Para Aoud Id
Pareço ver-te a rir das minhas desventuras,
Sorrindo a bom sorrir, em largas gargalhadas,
Mostrando, a quem quer ver, o céu da tua boca.
Se sorrir te faz bem, ó insensível criatura,
Alegra-te e aos demais, faça de mim piadas,
Que eu só farei chorar. Pudera! Se sou louca!
Querendo a ti, como tu és: volúvel, frio!
Pareço ver-te a desfazer disto que sou
Com pouco caso, com mentiras, com traições,
Deixando só meu coração sem ti, vazio,
Correndo atrás de uma miragem que passou
Buscando abrigo dentro de outros corações.
Pareço ver-te a sobraçar vagos afetos
Indiferente a tanto amor que te dedico.
E, à mostra, tens teu coração de alma repletos
De ingratidões que, só de ver, sofrendo eu fico.
E, a gargalhar da minha dor, pareço ver-te
E, embora imóvel e revoltada, eu não te largo.
Tudo eu prefiro ao desespero de perder-te
Mesmo sabendo que és, para mim, o amor amargo.
Clotilde Sampaio
Brás, São Paulo, 1965. (livro cinza encadernado)
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