retiram. Ateio fogo em várias partes da cerca mas, o
vento que está forte não deixa que ela se queime por completo. Só queimou
algumas pequenas partes estragando a cerca. Me arrependo mas já é tarde. Pois
nem consegui queimar a cerca, nem consegui tirá-la do lugar por causa do mourão
que não quis sair. É sempre assim. Quando a gente não quer que estrague ou que
saia, ela estraga e sai tão fácil. E agora que eu fiz tudo para destruí-la e
para tirar o mourão, não consegui. No fim, a cerca fica no mesmo lugar e em
estado deplorável. Bem pior do que estava pois agora nem levantá-la mais eu
posso, uma vez que ela está queimada em vários lugares. Entro em casa e vou
rezar. Acabo de rezar e o João chega, trouxe os materiais que pedi e mais
alguns que não pedi, como da outra vez. E mais Cr$ 2.000,00 dos Cr$ 3.000,00
que pedi. Está ótimo. Eu esperava dois mil mesmo. Foi por isso que lhe pedi
três mil. O Aoud, ultimamente, está muito, muito bacana. Mas tudo isso agradeço
apenas e tão somente ao Gohonzon; ele vai mudar para melhor, bem mais ainda.
Muito obrigada, meu querido Gohonzon, muito obrigada, meu querido Aoud. A
Vitória está se arrumando e vai sair com o Elias e a Jussara. O Elias já
chegou. E ao nos pegar admirando os apetrechos, todos de melhor qualidade que o
Aoud nos mandou, falou-nos que os apetrechos sanitários do Sr. Kadono também já
chegaram. E que eles também estavam todos contentes. E que os sanitários do Sr.
Kadono é daqueles cheios de fricotes, que têm uns desenhos em alto relevo.
Disse-lhe que já sabia de que tipo eram. E que os achava muito bonitos. A
Jussara também está se aprontando para ir com a Vitória e o Elias. Vai só para
segurar a vela. Falo-lhe, tirando um sarro e bem baixinho, quando entra no meu
quarto: você heim, Jussara, agora vai ter que sair pra xuxu. Segura vela, mas
em compensação passeia e come bastante. Coitado do Elias que tem que gastar com
a namorada e com a seguradora de velas. Também bem feito! Quem manda querer
namorar. Quem quer namorar tem que gastar. – É, mãe, ontem deixei o Elias duro
e hoje vou deixar outra vez. Quem manda, falou a Jussara. Eu estava lavando
roupa. A Vitória veio pedir pra sair com a minha bolsa. A marrom que eu trouxe
de Serra Negra, a melhor e a única bolsa inteira que eu tenho pois as outras,
ela e a Jussara estragaram tudo levando-as para a Kotekitay. Não queria deixar
mas deixei. Sabe como é mãe, vive em função dos filhos e tudo que tem é mais
dos filhos que dela. Eu não me importo que os meus filhos mexam e usem as
minhas coisas. Só não gosto é quando eles reviram e não arrumam e quando usam e
estragam as minhas coisas. Porque daí, nem eles, nem eu. A Jussara me chamou
para ver o presente que o Elias deu para a Vitória além das flores: uma
carteira e porta níqueis vermelha de desenhos estilo japonês; mas pelo que vi,
muito mal feita e vagabunda. Estraga logo. Aliás, já começou a estragar pois de
um dos lados já tem uma pontinha descolada. Bobo, em vez de dar as flores,
deveria ter comprado um presente melhor. Aliás, voltando às flores, logo após a
Vitória receber o ramalhete e, em meio à nossa geral gozação, a Jussara falou:
mãe, a Vitória usa “Impulse”. Lembrei-me da propaganda da televisão e rematei:
“quando alguém lhe oferecer flores, isto é Impulse”. Dali à pouco foi a vez da
Jussara aparecer com um mixuruquinho ramalhete de rosas silvestres com flores
de capim e oferecê-los em homenagem à Vitória. Tornei a falar: viu, Vitória,
você usou Impulse e agora aguente os resultados. Saíram os três.
Recomendei-lhes que não viessem tarde, que às sete e meia quero-os no Hanzá,
que vai ter aqui em casa, às sete e meia. Continuei lavando roupa. Aliás, hoje
recomeço a lavar roupas de novo. A lavadeira estava lavando a roupa muito mal
lavada, gastando muito sabão e, ainda estragando todas as roupas. Dispensei-a.
Também agora já dá pra eu lavar as roupas pois já está entrando o tempo do
calor e o tanque já foi colocado aqui na área com torneira e tudo. Assim,
lavando roupa, eu economizo e não passo raiva. Posso guardar os Cr$ 350,00, que
pagava à lavadeira por mês, na poupança para comprar o mais depressa que puder
uma máquina de lavar roupas. E por falar, chegaram agora as meninas da
lavadeira que vêm receber os Cr$ 350,00. Chegou também minha irmã Matilde que
veio limpar o barracão para ela morar. E acaba de chegar também a Dona
Antoninha. Paro de lavar as roupas pois fica chato eu não dar atenção a ela. Conversamos
bastante a tarde inteira sobre os nossos filhos, sobre nós, sobre a nossa vida.
Fiz chá e bolinhos doces. Mostrei-lhe o banheiro e todas as coisas que o Aoud
me mandou. Falamos de Dona Antonia Lima e dos problemas dela com o homem que
ela arranjou, e que vai se desquitar da mulher para viver com ela. Pessoalmente
acho que a Dona Antonia, como budista, perde mais estando com ele do que se ela
lhe desse um pontapé. Se o homem já fosse desquitado ou separado da mulher antes
dela, tudo estaria certo. Mas, no caso dela, que ele vai largar a esposa por
causa dela, creio que não está. Pois, se ela ganha alguma coisa de um lado, por
outro lado perde muito mais. E não adianta ela mudar para Itaquá nem para outro
lugar por mais longe que for, que ela nunca vai se livrar dos problemas nem do
peso na consciência por, de qualquer forma, ter destruído um lar. E ainda se o
homem fosse rico. Mas é um pé rapado que mal pode cuidar de uma família. E só o
que ela perde em ficar difamada, por mais que ele lhe faça, não chega para
compensar o que ela perde. E ainda mais que a gente sabe e vê o quanto sacrifício
e humilhação ela passa e ainda está passando no momento com os filhos dela,
mesmo estando já há um ano com este homem. É bem visível e fora de qualquer
dúvida que as perdas dela e dos filhos dela são bem maiores que os lucros. E um
caso desse, e já que ela tem o Gohonzon, ela deveria pensar mais no bem dos
filhos e em ter as coisas por ela mesma. Pois antes só do que mal acompanhada.
Falamos da Ivonete também. Mas falamos coisa pouca e sem importância. A Miriam
com o Doca e as crianças chegaram já ao anoitecer. Eu já estava começando a me
preparar para a reunião e ao mesmo tempo conversando aqui sentada na minha
cama, no meu quarto com a Dona Antoninha, A Miriam veio juntar-se a nós,
enquanto o Doca e as crianças ficaram no quarto ouvindo discos. Em conversa com
Dona Antoninha, peguei o Ode à Juventude do Presidente Ikeda, que estava na
minha cabeceira, e dele citei várias importantes estrofes para Dona Antoninha,
mas com intenção de que servissem para a Miriam. As seguintes: “Ainda que
enublado esteja o céu, e embora soprem ventos pungentes, o sol se levanta hoje
também”. E outra: “Eu, como você, tenho minha missão; ninguém, senão eu, pode levá-la
à plena realização”. E outra: “Caluniadores, caluniem como queiram; zombadores,
zombem como queiram; no futuro de nossa jornada majestosa, um testemunho
histórico de milhares de anos nos espera; um monumento de glórias e vitórias
nos aguarda”. E ainda outra: “Qual é o nosso alvo? Kossen Rufu é o objetivo”.
Seu Kadono chegou e eu ainda estava suja. Corri e fui arrumar o que faltava
para tomar banho. E foi chegando gente: o Seu José, Dona Iracy, Sr. Ducatti,
Maurício, Iara, Dona Antoninha e Matilde. Acabei de me arrumar, fizemos o
Gongyo, e eu fiz 10 minutos de Daimoku para a felicidade da Vitória. Ensaiamos
alguns cantos e estudamos um pouco o capítulo “A Determinação” do romance
“Ninguem Kakumei”. Dona Antoninha jogou umas indiretas no Sr. José dizendo-lhe
que eu estava com todos os materiais aí parados e ele não vinha trabalhar. Ele
disse que era pra vir do meio dia para a tarde mas ficou doente do estômago e
não veio. Terminou a reunião, todos se foram. O Doca e a Miriam se foram também
e pareciam zangados porque eu não pude lhes dar atenção, nem oferecer-lhes
café. Seu José, quando eu falei que ele havia prometido terminar o meu banheiro
neste fim de semana e não havia vindo hoje, saiu rápido, com a cara bem séria,
e sem falar nada. Matilde ficou com as crianças, vão dormir aqui. Eu, que estou
cansada e bastante chateada com tudo, vou dar um jeito de ir para a cama já já.
Não quero conversa com ninguém. Vou só pegar o travesseiro da Jussara que hoje
ela vai dormir comigo. Deve ser no máximo dez horas. É cedo ainda, mas não
quero nem saber. O resto que se vire que eu vou tratar de me recolher.
Clotilde Costa Sampaio nasceu em 17 de maio de 1940 em Santa Cruz do Rio Pardo, SP e faleceu em 17 de janeiro de 2010 em Mogi das Cruzes, SP. Poeta desde os 23 anos quando, viúva com dois filhos, conheceu o grande amor de sua vida e com ele teve mais dois filhos, em SP, capital. Construiu sua casa em Suzano, SP. Alternava períodos em Salvador, BA, momento em que sua obra ganhou e alcançou novo vigor poético. Deixou os filhos João, Vitória, Itamaraty, Jussara e Tarcila.
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