XXIII – 30/09/85 – segunda-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano / Itaquera, SP.
1) Que pena. Se eu tivesse dinheiro meu mesmo, é lógico que me mandaria de imediato para Itaquera. Só eu e a Lilinha. Mas dependo dos meus filhos. E, de qualquer jeito, só tenho que fazer o que eles quiserem. Se eu arranjasse alguém que me financiasse uma casa alugada em Itaquera... mas para isso eu precisaria arranjar alguém na minha vida. Por que homem nenhum faz nada pra ninguém sem interesses outros. E muito menos para uma mulher. O ideal seria se alguém, um deputado, Farabulini, por exemplo, ou outro melhor que ele, me fizesse esse favor, por interesses só políticos. Porque eu não quero morar em Itaquera mostrando para o Aoud ou família dele que eu sou qualquer coisa. Quero me dar o respeito, principalmente em Itaquera. Quero que todo mundo lá me considere, e me dê valor. E que isso chegue até os ouvidos de Aoud e da família dele. Quero ser uma pessoa bastante querida e popular em Itaquera mas, sobretudo, respeitada e admirada por todos.
2) Já estou cansada do Monte Cristo e de Suzano. Aqui já deu o que tinha que dar. Gente atrasada, lugar atrasado. E que não sei disso. Monte Cristo e Suzano agora para mim, só em último caso. Vou rezar e pedir para o Gohonzon, para que ele nos ajude a sair daqui o quanto antes, e do melhor modo possível. Sei que com o Gohonzon nada é impossível. E eu vou sair daqui sim, e logo. Querem ver só? Eu tenho que morar em Itaquera ainda na minha vida. Eu tenho que realizar este meu mais velho sonho. E agora, é a hora. Mãos à obra. Quero só ver a cara do Aoud quando souber que eu estou lá morando e numa boa.
3) Itaquera feia. Com chuva e frio às 18 horas da tarde. O Comitê sem movimento. E sem os manda-chuvas. Foram todos buscar material lá na Av. Angélica. Era para mim ter ido também. Mas fiz tanta hora em Suzano, passando em tanto lugar, e conversando e perdendo tempo com tanta gente que, como de praxe, mais uma vez cheguei atrasada aqui. Não deveria ter vindo aqui hoje. Já que, mais uma vez, faltei com a minha palavra. É ruim ser assim. No fim, posso terminar desacreditada. Mas é a vida. O meu tempo é tão escasso. Lilinha toma todo o meu tempo. E eu ainda abuso no fim de tudo isso. o ideal seria eu morar aqui em Itaquera. Nem que fosse só um cômodo e cozinha, por enquanto, só até o fim da campanha do Jânio, ou só até o fim do ano. Gostaria de poder dar mais do meu tempo aqui. E só morando aqui me ficaria mais fácil. Também aproveitaria mais esta minha pequena estadia aqui para outras coisas também. Por exemplo, saber mais sobre a vida do Aoud e de sua família. Agora eu posso fazer isso. Os laços que ainda me prendem a ele não são os mesmos que me prendiam até bem pouco atrás. Se por acaso eu souber que ele tem outras mulheres, já não vou ficar chocada. Só vou lhe cobrar os meus direitos, ou seja, os direitos dos dois filhos que tenho com ele.
4) Será que vale eu ficar neste comitê por causa do Jânio? Tem hora que eu acho que vale. E muito. Afinal de contas, o Jânio é, de todos estes políticos que andam por aí, o único brasileiro confiável. Em outra, eu fico completamente desanimada, hoje eu estou depressiva. Negativa, triste, feia e chorosa como o tempo. Por isto estou assim. Amanhã quem sabe? Estou tão instável. Sou uma e sou outra tudo ao mesmo tempo. Não sei até quando vai isso. Será que irei até o fim da minha vida assim? Engraçado. Eu sei que tenho que morrer um dia. E esse dia pode ser até hoje. Agora. Já. E neste momento, eu até gostaria que fosse já. Aliás, faz três anos já que eu torço mais pra morrer do que pra viver. Só penso na Lilinha. O que será dela se eu morrer? Seria tão bom se ela despertasse para a realidade do nosso mundo, e começasse a fazer tudo o que ela deveria fazer se fosse normal.
5) Amanhã já é dia primeiro de outubro. Três meses só para findar este ano. Um mês e quinze dias só para findar a campanha do Jânio e para a Vitória dele nas urnas. Embora sejam outros tempos, ainda é gostoso e emocionante ser janista. O ruim seria se nem essa alegria pudéssemos ter mais. Jânio ainda está vivo. Jânio é a nossa única esperança de dias melhores. Senão para mim, mas para os meus filhos, e para os meus netos. Sim, porque ele precisa ter bastante vida, bastante fôlego para voltar ao Alvorada e restituir a confiança que todos os brasileiros de há muito já perderam nos homens públicos. Precisa transformar este caos total em um verdadeiro Brasil para todos os brasileiros. Ele sim, deveria fazer uma nova e eterna constituição para o Brasil.
6) É tanto movimento na rua, tanto barulho de carros, mais parece o centro de São Paulo naqueles velhos tempos de 1963 quando eu conheci Aoud. Era este mesmo barulho que eu ouvia enquanto esperava o ônibus no Parque Dom Pedro. A única coisa que está demais aqui, é este badalar do sino da estação avisando da chegada de trens.
7) Eu digo que já não gosto mais do Aoud. Mas na realidade, o que eu sinto e que não quero sentir, nem me dar conta que sinto, é que eu o amo; não tem jeito. Ele entrou na minha vida para me marcar pra sempre. Não é nada cômodo admitir isso. mas é de fato um fato fatal.
8) Um frio que está aqui na estação. Me cortando a alma. E um bando dos mais malévolos pensamentos a me rodear. Lembro Aoud, os nossos melhores e os nossos piores momentos todos, de uma só vez. Passam já de oito horas da noite. E o trem não vem. E o vento cada vez soprando mais gelado. Aoud sossegado, aconchegado, confortavelmente instalado aqui mesmo pertinho na casa dele. E nós, eu aqui neste frio imenso ao relento da estação. Jussara andando a pé todo dia de casa a Poá, uns dois quilômetros e meio pra ir à escola. Trabalhando como caixa no Supermercado Guaió até oito horas da noite pra ganhar o salário mínimo, andando um quilômetro e meio, no escuro e no perigo da descida do ônibus até em casa. O Ita trabalhando feito um condenado na Papelão, andando mais de três quilômetros diários, se matando, fazendo extras nos sábados e domingos para pagar as despesas da casa de da Faculdade. E ainda assim preocupadíssimo por estar devendo já mais de dois meses na Faculdade. E Aoud, aí no bem bom do regaço de sua família. O herói, o exemplo de família. Será que a consciência dele não dói? Será que ele tem consciência?
Clô
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