XXII – 29/09/85 – domingo - Jardim Monte Cristo, Suzano – SP
1) Estou feliz, felicíssima por estar contribuindo por uma causa justa. Digna. Honrada. Verdadeira. Sem mentiras. Sem embustes, sem demagogia. A causa de Jânio Quadros. O único Homem brasileiro público em quem se pode confiar. Eram 7:45 horas quando me levantei hoje. Me arrumei. Ia rezar, não dava tempo, não rezei. Fui embora sem rezar mesmo. E tudo deu certo. Graças à Deus. Estava chovendo. Teria que ir a pé pelo barro daqui até a estação. Doca se ofereceu pra me levar de carro. Que bom! Foi uma mão na roda. Economizei tempo e sacrifícios. Tomei o trem às 8:38 h. Cheguei em Itaquera às nove horas em ponto. Me senti bem, otimamente bem mesmo, entre os meus novos amigos, que me receberam com muita afinidade. Senti-me junto à minha verdadeira família. Enfim, gente que fala a minha língua, que tem os mesmos ideais que eu. Gente simples. Humanos cujas lutas não se alimentam de interesses baixos e inescrupulosos. Deveriam estar presentes cerca de sessenta pessoas, todas janistas autênticas. Janismo, como disse um dos oradores, é como eu sempre senti, é uma religião. Pessoas interessantes, simpáticas, simples, cultas, que estavam lá de coração e alma oferecendo-se para lutar sem qualquer interesse pela vitória do Jânio, pois a vitória do Jânio para prefeito agora, é a própria vitória do Brasil. Da prefeitura, o levaremos de novo, ao Palácio da Alvorada. Jânio é a única pessoa capaz de salvar o Brasil. Entre tantos oradores, eu fui uma delas. E nunca, em toda a minha vida, falei com tanta convicção, com tanto sentimento como falei hoje. Até nem acredito que fui eu que falei o que falei. Recebi muitas palmas, e disseram que gostaram do que eu disse. Isto me incentiva a procurar a me esforçar, a começar a falar cada vez mais e melhor. Quero, de agora em diante, poder comunicar minhas ideias. Quero deixar este acanhamento e esta inibição de lado, e me descontrair.
2) Tomei uma decisão pra valer, hoje. Quero me mudar pra Itaquera o quanto antes, para melhor poder trabalhar na campanha do Jânio. E para melhor atrapalhar o sossego do Aoud. Quero que a minha presença, vizinha a ele, o deixe ficar com a pulga atrás da orelha. Antigamente, em consideração a ele, nunca moramos em Itaquera. Agora, somos livres. E podemos morar onde quisermos. Aoud e seu sossego, que se cuidem. E parece que tudo vem a calhar. O Sr. Agenor Tavares, presidente do PTB Itaquerense e do Comitê do Jânio, tem uma imobiliária. E vou pedir-lhe que me arranje uma casa bem central em Itaquera para alugarmos e morarmos para lá. Quem sabe, até a Vitória vem morar conosco? E o Ita também e tudo se ajeitará do melhor modo possível na nossa família? Para eles, será melhor, por causa da faculdade. Vitória não precisará tomar outra condução até Vila Formosa, chegará mais cedo em casa, e as costuras poderão ficar entre família. E o Ita também não precisará andar todo esse pedação a pé fora de hora correndo perigo. Vou falar com o Ita assim que ele chegar. Venderemos o telefone para socorrer as despesas mais urgentes. Costuraremos. E nas horas vagas, com mais horas vagas, trabalharei ou trabalharemos todos na política como eu gosto, e como me faz bem. Quem sabe, nem precisaremos mais ir pra Bahia? Ou então eu irei lá todos os anos, passar o tempo de inverno lá. O resto do ano, passarei aqui mesmo, serei candidata a vereadora ou a deputada estadual no ano que vem. E com Jânio à frente varreremos toda a corrupção do Brasil. E terremos com Jânio o Brasil ideal com que todo brasileiro sonha ter.
3) Estava bem, e já estou mal. Foi só falar com o Ita sobre mudar-mo-nos para Itaquera e já mudou tudo em mim.
- Nada disso. Disse mais que objetivo. Mudar pra Itaquera, nunca. Eu não vou. E não tem nem lógica vender o telefone pra gastar em aluguel. E ficar sem telefone, e sem nada. E só por causa do Jânio? Ah! Mãe, não tem nem cabimento a senhora ter essa ideia. Mãe, põe a cabeça no lugar e vê que não dá pra fazer uma bobagem dessa. A senhora vai de carro. Espera consertar e vai de carro.
- E a gasolina?
- Vai de carro só até a estação. A gasolina eu pago.
- Mas não é isso, Ita. É que eu estou gostando tanto de trabalhar na política. Eu estou me sentindo tão bem, que se morasse em Itaquera eu teria mais tempo pra me dedicar na campanha.
- Só se a senhora tiver outro jeito. A senhora é que sabe. Se quiser mudar, só se a senhora quiser se arranjar com o meu pai. Mas acabar com as nossas coisas por causa da campanha do Jânio, isso não.
- Falar com o seu pai, também não, Ita. Então, nada feito.
- Tudo bem. Então nada feito. Aqui, de qualquer jeito a gente está seguro; mas vender o telefone, a casa, por causa da campanha é que não.
Saiu. E eu fiquei triste. Decepcionada. Frustrada. Arrasada. Depressiva. Angustiada. Sufocada. Desanimada. Até de fazer qualquer outra coisa. Até de continuar em pé. Até de viver. E assim estou até agora. Nem tive mais vontade de assistir o Fantástico. Arrumei a Lilinha pra dormir. Miriam veio nos trazer alguns pasteis muito gostosos que ela fez e que chegaram numa hora boa. Um pra cada um de nós: Lilinha, eu, Jussara, Dinorá. E ficamos conversando sobre a vida. “Eu estou tão descrente de tudo quanto você, Miriam”. Disse-lhe eu. Ainda ontem eu e a Norá estávamos conversando sobre isso mesmo. E eu cheguei à seguinte conclusão: que todos nós, só somos simples brinquedinhos de Deus. Tudo que acontece com a gente de bom ou mal, Ele acha lindo. Este terremoto do México mesmo, foi o maior divertimento pra Ele. Se Deus quisesse, ele bem que poderia ter evitado tudo aquilo. Só não evitou porque não quis.
4) acho que o Ita já chegou. E está tocando o único disco de Caetano que a Vitória deixou. Cores, Nomes. Só espero que ele não deixe a vitrola a noite inteira ligada. O que é que eu faço da vida, meu Deus! Não devia fazer nada.
5) Na volta de Itaquera, me deu vontade de passar na casa de Dona Antoninha. Ela quis que eu almoçasse lá. Me arrumou aquele prato de comida: feijão preto com algumas carnes dentro tipo, mas não bem feijoada. Arroz, farinha de mandioca, laranja, pimenta. Estava gostoso. Parece que ela não gostou das minhas respostas sobre a não doação minha do zaimu para o Auditório Ikeda, mas eu só fui bastante franca. É exatamente isso que eu lhe disse, que eu penso sobre esse zaimu e essa organização. Fez hoje pela manhã, bastante chuva. À tarde bastante frio. Benedito e Maria vieram à noite aqui. Talvez até ele concorde em juntar em juntar os trapos com a Maria. Ofereci-lhes o salão e os móveis que tenho aí sem uso. Eles bem que merecem. Só depende deles.
Clô
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