Para Aoud Id
Há algo que eu preciso revelar
Só pra ti; mas não sei como vou dizer.
Mas terei que falar
Pois terás que saber.
E eu sei que hás de ficar
Furiosamente enraivecido.
Se eu não me resolver a te escutar,
Se eu me negar a praticar o teu pedido.
E então prometerás me abandonar
Mas nada me fará mudar.
E o teu desejo pretendido
Sei que serás então, capaz de consumar.
Mas vou deixar-te inteiramente convencido
De que, por Deus, sou bem capaz de te trocar.
Ele é constante, é eterno e não tem fim
Enquanto o teu amor há de passar
Logo que sintas qualquer coisa contra mim.
Portanto, inútil te será
Trazer a mim tua insistência.
Pois logo, bem depressa enxergarás
A vitória da Divina Providência.
E assim irei até o fim
Levando avante toda a minha persistência.
E embora eu siga a caminhar errante
Hei de cumprir à risca a penitência.
Mesmo que eu antecipe o inevitável
Dê-me o que der, custe o que custar,
A minha fé continuará inabalável.
E a esperar a tua solução
(Seja qual for a tua decisão)
Jamais desejarei mal pra ti.
Nem a ninguém dos teus.
Nem hei de te odiar; pois afinal
Não quero nem pensar
Se o que o teu ser me fez
Foi bem ou mal.
E o que farei diante daqui
É apenas me afastar do teu caminho.
O mais que puder e o mais que me der.
Para bem distante do teu ser, do teu carinho.
E embora irei.
A caminhar quase sozinha
Sem ter a ti
Mas com os meus
E a sorte minha.
Mas sobretudo
E mais que tudo –
A minha fé e o meu temor a Deus.
Clotilde Sampaio
Brás, São Paulo, 1965. (livro cinza encadernado)
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