quarta-feira, 13 de março de 2024

ÍNTIMA REVELAÇÃO

              Para Aoud Id

 

Há algo que eu preciso revelar

Só pra ti; mas não sei como vou dizer.

Mas terei que falar

Pois terás que saber.

E eu sei que hás de ficar

Furiosamente enraivecido.

Se eu não me resolver a te escutar,

Se eu me negar a praticar o teu pedido.

E então prometerás me abandonar

Mas nada me fará mudar.

E o teu desejo pretendido

Sei que serás então, capaz de consumar.

 

Mas vou deixar-te inteiramente convencido

De que, por Deus, sou bem capaz de te trocar.

Ele é constante, é eterno e não tem fim

Enquanto o teu amor há de passar

Logo que sintas qualquer coisa contra mim.

 

Portanto, inútil te será

Trazer a mim tua insistência. 

Pois logo, bem depressa enxergarás

A vitória da Divina Providência.

E assim irei até o fim

Levando avante toda a minha persistência.

 

E embora eu siga a caminhar errante

Hei de cumprir à risca a penitência.

Mesmo que eu antecipe o inevitável

Dê-me o que der, custe o que custar,

A minha fé continuará inabalável.

 

E a esperar a tua solução

(Seja qual for a tua decisão)

Jamais desejarei mal pra ti.

Nem a ninguém dos teus.

Nem hei de te odiar; pois afinal

Não quero nem pensar

Se o que o teu ser me fez

Foi bem ou mal.

 

E o que farei diante daqui

É apenas me afastar do teu caminho.

O mais que puder e o mais que me der.

Para bem distante do teu ser, do teu carinho.

 

E embora irei.

A caminhar quase sozinha

Sem ter a ti

Mas com os meus 

E a sorte minha.

Mas sobretudo

E mais que tudo –

A minha fé e o meu temor a Deus.

 

            Clotilde Sampaio

 

        Brás, São Paulo, 1965. (livro cinza encadernado)

 

 

 

 

 

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