quarta-feira, 27 de março de 2024

28 09 85

XXI – 28/09/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano – SP

 

1) Aniversário do Ita! 21 aninhos! Maioride. E ele está contente. Disse que hoje se tornou completo. 

 

2) E eu estou esquisita. Não queria estar assim. Prometi que iria hoje, logo pela manhã lá no Comitê em Itaquera. Tanta coisa aconteceu, que eu acabei nem indo. Primeiro, acordei tarde. Segundo, Dinorá foi ficar com os irmãos lá na casa da mãe dela. Terceiro, ia arrumar a casa, dar café e remédio para Liliam, deixá-la com a mãe dela e ir-me. Estava terminando de arrumar a casa, chegou o Jorge da Dona Antoninha (que desde o estrago do carro que ele nem pagou, eu nunca mais tinha visto) com sua enorme cara-de-pau, que veio aqui só para telefonar. Será? Ou será que não veio mais só para curiosidar como vai a minha vida, e sair falando por aí? A Liliam continuava dormindo, e só foi acordar por volta do meio dia. Rezei o Gongyo e dez minutos de Daimoku, e fui dar o café e o remédio pra ela. Nisto, o Ita, que tinha ido pra Faculdade de manhã cedo, chegou, e quando soube que eu ia lá em Itaquera, ficou pondo obstáculos. Disse que não estava contente por eu estar participando de política lá. 

  - A senhora pode fazer o que quiser, mas eu não estou de acordo. 

  - Mas meu filho, eu me sinto tão bem fazendo isso. é uma coisa que me distrai, uma coisa que eu gosto de fazer. Eu sempre gostei de trabalhar pro Jânio e lá em Itaquera eu estou entre gente boa, que me receberam bem e onde eu me sinto útil.

  -  A senhora está lá mais por causa do meu pai.

  - Pode até ser também por causa do seu pai. E daí? Eu tenho mesmo interesse de me informar sobre o seu pai. Para isso eu estou fazendo amizades que futuramente poderão me informar sobre ele.

  - Ou já informaram.

  - Não. Ainda não tenho tanta intimidade assim com as pessoas. Futuramente sim. Então eu mato dois coelhos com uma só cajadada. Trabalho com o Jânio para que ele ganhe a eleição, e recolho informações sobre o seu pai. Pretendo escrever um livro falando sobre o seu pai, e quanto mais eu souber sobre ele melhor.

  - Mas eu não estou contente com a senhora chegando tarde, tomando esse trem todo dia, andando esse pedação, fazendo todo este sacrifício. A senhora precisa esperar arrumar o carro. Que custa esperar mais dez dias?

  - Não. Já não há mais tempo pra esperar. Só faltam dois meses. E a campanha não espera. Já comecei atrasada. Deveria ter começado há mais tempo. E o único sacrifício é eu andar todo esse pedação daqui até a estação, e da estação aqui. O resto não é sacrifício. É um prazer. E depois, mesmo o sacrifício de andar, é bom pra fazer um pouco de exercício. Eu desenferrujo as pernas e o corpo, e não fico tão parada.

  - Mas hoje a senhora não vai; hoje eu não quero que a senhora vá.

  - Por que eu não vou hoje? Vou sim, filho.eu prometi que iria, não posso faltar.

  - Mas hoje é o dia do meu aniversário e eu não quero que a senhora vá. Quero que a senhora fique aqui em casa. Comigo.

  - Tudo bem. Então, hoje eu não vou. Mas hoje, eu não vou só por causa do seu aniversário. Em homenagem a você. Só por isso, eu não vou. Está bem?

E tirei de vez da cabeça a ideia de sair de casa. Só que, a partir daí, comecei a me sentir com os mesmos sintomas já costumeiros de depressão, de inutilidade, de nada bom, e do único remédio pra me sentir bem; morrer. E assim passei o resto da tarde.

 

3) Já são 1:20 horas do dia 29/09/85. Estava escrevendo o texto acima. Lilinha ainda não dormiu. O Ita ainda não chegou. Enquanto escrevia, Lilinha está aqui ao meu lado. Falando e gargalhando sem parar, sozinha. Deixa ir dormir que pretendo me levantar cedo para ir na reunião do Comitê amanhã às nove horas em Itaquera. 


                                    C

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