terça-feira, 12 de março de 2024

Pelô 07/02/92 sexta-feira

1) Não sei quanto tempo faz. Se quase um ano, se mais que um ano. Sei que já faz tanto tempo, que até pensei que a minha menopausa já havia acabado, e que de há muito eu já estivesse bem livre dela. Mas anteontem à noite, ao me lavar, no meu dedo saiu uma pequena manchinha de sangue. Tipo um sinal de parto. Ontem durante o dia, no forro que costumo usar, estava uma nesga de sangue pálido. E hoje uma nesga de sangue maior e seco. Agora, ao me lavar, ainda no meu dedo, mais gotinhas. Ao todo, nestes três dias, deve ter descido no máximo duas colheres de menstruação, só para me avisar, de que ainda não me livrei da menopausa. Seria por isso, ainda esta minha depressão, insônia, mal estar comigo mesma, que tenho voltado a sentir nestes dias? Tenho estado muito descontente comigo mesma em tudo que faço, e em qualquer lugar que me encontre. Não sei o que quero, nem sei o que fazer da minha vida. Sinto-me desencorajada para tudo e sem ânimo para fazer nada, e sem fazer nada mesmo.

2) Está havendo entre Vitória e eu uma distância muito muito grande, desde que ela começou a namorar com o Sérgio. Enquanto ele estava com ela, tudo bem. Ela estava apaixonada, e no seu pensamento só havia lugar para ele. Era até muito natural que ela, com suas preocupações e emoções todas voltadas para ele, ficasse alheia, áspera, arredia, para comigo. Mas, e agora? Por que é que ela continua ainda assim tão distante, e cada vez mais inacessível para comigo? Nunca mais tivemos daqueles longos diálogos que costumávamos ter antes de Sérgio. Nunca mais ela me consultou para nada, nem dá consideração para nada que lhe falo. É como se falasse para as paredes cada vez que tento falar-lhe ou contar-lhe ou comentar-lhe sobre algo. Ela responde-me com ironia, ou com estupidez, ou com total desatenção. Muda de conversa, diz que já está cansada de me ouvir e sai sem dizer para onde vai, mal começo a lhe falar seja sobre o que for. O que mais tem existido entre nós é o vazio, o vácuo, o silêncio. Ela na dela, eu na minha, o tempo todo em que estamos juntas dentro de casa. Ela num cômodo, eu em outro. Como se fôssemos duas estranhas. E sinto que este distanciamento está crescendo sempre mais a cada dia que passa. Está acontecendo com ela e eu, o que já aconteceu entre eu e Jussara. O ruim, é que depois que esse tipo de coisa acontece, nunca mais volta a ser a mesma coisa, por mais que se faça ou da parte dela ou da minha. 

3) O que sinto que preciso fazer, e o mais depressa possível, é desaparecer para sempre da vida de todos os meus filhos. Ir para bem longe, e para um lugar bem difícil, onde nunca mais possa ser encontrada por nenhum deles. Preciso trabalhar e viver às minhas próprias custas, sem precisar deles para nada. Estou sentindo que estou sendo demais na vida de qualquer um deles. Preciso procurar um lugar onde não haja ninguém conhecido, que seja bem distante de qualquer vestígio de civilização, para eu me refugiar para sempre com Tarcila. 

                                                                                                              

                                                                                                                                    Clô

 

 

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