sexta-feira, 15 de março de 2024

A SÓS

          para Aoud Id


 Paramos tu e eu, bem juntos, lado a lado, 

Algo a cismar, algo a fingir, ambos embaraçados,

Um a sonhar, outro a sorrir, na noite fria, imensa,

De brancas cerrações, a cobertura intensa,

A derramar-se do infinito infindo, esparramado

À nossa frente, em nosso olhar, ambos extasiados,

Tendo a nos separar do mundo, uma cortina

Feita de alva e espessa névoa de neblina.

 

Que misturada à loura luz da lua se estendia

Sobre este mundo que, para mim, há tanto não sorria.

E naquele largo instante, de suprema beleza,

Vibrante, como eu, estava toda a Natureza.

Que lá, fora de nós, palpitava inquieta;

Deixando-nos a sós...

...Numa ilusão completa!

E os nossos seres, entrelaçando um só enleio,

Fez nos amar sobejamente em louco anseio.

 

E eu dei vazão a tudo que sentia,

Extravasando em ti o amor ardente

Que dentro da minha alma renascia,

Desejando ser só tua, eternamente.

 

E me senti até que enfim, vencida.

E essa altivez que com orgulho eu carregava,

Caiu por terra, e no chão, ei-la estendida.

E esta paixão que no meu peito se aninhava

Tomou-lhe o seu lugar, sem nenhum medo, sem receio

E no meu coração hoje domina decidida

A entregá-lo inteiramente, só a ti, todo assim alheio;

Desse amor estonteante que é só teu por toda a vida!

 

             Clotilde Sampaio

 

Brás, São Paulo, 1963. (livro cinza encadernado)

 

 

 

 

 

 

 

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