sexta-feira, 29 de março de 2024

03/10/85

XXVI – 03/10/85 – quinta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano.

 

1) Fui remexer as sobras de impressos políticos de campanha de 82 para Jânio governador e eis que, entre eles encontro uma relíquia: um poema de meu filho João com data de 11/06/80 quando ele ainda estava aqui em casa, e passava por uma séria crise existencial. E ei-lo, em papel timbrado, com o seu primeiro nome: João.

 

  Minha juventude está marcada, 

  Está tão abalada, já não dá mais pra seguir.  

  Meu sorriso jovem tão perfeito

  Hoje em dia está desfeito e

  Proibido de se abrir.

 

  E os meus cabelos longos me maltratam 

  E se acham embaraçados, 

  Envergonhados de surgir.

 

  E essa realidade me persegue

  Maltrata e consegue, 

  Já não posso mais fugir.

 

  E dentro da cidade

  A sociedade me destrói a mocidade,

  Estou só, quero gritar.

 

  Ah! Eu não quero andar arcado

  Como os homens preocupados

  Que não sabem mais amar.

 

  Também não quero ser jogado

  Para o lado, ficar só e isolado,

  Não podendo respirar.

 

  O que eu quero é Efigênia,

  E eu quero que Isabela

  Tão singela e tão bela

  Venha me libertar.

 

Ah! Meu filho, meu filho! Que saudade de você! Do seu vozeirão, do seu sorriso bonito, da sua simpatia, da sua bondade, e da sua beleza de homem tranquilo e bem másculo, ajuizado, brincalhão, ingênuo, inconsequente, às vezes. Ainda bem que você está aí na Bahia neste trono dos DEUSES, nessa sua legítima terra porque você também é um DEUS. Um DEUS daí da Bahia. E eu tenho saudades, mas não me preocupo. Você está bem. Em boas e grandes companhias. Melhores, não podem ser porque não existe nada melhor do que a Bahia e os baianos. Agora com Loreninha no colo então, e com Ari do lado, não lhe falta mais nada. Que vocês estejam sempre, cada vez melhor.

 

2) Fiz a perícia hoje com um médico muito bacana que me tratou duas vezes por “bem”! Me deu dois meses de licença, conversou carinhosamente comigo. Coisa rara. E coisa rara também foi em ficar livre logo às 9:30 horas. Entrei às sete e só esperei duas horas e meia. Graças a Deus que o INPS está melhorando. Os mesmos funcionários que antes eram animais agora estão se humanizando. Será por causa da NOVA REPÚBLICA? Será que isso perdurará? Oxalá que sim. Antes eles nos tratavam com nojo e com pouco caso. Hoje me trataram com simpatia e com carinho.

 

3) Cheguei quebrada. Já duas noites que não durmo direito por causa da Liliam que só tem dormido às duas da manhã. Queria dormir um pouco de dia para recuperar energias gastas. A casa estava muito suja e eu resolvi dar-lhe ao menos um ligeiro trato ao menos, primeiro. Depois, fui dar comida pra Liliam, fiz o arroz, troquei várias vezes a Liliam. E passou o tempo. Deitei-me um pouco à tarde com a Liliam que só ficou pulando. Não me deixou dormir. Soltei-a e logo vi que ela tinha feito cocô. Levantei-me, fui limpá-la, dar-lhe água, fritar batatinhas, dei janta e o remédio pra ela. Deitei-me pra ver SPTV e o horário político. Ela ficou solta, subiu no banquinho e caiu aquele tombo com tudo. Levantei-me de novo assustada para socorrê-la. Assisti ao Jornal Nacional. Roque Santeiro, Globo Repórter com planeta HALLEY. E é agora que estou indo dormir. Só agora, já mais de meia noite, como sempre. Ita chegou e me viu com os olhos vermelhos, irritados e ficou bravo:

  - Por que ainda não foi dormir? Vai dormir, mãe. Fica assistindo a televisão e estragando a vista. 

E se ele souber que estou escrevendo tudo isso com essa luz bem fraquinha do quarto, fica mais furioso. Ele se preocupa tanto comigo! Perguntou-me se eu quero vender a casa mesmo.

  - Se for pra mim me enterrar aqui é um ótimo túmulo. Mas se for pra mim viver, aqui não dá. 

  - A senhora precisa viver. 

  - Depende. De repente não é bem o que eu quero. Estou muito instável. Uma hora quero viver, na outra só quero morrer. De repente eu saio pra viver e não vivo, e quero me enterrar, e aí já não tem mais túmulo. 

 

4) Não passei nada bem o dia de hoje. Uma dor de cabeça, uma depressão, que tristeza. Foram as constantes. Lilinha, ao contrário, passou o dia inteiro e está elétrica. Super elétrica. Caiu dois tombos muito feios hoje.

      

                                                                          Clô

   

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