Setembro de 1985 - Jardim Monte Cristo, Suzano – SP
*(tentado decifrar longo trecho rabiscado por cima para dificultar ou invalidar qualquer leitura). Tudo em papel de embrulho dobrado em oito partes verticais e duas horizontais, todo escrito frente-verso. Tem um buraco no centro de uma das partes e alguns trechos rasgados na lateral.
Estou tentando todos os meios para sobreviver. Mas não sei... Não sei se conseguirei vencer esta crise existencial. Faz três anos já que luto com ela. Quando penso que já a venci, desperto-me vencida. Estou cansada. Desanimada. Enfraquecida. Não sei por que ele me suporta nem por que persiste. Se eu tivesse praticado todos os crimes mais hodiondos, seria até justo que eu me sentisse assim nesta depressão, neste desespero, nesta ansiedade de falar em morrer, nesta necessidade de morte. Não tenho mais fé em nada, estou completamente céptica de tudo. Todas as coisas em que acreditei conseguiram o impossível de me decepcionar. Vida é movimento. Seja para o que for, seja pra bem, seja pra mal. Eu, de há muito, deixei de ser vida. Só sou uma estátua estática. Nem meu cérebro se mexe mais. E eu nem penso. Só vou fazendo as coisas por fazer, maquinalmente. Sem paixão, sem emoção, sem condição, inconstante há dias comigo mesma. Só comigo mesma.
Clô
* Nota da digitadora Vitória Régia em 25/03/24.
Nenhum comentário:
Postar um comentário