terça-feira, 26 de março de 2024

TRAGÉDIA

De repente

Me falta toda a motivação da vida.

O que tinha que acontecer

Já aconteceu.

O que ainda não aconteceu

Não precisa acontecer mais.

Eu não tenho mais esperanças

Eu não tenho mais paciência

Para nada.

Eu não tenho mais nada. 

Nem vida, nem tempo para esperar

Por mais nada.

É agora.

Tudo tem que ser agora, já.

Não pode passar de agora.

 

Minha cabeça gira, gira, gira,

Numa simultânea e violenta rapidez

E só para num alvo.

Torna a girar, girar, girar,

E eu só vejo um alvo.

Gira, gira, gira, gira de novo,

E eu só tenho mesmo um alvo:

MATAR-morrer.

 

Matar bem matado.

Morrer bem morta.

É tudo e só, o que eu ainda tenho pra fazer.

 

Preciso acabar já

Com essa coisa

Que está fora de mim, e que acabou comigo.

E que não tem mais jeito.

E é agora.

Só tem de ser agora.

Não pode passar de agora.

Precisa devolver com tiros

O mesmo número de facadas

Que essa coisa em vinte anos

Usou para me matar.

E para isso, dez metralhadoras não bastam.

 

Pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum

Pum-tshitshitshibuuuuum!!!-pum-pum-pum-pum-pum-

Pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum-pum

Etc., etc., etc., etc.,

Infinitos, infinitos puns.

Que pena. Acabou.

 

E agora que ele está aí caído

Tão frescamente perfurado

Quanto eu já apodrecida

Pois, de há muito, e por muitas vezes

Fui, tenho sido, e estou retalhada

E que eu tenho absoluta certeza

De que ele está tão morto quanto eu,

Só falta um último tiro.

Potente, ligeiro e certeiro, calibre 38

Para me matar melhor

Para me deixar bem morta.

Para me tirar definitivamente desta besta vida.

Para me dar a infalível certeza

De que eu também já estou bem morta.

Mortinha da Silva Xavier.

 

Tem que ser na cabeça.

E tem que ser bem no ouvido.

Isto. Boca do revólver, com a boca do ouvido.

Virado pra cima para estourar os miolos.

Bem encostadinhos, bem certinho

Para não errar.

Assim:

Pooouuum!!!...

Tshitbuumm!!!...

 

Pronto.

Agora, sim!

Enfim, estamos iguais. 

E esta coisa tão querida,

Tão idolatradamente amado, 

Tão sadicamente malvado,

Tão desumanamente humano,

Finalmente, é todo meu.

E só agora

Calmamente,

Posso começar uma nova vida!!!

                    Clotilde Sampaio 

                                                 Salvador, 04/12/1983.

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