XIII – 25/09/85 - quarta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano – SP
1) Outra viagem perdida. Também saí de casa às 11 horas. Quando teria que estar aqui no INPS às sete. Negligência minha, sempre. Quando será que eu tomo jeito? E deixo de ser negligente, relaxada, abusada? Sempre acho que todo mundo tem obrigação de me esperar. De ficar me esperando. Chego sempre atrasada em tudo, na vida. Gostaria de ter nascido lá pelas décadas de 20 ou 30 para ter vivido e desfrutado de outros tempos, bem diferente dos de hoje, e bem mais de acordo comigo. Tempos estes em que havia mais poesia, mais romantismo, mais respeito e que a mulher era muito, mas muito mais valorizada. Por exemplo, gostaria de ter sido contemporânea de Mário de Andrade. Gostaria de ter nascido numa família e lugar bem melhor. Na Bahia seria o ideal. Ou no centro de São Paulo, ou do Rio. Por que não nasci numa família culta, tradicional, rica? Não. Fui nascer junto a uma família da Idade da Pedra, cujo atraso e ignorância quanto maior, melhor. Cultivadora de ignorância, de misérias, e de imbecilidades, em tudo o oposto do que eu gostaria de ser. Eu sei que o corpo, abaixo de Deus, são os pais quem nos dão. Mas o espírito não. E o meu espírito nunca combinou, nunca teve a menor afinidade com aqueles a quem tive por pai e mãe.
2) Pus a carta do Capitão Expedito no correio. Agora é esperar para ver o que vai dar. E seja o que Deus quiser.
3) Estou indo para São Paulo. Quero aproveitar esta tarde perdida, e ir até o Comitê Central do Jânio, ver o que é que eu posso fazer para ajudar na campanha dele, se puder fazer alguma coisa. Já que não posso votar pra ele, pelo menos quero trabalhar pra ele. Se nem isso for possível, estou indo pelo menos dar um passeio em São Paulo. Conhecer o Comitê dele, e relembrar e matar saudades de velhos tempos. Velhos e bons tempos de minha juventude. Quem sabe encontro alguém importante que eu conheço? Farabulini Jr, por exemplo? Quem sabe dou sorte e ele me propõe algo bastante conveniente? Às vezes, quando a gente menos espera é que acontece as grandes coisas. Estou jogando minha última cartada. Quem sabe ganho? Guaianases está tão bonito. Mudaram tanta coisa aqui ao redor da estação que ficou bem mais bonito que Itaquera. Outra favela aqui em Quinze de Novembro que eu nunca tinha visto. Que situação!
4) Me faz tão mal passar aqui em Itaquera. O ar daqui é irrespirável. Fico sufocada, engasgada, com um nó no coração. Vamos logo, trem. Senão, eu não aguento e morro asfixiada. Tem gente aqui que pensa ser o dono do mundo, quando não é dono nem da própria felicidade. A felicidade dele, está aqui, olha, aqui em minhas mãos. Basta eu decidir, e desmorona tudo. A felicidade que ele usufrui, ele me deve. Pra mim passar aqui, e não sentir nada, preciso fazer de conta que não estou passando por aqui. Por isso é que eu gostaria de ir embora o quanto antes pra Bahia, pois lá nada me lembra ele, nem os malefícios que exalam dele. Lá eu sei que vou continuar mais jovem e viver mais tempo. O metrô já está chegando em Arthur Alvim. Não quero alcançar o metrô em Itaquera, não. Está mudando tudo aqui em Arthur Alvim também. E justo no lugar que sempre foi mais feio, logo terá outra visão mais bonita e nova.
5) Engraçado. Jânio ainda não tem vice. Se tem, ainda não sei. Quem será o vice de Jânio? Também, até que ele nem precisa. Ele sozinho já vale por todos os nomes que estão aí.
6) Enquanto eu viver, não quero parar. Muito embora a minha tendência atual seja mais para parar de vez do que continuar. Preciso reagir e lutar contra esta tendência. Preciso arranjar, urgentemente, uma motivação que me empuxe ou que me impulsione para a frente.
Clô
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