1) Meu Monte Cristo querido! Como estás! Todo esburacado, sujo, ematado. De novo, completamente abandonado. E até quando? Há 14 anos, quando nos mudamos para aqui, tudo estava bem melhor. Era bem outro o seu aspecto. Era aspecto de bairro novo, mas bem cuidado. Até que já era bem velhinho. Agora então... estás ancião e marginalizado. Me dá um dó... E como me faz mal vê-lo assim. Que vida, ainda leva o seu povo! Que vida, ainda levam todos os meus bons vizinhos! Barro, pó, enchentes, marginais, roubos, assassinatos, acuações, falta de escolas, falta de creches, falta de condução, falta de vergonha, falta de dignidade e de moral. Falta de tudo. Aqui, se respira um ar pesado, tenso, perigoso, que eu gostaria de mudar, e que eu poderia mudar se quisessem. Mas eles não querem. E o que está aí, é o que a maioria merece. Eu poderia até sacrificar o meu bem estar na Bahia. Mas isso, se houvesse aquela certeza, se houvesse aquela sinceridade dos meus correligionários e vizinhos. É uma pena. Mas é assim que eles querem, e é assim que deve ficar. Não pode ser diferente. Eu gosto daqui! Eu amo aqui! Aqui, eu cheguei sem nada, aqui eu pude ter o meu primeiro pedaço de chão. Aqui, nós lutamos, eu e os meus filhos. Aqui, eles chegaram crianças e aqui ficaram adultos. Aqui foi o nosso ponto de partida para outros objetivos mais altos! Aqui tivemos os nossos melhores momentos, as nossas melhores lembranças. Aqui temos os nossos melhores amigos. Aqui foi travada a nossa luta, e aqui alcançamos todas as nossas vitórias. Aqui. Aqui. Aqui. Tudo aqui. Foi e é. Tudo aqui. E quem sabe será? Quem sabe aqui viverei os meus últimos dias? Muitos se foram: Gabriela, Dália, Dona Geni, Jussara, nós, Seu Cícero, Dona Lourdes do bazar, Dona Lurdes da feira. Mas outros permanecem: Joãozinho, Seu Oliveira, dona Maria, Ivonete, Seu Dito, Dona Ângela, Dona Diva, Seu Edmundo, Dona Maria de Sônia, Tereza, Dona Antoninha, Seu José, Seu Ducatti. Mas aqui, no nosso pedaço, está tão vazio! Tão triste! Tão desolado! Tão desfalcado. Até parece um outro Monte Cristo. Até parece que aqui, nada tem que ver comigo. Até parece que eu nada tenho aqui e que nem sou daqui. Também, viver nesse meio de gente tão corrupta, tão hipócrita, tão arrogante, tão falsa. Melhor me ir. Melhor me mandar sem me imaginar em nada de bom que aqui, é que não tem mesmo. Seria preciso me mancomunar, estar preparada, me cumpliciar com todos os tipos de más ideologias que é bem normal e nata aqui. E eu não estou, como não tenho cabeça, nem mente, nem jeito para nada disso. Deixo-os como são e estão, e me vou como estou e sou. Para votar em Salvador ou Patos, e para ajudar a eleger Gilberto Gil e Nilton Nunes em Emas.
2) *(em letra cursiva, de algum médium, diferente da letra original da autora, que recebia mensagens psicografadas).
“Clotilde você tem que ir na casa do poeta Mário de Andrade para ser entrevistada e conhecida no Brasil inteiro”.
3) *escreve todo o poema CIFRÕES x TALENTO, (feito em agosto de 1987).
4) *escreve todo o poema É COMO SE FOSSE, (feito em agosto de 1987).
5) Ita telefonou da casa da mãe da Meire ainda há bem pouco. Disse que dentro em pouco estaria aqui para nos pegar a mim, Vitória e João Vitor para voltarmos a Mogi.
6) *Telefonei para Clau. Ela está feliz, muito feliz, por seu regresso de Lisboa e Madri. Foi muito bem sucedida. Disse que vai me arrumar para o português que a contratou. Que acha que vai dar tudo certinho.
Clô
*notas da digitadora Vitória Régia. No item 6 a autora se refere à notável cantora e compositora baiana Claudete Macedo, de que se tornou muito amiga.
Obs: escrito num grande papel branco de embrulho (agora amarelado) dividido em oito partes dobradas verticais e duas horizontais, frente e verso. Em razoável estado de conservação. Aqui começa o texto deste grande papel. (VR)
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