VI – 23/02/88 – terça-feira
1) “Fica difícil ter um filho em Salvador” título de uma reportagem de “A Tarde” de ontem. E eu digo: isso, enfatizem o aborto. Enfatizem cada vez mais o aborto. Só assim a vida humana terá, como já está tendo, cada vez menos valor.
VII – 24/02/88 – quarta-feira
1) “Na primeira vez eu saí... na segunda vez, eu saí...Agora, na terceira vez que enche, eu achei melhor ficar e morar aqui.” Declaração de uma moradora de Mapé, em Duque de Caxias, RJ, ao resistir o perigo de enchente em sua casa.
2) Nasceram hoje duas meninas normais, de peso, tamanho e saúde normal, filhas de uma aidética que também está bem, mas possui o vírus da Aids. Isto levou o Secretário de Saúde da Bahia a dizer que reforça o pedido de aprovação ao aborto na Constituição ora sendo feita. Disse que a Constituição deve ser reformulada visando a aprovação do aborto também neste caso. O aborto está aí livre, livrinho, totalmente à vontade de quem quiser utilizá-lo em toda e qualquer suposto motivo que o justifique. Principalmente aqui na Bahia. Este estado que quer continuar abolindo todas as crianças assim como já aboliu todos os cachorros. Coisa mais rara de se ver aqui é um cachorro. Criança, por enquanto, ainda se pode ver algumas raras crianças. O que daqui a bem pouco, será tão rara ou mais até que os cães hoje. Criança e cachorro aqui na Bahia não têm vez. Criança, cachorro e gato, aqui, são seres não gratos. Estão em fase de extinção.
3) Consagração do Gohonzon de Janete hoje. João e Ica foram para lá. Ita só tem 1 mil cruzados. Eu ainda tenho quatro e oitocentos. Não almocei. Mas tive vontade. Mas preciso resistir à tentação. Não posso me exceder. Já ontem me excedi comento um acarajé. E domingo passado idem comendo aqueles churrasquinhos e peixes e cervejas em Clarindo e a feijoada no almoço de Ari. Nata é do que eu mais gosto. E hoje pude aproveitá-las todas. Ita já viaja domingo. E aí, só no meio do ano para voltar a rever-nos. Gostaria de comprar esse apartamento do Edifício Monet. Ou então o das Sete Portas. Não vejo nada demais lá. Só eles aqui, João, Ari, Ita, são quem vê. Para mim, qualquer lugar aqui na Bahia, é bom. Basta-me estar e ser na Bahia. Quem seremos nós, eu, Vitória,
João Vitor até o fim do ano?
4) Não vejo a hora de termos a nossa casa e poder assumi-la toda, direitinho. E termos o nosso espaço e a nossa liberdade. E dar espaço a Ari e João e devolver-lhes a sua liberdade. Fazer bolos deliciosos de aniversário para vender. Docinhos de festas, salgadinhos, tortas. Costurar todos os tipos de roupas, e objetos e peças de decoração como cortinas, lençóis, fronhas, almofadas, bolsas. Vender roupas. Ir pra Portugal. Fazer tanto. Escrever. Fazer cursos. Qualquer coisa eu faço para continuar nesta Bahia.
5) Ontem, reunião de Daimoku-tosso aqui; Walter, chakubuku de Janete,comentou com Zé Airton, e este comentou com Ari, que nós, os familiares do João, estamos muito desanimados. Eu tenho rezado. Para livrar as barras deles e minha. Vitória e Ita é que nem isso estão fazendo. Eu só não tenho ido nas demais reuniões nem falado nada na daqui. Prefiro ficar quieta a falar sem convicção, ou o que não deve ser falado. Não sou japonesa nem ganho nada para ficar falando bobagem só para puxar saco desta porcaria de organização. Contra o Gohonzon eu não tenho nada, e muito pelo contrário, tenho tudo de bom para dizer. Mas não é o que eles querem. Então, já que não posso falar em favor só do Gohonzon, também não me verão falar a favor só da organização, inventando coisas e mentindo para agradar quem quer que seja contrariando a minha vontade.
6) Um LUME, um ligeiro, um simultâneo LUME do verdadeiro estado de buda, é o que é o livro “ILUSÕES” de Richard Bach. É o que Richard Bach com seu elevado estado de vida e elevado grau de espiritualidade pode captar da imensidão infinita do universo para nos presentear. É a nossa Bíblia, minha e do Ita. Até aqui, inda não vi ensino tão alto. É tão alto que ainda não tenho altura para praticá-lo. Estou muito aquém ainda da altura necessária para pô-lo em prática. Embora vislumbre nele melhor altura que no Budismo, me vejo obrigada a permanecer no Budismo. pois ainda não estou bastante capacitada a subir de grau, a passar de ano, a subir degraus. Bem mais altos ao que ainda estou.
7) Não posso deixar de praticar. Sou muito frágil. Qualquer coisa me atinge. É só eu falhar de praticar mesmo uma vez e demônios me possuem. Eu só gostaria de ter uma explicação. Por que isso? Por que precisar ficar a vida inteira dependente de uma religião, e agora do Budismo? Por que não posso ser também como muitas pessoas que nunca tiveram nem religião e vivem tão bem, só por si próprios? Só há uma coisa que eu admiro, invejo e gostaria de ter é isso: uma completa independência de toda e qualquer coisa a esse respeito.
Salvador, Clô
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