quarta-feira, 20 de março de 2024

27 março 1988, Mogi das Cruzes, SP.

XIX – 27/03/88 – domingo, Nova Mogi, Mogi das Cruzes, SP.

 

1) Ô sonho doido sô! Um cemitério chinês subterrâneo. Tínhamos que descer por escadas toscas de madeira e corda com patamares largos e estreitos que, ao mesmo tempo, eram elevadores puxados por tração humana. Um perigo, e não só isso, amedrontador. Descíamos sem qualquer segurança para um subterrâneo só terras, escuro e macabro, onde já lá existiam outras pessoas tanto chinesas, como judias, árabes, e brasileiras como outros enterros. Só que os mortos não eram definitivamente enterrados ali. Enterravam-nos ali só por algumas horas naquela terra negra. Eram enterrados ali nus, depois de algum tempo ali enterrados, eram retirados e ainda sujos de terra, eram retirados e queimados. E nem todas as pessoas que estavam ali estavam acompanhando seus mortos, nem visitando-os. Mas sim, estavam ali mais para participarem de rituais de magia negra, o que ali era uma constante. Pelo chão, já desenterrados, sujos de terra, nus, e ainda vivos, pois respiravam e ainda se mexiam, os corpos de algumas crianças renascidas mas jogadas ali pelo chão, sem o cuidado de ninguém, completamente ao léu, como se nada fossem, e eu perguntei: - E esta criança? Já foi enterrada? Vai ser enterrada? Disseram-me que não, como desculpa. – Mas como não? Ela está toda suja de terra, como se já tivesse sido enterrada e desenterrada? Deram de ombros, e não me responderam nada nem deram a mínima. – Mas ela está viva, ainda respira e está se mexendo? Vocês não vão salvá-la e cuidá-la? Vão queimá-la assim viva mesmo? De novo, nem se importaram nada com o que eu me preocupava tanto, e nada me responderam. Olhei para outros lados, e para todos os outros lados que olhava, via a mais distância de mim, outras crianças jogadas pelo chão ainda vivas, sujas de terra mas, com o nariz, os olhos e a boca entupidos de terra numa luta para ainda sobreviverem sem que ninguém se importasse com elas em nada, como se já estivessem mortas, o que aliás já estavam mesmo mais que oficialmente mortas, só à espera de que alguém lhes jogasse gasolina sobre seus corpinhos vivos e ateassem-lhes fogo. E vi que a norma ali só era essa mesma. Revoltei-me com isso, mas também acabei, como os outros, me conformando, me acomodando, e deixando tudo como estava, não mexendo um dedo para mudar nada, e achando até tudo muito natural, aquela aberração assim mesmo como era e como estava. Só tive medo de novo, quando ao sair dali por aquela escada/elevador perigosa, vi uma pessoa ficar toda enrolada entre as cordas e pareceu-me que ia descer toda esmagada. Fiquei com medo que isso fosse acontecer comigo ou com um dos meus que estavam comigo, o que era mais propenso a acontecer com qualquer um, que deixar de acontecer. E cada vez mais desciam pessoas, principalmente mulheres de caras esquisitas, vestidas de branco ou de negro, e lá dentro caiam em transe, dançando, pulando, e caindo ao chão, e gritando, e não sei mas me pareceu que aquelas crianças vivas ainda estavam ali para serem queimadas, ou para fazerem parte como inocentes vítimas deste horrendo ritual macabro. Pois me chegou parecer que as pessoas em transe as pegavam do chão, mordiam-lhes, comiam-lhes pedaços e arrancavam gulosamente suas partes, eufóricas, e felizes com aquele festival de sangue. Cruz-credo! Crê-em-Deus-Padre!

 

2) Que dia lindo! Aqui na Nova Mogi hoje, um dia explendorasamente explêndido!  

 

3) Não estou nada contente com a Jussara. Ela está se aproveitando tanto de mim, como da Vitória, como do Ita. E eu não gosto disso. Não gosto de nenhum dos meus filhos tirando partido ou proveito de qualquer dos outros irmãos. Eu gosto sim que eles sempre se deem as mãos, que sempre um ou todos amparem aquele que está mais carente, mais precisado. E não é isto que a Jussara está fazendo. Querendo tirar proveito de quem tanto a ajudou sem interesse de nada e que no momento é quem está em pior situação de todos. Isto não se faz. E fico até com vontade de chorar por ver, da parte de um dos meus filhos, como estou vendo dela, tanta ingratidão para com a Vitória e para comigo, e para com o Ita. O Ita deixou ontem o carro comigo para eu ir onde bem entendesse. Eu lhes cedi para fazerem compras. E eles se apoderaram dele de vez, e eu estou aqui, sem carro e sem ir para lugar nenhum até agora às 13:15 horas. E nada deles nem aparecerem aqui. 

 

4) Ultimamente tenho sonhado muito com morte e com mortos-vivos, por que será? O primeiro, eu mostrava para Dona Augusta um morto que não estava morto, mas que era só um boneco com cara de pessoa que ela supunha estivesse morta. O segundo, eu estava morta conversando com outros mortos também importantes, que eram todos, inclusive eu, mortos da Academia, a Brasileira de Letras. E o terceiro, este desta noite do cemitério chinês com as crianças que eram enterradas e desenterradas ainda vivas. Esquisito. Mas deve ser muita vida para todos nós. Graças ao Gohonzon. Só que eu não gosto de sonhar assim só para não ficar com imagens feias na cabeça. Quero a partir de hoje, só sonhar com coisas bem lindas, sim, Gohonzon? Namyohorenguekyo, namyohorenguekyo, namyohorenguekyo.   

 

                                        Clô 

 

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