sexta-feira, 15 de março de 2024

CALVÁRIO

                                   Para Aoud Id

 

Podes viver sem mim, e eu também posso

Viver sem ter a ti, mesmo a morrer.

Deixemos pois, de acompanhar nossos destroços

Pois todo amor que nasce insão, igual ao nosso,

Não nos convém deixar sobreviver.

 

Podes viver sem mim, e eu sem teu vulto.

Devemos pois, poupar-nos desta vida

De andarmos pelo mundo sempre ocultos

Tendo que amar-nos sempre às escondidas.

 

Não precisas de mim, nem eu de ti.

Deixemo-nos então para nunca mais.

Esqueças que amando eu existi

Dando-te tudo o que a ninguém darei jamais.

 

Não faço falta a ti, nem tu a mim.

Então pra quê martirizar-nos sem razão?

É bem melhor do inevitável ver o fim

Cortando o mal com um pouco de antecipação.

 

Se o amor que dás, a mim se faz deficiente,

Se o amor que dou, a ti se faz desnecessário,

Melhor será que desistamos, mutuamente,

De irmos mais longe. De alongar nosso calvário. 

 

           Clotilde Sampaio

 

                    Brás, São Paulo, 1964 (livro cinza encadernado)

 

 

 

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