XXVIII – 05/10/85 – sábado - Jardim Monte Cristo, Suzano.
1) Um rebu. Matilde que foi pro hospital com hemorragia e que até agora não se sabe notícias. Ita foi lá ontem à noite na Santa Casa. E só ficou sabendo que ela está bem. Não perguntou o que ela teve, não perguntou a que horas eram as visitas. Enfim, quase nada se sabe sobre ela. Está um sol lindo imitando o da Bahia. Não tem leite, não pão, nem açúcar, nem óleo. O Ita está dormindo ainda agora às nove e meia. Lilinha já está de há muito acordada, e está com fome. Vou emprestar mais um pouco de óleo da Miriam e fritar uns bolinhos pra ela tomar com chá, porque se for esperar que o Ita levante pra ir na venda, o café da manhã não vai ser hoje. Miriam me empresta o óleo. Peço-lhe se pode me fazer o chá porque eu não sei fazer bem chá. Ela faz, frito os bolinhos, troco a Liliam, dou-lhe remédio, dou-lhe e também tomo os bolinhos com chá. Agora quero aproveitar este sol. Vou por um maiô e tomar banho de sol com a Lilinha. Estamos tão brancas que até dá vergonha.
2) tomo meia hora de sol pela frente e quando me preparo para tomar o sol por trás, chega a inquilina da Miriam contando o ocorrido com a Matilde. Disse que ela começou a sentir-se mal por volta das dez horas da noite, de repente começou a por pelotas de sangue sem parar, e era tanto sangue que ela nunca viu coisa igual. Ensopou lençóis, toalhas, a casa toda. Parecia que tinha matado um animal e espalhado sangue por toda a casa. Ela mandou que o marido viesse aqui avisar às quatro da manhã, quando ele vinha pro serviço, mas ele é um bobão que não sabe avisar nada direito. Ficaram esperando até o dia clarear e nada de vir ninguém dos avisados. Mal o dia clareou, mandou o filho dela com o Alexandre vir avisar de novo, e chamar a Dinorá para ir lá que a mãe dela estava muito mal. Assim que a Dinorá chegou e viu a mãe dela no estado que estava, quase morta, ficou até sem fala. E a vizinha mandou chamar um vizinho que tem carro pra levar a Matilde até a Santa Casa. Ele perguntou se ia alguém com ele, ela disse que não. E que ele não podia ir porque precisava ir trabalhar. E que era pra ele levá-la assim mesmo até o hospital que lá eles dariam um jeito. Matilde deve ter chegado no hospital às seis da manhã. E às nove horas, quando ele passou lá pra saber dela, ela ainda estava sentada no banco, lá fora sem ser atendida. Daí pra cá, ela não sabe mais o que aconteceu. Ela não sabe explicar bem o que aconteceu mas foi uma espécie de hemorragia. E ela veio aqui pra saber notícias porque foi muito feio o que aconteceu.
3) Lilinha que está se bronzeando aqui comigo semi-peladinha ( só com a calcinha do biquininho) devido à alta temperatura do sol, começou a ficar nervosa e teve início a baixaria. Começou a bater na boca e a se morder. Esmurrou tanto a sua própria boca que logo começou a verter sangue. Tratei de mais que depressa prender-lhe e tirá-la do sol. Prendi-lhe os bracinhos, pus-lhe só a calça plástica sobre a calcinha do biquininho e levei-a para dentro do berço de dentro da casa da Miriam. Deitei-me outra vez, de costas para o sol, enquanto a inquilina da Miriam falava sobre a Matilde, com a Miriam no portão. Vi que a mulher estava enfática falando, mas não dei muita atenção para o que ela me fazia ouvir. Tem gente que é muito exagerada ao contar as coisas, pensei. Afinal, a regra é essa: quem conta um conto aumenta um ponto. Mas nunca é só um ponto. É bem mais. Depois, a Miriam já estava ouvindo, pra quê eu me preocupar em ouvir? Depois é lógico que ela me contaria. E foi o que ela fez. A mulher deixou-a deveras impressionada. E ela veio me contando chorando, de forma que também me impressionou.
- É, o negócio ontem com a Matilde foi muito feio. Disse que ela foi daqui quase morta. E que nunca em toda a vida dela, ela viu nada igual. E a gente aqui sem ter feito nada. Até agora sem saber de nada. Como é que ela está, isto se ainda ela está, porque pelo jeito que a mulher veio contar, pode ser que ela nem viva esteja mais. E derrubou no choro.
- Que isso Miriam, lógico que ela está. A gente tem que pensar positivo. Pensar negativo não resolve nada. O Ita foi ver ontem e disseram que ela está bem.
- Mas ele não viu ela. A gente precisa ver ela. Os outros nem sempre informam certo.
- É só a gente ir lá. O ruim é que a gente não sabe a hora da visita, mas vamos assim mesmo. Se chegar e puder visitar tudo bem. Se não, pelo menos a gente sabe dela. Deve ser lá pelas três horas...
- A gente pega o ônibus vinte pras três.
- Tudo bem.
- É só encher a barriga das crianças e sair.
Esquentei a comida, dei feijão com arroz, com ovo pra Lilinha, que comeu quase tudo. Peguei a Lilinha e eu e viemos nos trocar. Estávamos quase peladas. Eu só de maiô e Lilinha sem fralda. Sem tomar banho mesmo. (E devia, pois havia suado sob o sol... isso sem contar que já faz duas semanas que eu não sei o que é chuveiro. Exagero? Não. Preguiça.) Pus meu conjunto de jersey florido de perto que eu trouxe da Bahia. Uma sandália velha preta mas boa que a Matilde trouxe, e eu acho que pra Dinorá. Uma sandália até um pouco alta mas confortável porque de linha já dilatada pelo muito uso. Fui pegar os dez mil cruzeiros que o Ita me deu na quinta-feira à noite e cadê o dinheiro? Qual dinheiro o que. Jussara deve ter pegado. E os trocadinhos de 1.700 que eu trouxe de Mogi, também. Puxa vida. Eu que pensei que tinha dinheiro e estou a zero. Só se a Miriam tiver e me emprestar pro ônibus. Se não tiver iremos a pé. E olha que ir daqui à Santa Casa de Suzano a pé não é bolinho. Miriam disse que tinha e me emprestava. Mas estávamos saindo daqui quando o ônibus passou. Perdemos o ônibus e eu xinguei o Eduardo.
- Por causa de vocês que não prestam pra nada que a gente perdeu o ônibus. Agora, até chegar lá a pé, se tinha, já não vamos alcançar mais visitas. Só vamos lá pelo saber. Mais nada. E fomos mesmo a pé e bem depressa até lá, tencionadas a saber dela o quanto antes. E, se possível, visitá-la.
Clô
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