XIX – 26/09/85 – quinta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano – SP
1) Ontem, como já disse, fui até o Comitê do Jânio Quadros lá na Av. Angélica. Engraçado é que, sem saber que condução tomaria pra chegar até lá, logo que desci do metrô, na Praça da Sé, assim que avistei um par de guardas, dirigi-me a ambos, e perguntei-lhes:
- Por favor, os senhores poderiam me informar que condução passa pela Av. Angélica?
O mais próximo a mim, um senhor claro de meia idade, me perguntou:
- Em que altura a senhora vai, da Av. Angélica? A senhora vai em que número?
- Olha, o número eu não sei. Eu vou ao Comitê do Jânio Quadros, falei-lhe um tanto receosa, com medo que ele fosse de outra ideologia, me censurasse e não me ensinasse ao certo, sobre a condução. Mas ele mais que solícito respondeu-me:
- Ah! O Comitê do Jânio, fica mais ou menos na altura do número 2. A senhora toma o ônibus na Praça do Patriarca, qualquer ônibus que sobe a Consolação, passa o primeiro ponto do Cemitério da Consolação e no último ponto, do fim do Cemitério, a senhora desce na Rua João Euzébio, vira à direita, e vai sair na Angélica quase em frente ao Comitê do Jânio. Quer dizer que a senhora também é janista? Eu também sou. Lá em casa todos os votos da minha família vão ser todos pra ele.
- Eu também. Sempre votei nele. Ele é a nossa última esperança. Ele é o único que não nos engana.
- O Jânio é fora de série. O resto que está aí, é só conversa e mentiras. A senhora vê o Montoro. O que é que fez até agora? Nem o nosso salário ele está pagando. Faz um tempão. Já que estamos com os salários atrasados, não nos dá nenhuma condição de trabalho. Só engana. Ele pôs trezentas viaturas, ainda ontem nas ruas, mas só para aparecer na televisão e enganar o povo. A senhora pensa que aquilo é de verdade? Ele nem deixa que a gente saia com as viaturas. Ficam todas lá encostadas. Paradas. Nós temos que andar a pé. Por isso que a cidade está cada vez mais sem segurança. Nós não temos a menor condição nem segurança para trabalhar. Se a gente pudesse conversar com os candidatos, bem que a gente contaria coisas, mas coisas espantosas que ninguém sabe. Se a gente der uns tapas num marginal, vem o Dom Evaristo e defende-os. Toda hora D. Evaristo Arns passa aqui com um bando de trombadinhas cupinchas dele. E o que a gente pode fazer? Cruzar os braços e ficar olhando. Nós, policiais hoje, só servimos para dar informações, como eu estou dando pra senhora. Lá no bairro onde moro, faz um ano que não passa o lixeiro. Mário Covas que está fazendo? Eles são do PMDB, e a cidade está completamente abandonada. Só o Jânio mesmo pra mudar esta situação.
- O senhor mora em que bairro?
- Eu moro em Vila Maria, lá na terra do Jânio.
E solícito, mais uma vez, tornou a me explicar, com todos os detalhes, como chegar até o Comitê do Jânio. Despedi-me deles agradecida, e me pus a caminho. Passei pela Rua Direita, em pleno movimentação das 14 horas da tarde, sem nenhuma daquelas minhas emoções antigas. São Paulo, pelo que sinto, já não me diz mais nada. Só me deu uma ligeira sensação de que me encontrava passando pela Av. Sete, do trecho entre a Piedade e o começo da Igreja de São Bento, em Salvador. Saudades daquele tempo em que eu andava a pé por tudo lá, mais nada.
2) Revi Sr. Wilson e Sra. Kaline, que me reconheceram e me trataram muito bem. Pedi-lhes material, e eles me atenderam o melhor que puderam. Voltei e passei em Itaquera, onde fui me oferecer para trabalhar para o Jânio lá. Me receberam muito bem. São pessoas simpáticas com quem creio vou me sentir muito bem trabalhando. Só que hoje eu furei com eles. Prometi-lhes que toda a tarde estaria lá, e hoje, por causa do meu problema do INPS não pude ir. Passei todo o dia lá no INPS, em Mogi das Cruzes, das 8:45 h da manhã até às 16:50 da tarde. Mas, graças a Deus, ao Gohonzon, consegui dar entrada na Caixa de novo. Devagarinho, com a ajuda do Gohonzon, tudo será resolvido. Eu só não quero perder a fé. Quero que Ele me dê força, coragem, saúde e disposição para eu poder dar conta de todas as minhas obrigações, para que possamos alcançar todos os nossos objetivos. E só com fé no Gohonzon e com a ajuda dele é que eu me sinto gente, e capaz de todas as realizações, de tornar possível todos os impossíveis. E que Lilinha tenha saúde sempre, meu Gohonzon. E cada vez mais. E que meus filhos sejam vitoriosos em tudo. O êxito deles é o meu êxito. Muito obrigada, Gohonzon. Namyohorenguekyo, namyohorenguekyo, namyohorenguekyo. Eu quero estar sempre com a cabeça como está agora: leve, sem nenhuma preocupação, e fértil e ágil para pensar e para agir. Ou seja, para escrever. Aliás, eu sinto que estou bem mais desembaraçada para grafar minhas ideias. Elas agora, estão sendo mais espontâneas e mais autênticas. Que, a cada dia, eu esteja melhor, até a completa perfeição. Já disse e torno a repetir: com a ajuda do Gohonzon, quero e vou ser a maior escritora e poeta brasileira. Quero ser reconhecida, reconhecida e admirada, não só pelo Brasil, como por outros países. Tenho certeza de que nasci pra isto. E não posso me decepcionar nem decepcionar ninguém. Quero ser o orgulho dos meus filhos, e de todas as pessoas que me conhecem. É tão gostoso poder escrever assim, como agora estou escrevendo: bem livre, e bem solta. Com domínio total sobre os meus pensamentos.
3) Fim de mês já. Amanhã já é 27 de setembro. Domingo, aniversário do Ita. 21 anos. Maioridade total. A semana que vem já começa outubro, e daqui mais três meses acaba o ano. E até lá, eu preciso decidir definitivamente o que fazer de melhor, com a minha vida. Se vou pra Bahia, ou se fico aqui mesmo. O Gohonzon é quem sabe. O que for melhor, que aconteça. Se eu ficar aqui, será só por causa da casa, e da política. Não sei... Até o fim do ano, inda tanta coisa pode acontecer... Quem sabe se as coisas ótimas e inéditas pelas quais seja melhor eu ficar por aqui mesmo? Quem sabe se coisas novas e inéditas que me empurrarão de vez para a Bahia? Só o Gohonzon é quem sabe. E que venha o melhor.
Clô
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