domingo, 25 de outubro de 2015

25/03/88


Mogi das Cruzes. Pelo meu relógio, são 13;15 horas desta sexta-feira 25/03/88. Vim hoje em Mogi só para colocar uma carta no correio lá para a turma na Bahia. Jussara já deve ter vindo do almoço. Gastei duas fichas e não consegui falar com ela. Após o correio, comi dois rocamboles de chantilly e 1 caçulinha no Bombolinha. E estive vendo: uma boa é fazer daqueles sanduíches que vi lá, embalados em celofane. Feitos de carne de lagarto assada, com vinagrete e alface. Não fui até a Rig. Preferi passar direto e vir até a praça do Zoo, onde estou a escrever isto aqui. Cidade insípida esta Mogi. E estou escrevendo insípida sem saber ao certo o seu significado. Já soube e já me esqueci. Aliás, como tudo. Parece-me que é insossa, sem graça. Só estou aqui agora porque não há outro jeito. Mas bem que eu gostaria de conhecer alguém bem interessante, só para fazer amizade aqui. O que falta aqui é isso: amizades. Sem se ter amizade não se tem nada. Nesta noite sonhei que ia me casar com uma pessoa bem mais jovem que eu. Um rapaz branco que eu só me lembro vendo-o pelas costas. Sua fisionomia não me lembro. E ele me comprou roupas, pulseira, anel, colares, broches, até pulseirinha para a perna, tudo em azul marinho e branco. Eram bijuterias mas de primeira que eu dei para João Vitor, Lorena e Luanda brincar. E eles sumiram com tudo, depois eu achei de novo. Eu só via este rapaz de bermudão e de camisa solta. Não era bonito. Mas era atencioso e gostava de mim pois me dava presentes de acordo com suas posses, pois não me pareceu rico e até pareceu-me um tanto relaxado consigo mesmo, dentro de uma aparência bem desleixada. Esta praça dá-me a impressão de ter só gente desocupada como eu. Se eu estivesse na Bahia agora, seria outra coisa. Lá hoje, já começa a ser feriado a partir do meio dia. Aqui na praça cada um faz uma coisa: um cochila, outro lê o jornal, outros olham os animais, outro sentado à minha frente só me olha, outros passam para lá e para cá, outros namoram, eu escrevo. Já houve um tempo em que era só eu sair na rua e arranjar não só um mas quantos namorados quisesse. Hoje, nem sentada aqui na praça, consigo despertar a atenção de um só sequer bom. Ou melhor, sempre há quem me olhe. Não sei por que, mas sempre tem um ou outro que me percebe. Como este aqui de frente que ainda não tirou os olhos de sobre mim, não sei com qual intenção. Se a melhor, se a pior. Passou por mim agora e parece que a finalidade dos seus olhares é me namorar. Não é feio. Não está muito bem arrumado, e não é bem meu tipo. E um negro lindo. Olhou, olhou, passou olhando, olhando, parou olhando, olhando lá de longe, e no fim, se foi. Pena. Mas vou ficar aqui esta tarde toda só para ver o que acontece. É gostoso ficar aqui observando pessoas, tipos, características de cada um. Olhares, intenções os mais e as mais diversas. Vale a pena passar manhãs ou tardes aqui. Tem-se muito o que se ver. Será casal isso aí? Ela tão nova, ele tão velho e ainda malacafento como está. Ela também, mas nem tanto. Cada vez mais a praça está mais cheia. Cada vez mais está ficando melhor. Isto é bom. A Praça da Piedade, como não estará?
                                                              Clô

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