Mogi das Cruzes. Pelo
meu relógio, são 13;15 horas desta sexta-feira 25/03/88. Vim hoje em Mogi só
para colocar uma carta no correio lá para a turma na Bahia. Jussara já deve ter
vindo do almoço. Gastei duas fichas e não consegui falar com ela. Após o
correio, comi dois rocamboles de chantilly e 1 caçulinha no Bombolinha. E
estive vendo: uma boa é fazer daqueles sanduíches que vi lá, embalados em
celofane. Feitos de carne de lagarto assada, com vinagrete e alface. Não fui
até a Rig. Preferi passar direto e vir até a praça do Zoo, onde estou a
escrever isto aqui. Cidade insípida esta Mogi. E estou escrevendo insípida sem
saber ao certo o seu significado. Já soube e já me esqueci. Aliás, como tudo.
Parece-me que é insossa, sem graça. Só estou aqui agora porque não há outro
jeito. Mas bem que eu gostaria de conhecer alguém bem interessante, só para
fazer amizade aqui. O que falta aqui é isso: amizades. Sem se ter amizade não
se tem nada. Nesta noite sonhei que ia me casar com uma pessoa bem mais jovem
que eu. Um rapaz branco que eu só me lembro vendo-o pelas costas. Sua
fisionomia não me lembro. E ele me comprou roupas, pulseira, anel, colares,
broches, até pulseirinha para a perna, tudo em azul marinho e branco. Eram
bijuterias mas de primeira que eu dei para João Vitor, Lorena e Luanda brincar.
E eles sumiram com tudo, depois eu achei de novo. Eu só via este rapaz de
bermudão e de camisa solta. Não era bonito. Mas era atencioso e gostava de mim
pois me dava presentes de acordo com suas posses, pois não me pareceu rico e
até pareceu-me um tanto relaxado consigo mesmo, dentro de uma aparência bem
desleixada. Esta praça dá-me a impressão de ter só gente desocupada como eu. Se
eu estivesse na Bahia agora, seria outra coisa. Lá hoje, já começa a ser
feriado a partir do meio dia. Aqui na praça cada um faz uma coisa: um cochila,
outro lê o jornal, outros olham os animais, outro sentado à minha frente só me
olha, outros passam para lá e para cá, outros namoram, eu escrevo. Já houve um
tempo em que era só eu sair na rua e arranjar não só um mas quantos namorados
quisesse. Hoje, nem sentada aqui na praça, consigo despertar a atenção de um só
sequer bom. Ou melhor, sempre há quem me olhe. Não sei por que, mas sempre tem
um ou outro que me percebe. Como este aqui de frente que ainda não tirou os
olhos de sobre mim, não sei com qual intenção. Se a melhor, se a pior. Passou por
mim agora e parece que a finalidade dos seus olhares é me namorar. Não é feio. Não
está muito bem arrumado, e não é bem meu tipo. E um negro lindo. Olhou, olhou,
passou olhando, olhando, parou olhando, olhando lá de longe, e no fim, se foi. Pena.
Mas vou ficar aqui esta tarde toda só para ver o que acontece. É gostoso ficar
aqui observando pessoas, tipos, características de cada um. Olhares, intenções
os mais e as mais diversas. Vale a pena passar manhãs ou tardes aqui. Tem-se
muito o que se ver. Será casal isso aí? Ela tão nova, ele tão velho e ainda
malacafento como está. Ela também, mas nem tanto. Cada vez mais a praça está
mais cheia. Cada vez mais está ficando melhor. Isto é bom. A Praça da Piedade,
como não estará?
Clô
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