sábado, 30 de março de 2024

04 10 85

XXVII – 04/10/85 – sexta-feira - Jardim Monte Cristo, Suzano.

 

1) O maior tesouro que eu poderia ter, o maior tesouro que você poderia me dar, eu já tenho, e você já me deu os meus filhos. Ita e Jussara. Nem toda a riqueza que você tem, nem todo o tesouro que há no mundo, valem estes dois, mais outros dois filhos que eu tenho. Íntegros. Inteligentes. Destemidos. Esforçados. Compreensivos com qualquer tipo de pessoa. Adaptáveis a qualquer tipo de ambiente. Populares, amados por todos. Ah! Se você fosse digno da dignidade e do valor que eles possuem como seres humanos. Você não sabe quanto você perdeu, e quanto está perdendo. Mas um dia você vai saber.

 

2) Ita perdeu a hora hoje. Acordou, já eram nove horas. Ficou furioso. Preocupado. Apreensivo. Nada contente. Disse que veio uma pessoa de madrugada pedir-lhe que levasse uma senhora que não estava passando bem no hospital. E ele disse que não tinha gasolina. Não estava bem acordado e não saiu pra fora. Não soube quem era.

  - Deve ser a Tereza. Ontem ela não estava passando bem. Estava grávida, tomou remédio para abortar e quase morreu. Deve ser o marido dela quem veio aqui. Ela deve ter ficado pior. Boba, vai fazer bobagem... Ficou grávida? Tenha o filho, ora. Só porque está velha e os outros vão reparar e falar? Que reparem, que falem. Ninguém tem nada com a sua vida. Alguém vem te trazer comida? Alguém vem aqui te ajudar em alguma coisa? Vem saber, se preocupando, se você está bem ou está mal? Importa é a vida do nosso filho. Importa é a nossa consciência. Importa é a conta que teremos que prestar a Deus. Um filho é o que há de mais importante que existe. Foi o que eu disse a ela ontem e muito mais. 

  - Eu vou chegar lá e vou dar essa desculpa. Que alguém, um cara, veio me acordar esta noite para levar uma senhora no hospital e eu fui levá-la e cheguei de madrugada. Fui dormir e perdi a hora. Que a senhora acha? Só que eu não gosto de mentir. Mas é o único jeito. Se eles acreditarem, tudo bem. Se não, que me mandem embora. Vou rezar. Só porque a gente não reza é que acontece tudo errado. Vou rezar pra me sentir mais confiante. No fim, eu falto. E ainda saio bem. Os meus oponentes é que ficam contentes quando acontece isso. e chegando atrasado, eu perco o domingo e qualquer oportunidade de promoção já fica mais difícil.

Rezou. Mandou que eu e a Jussara (que também perdeu a hora) empurrássemos o Fiat e saiu. Disse que iria entrar depois do meio dia e que antes ia levar o Fiat pra ser consertada a parte elétrica. Jussara ontem não foi à escola. E hoje também não foi. Ficou furiosa. Será que Dinorá não se lembrou de acordar ninguém hoje? Falei pra Jussara:

  - Acho possível que ela não tenha nos chamado. Mas acho também impossível que ela não tenha nos chamado.

Temos que levar Lilinha no médico. Será que iremos? Já é tão tarde e eu nada fiz. Só estou aqui assistindo o HOJE. 

 

3) Agora está explicado: o cara que o Ita disse ter vindo bater aqui pra levar uma mulher no hospital, deve ter vindo por conta da Matilde. Agora à tarde, Eduardo foi lá na casa dela e voltou com um recado que Dinorá não virá para casa hoje porque vai ficar lá na casa da mãe dela com as crianças, porque a mãe dela passou muito mal, foi para o hospital, e acabou sendo internada. Miriam disse que a Matilde ontem tinha passado aí para pedir para a Norá ir ficar lá com as crianças hoje porque ela já fazia dois dias que não trabalhava, estava sem dinheiro, e hoje tinha uma casa muito grande pra limpar e não ia dar para ela levar as crianças na creche. E que a Miriam achou que ontem ela estava meio esquisita. Eu fiquei triste também com a notícia e comecei a contar pra Miriam sobre o homem que veio aqui esta madrugada, etc. etc. etc. E que eu até pensei que fosse o marido da Tereza. Miriam começou a chorar. Juntei os fatos: Ita disse que esse homem veio de madrugada e que de madrugada Dinorá estava acordada. Então ela deve ter saído de madrugada pra casa da mãe dela e por isso não deu pra acordar ninguém, como ela sempre faz. Acho que nem ela foi na escola então. Eduardo confirmou que ela disse que não tinha ido na escola. Que custava o homem dizer que se tratava da Matilde que estava doente? Que custava também Dinorá ter acordado alguém, ou mesmo o Ita que já tinha acordado pra dizer que a mãe dela estava doente? Se o Dudu não tivesse ido lá eu não ficava sabendo. Se a gente soubesse que era a Matilde que estava doente a gente teria dado um jeito e teria ido com ela nem que fosse a pé. Eu estava certa que Dinorá estava na escola. Miriam disse que ela hoje viria meio dia e meia. Já passam das duas. Mas até as quatro que ela demorasse, eu ia pensar que ela ficou fazendo alguma coisa na escola, e não iria ficar preocupada. Passando daí, e ela não vindo à noite, nossa! Seria um Deus nos acuda. Nem quero pensar o que seria ser. Inda mais com esses caminhos, perigosos, com estes tempos que só tem marginais, eu tanto iria pensar as piores coisas como iria ficar completamente aflita e não conseguiria dormir a noite inteira. Ainda bem que o Dudu foi lá. E que Matilde se recupere logo. Coitada. Que karma pesado que ela tem. Criar quatro filhos pequenos sozinha já com quarenta anos. Se matar de trabalhar para não deixar faltar o principal para os seus filhos. É uma sofredora. E uma heroína. 

 

4) O Alexandre apareceu aqui, agora de tarde, com uma nota de cinco mil cruzeiros. Dizendo que a tinha achado no caminho da escola, pedindo pra Miriam trocar pra ele. Ela não trocou e aconselhou que ele desse pra Norá, que a mãe dele estava doente e que poderia fazer falta. Ele disse que não. Que a mãe dele tinha bastante dinheiro, e que sabia já que ele estava com aquela nota. E disse que iria trocar na venda pra comprar tudo em doce. A Miriam veio me contar tudo isso.

  - Ele ainda está aí?

  - Está lá no portão, disse o Leandro.

  - Então vou lá e vou pegar dele. Onde já se viu um menino irresponsável e sem consciência pegar cinco mil cruzeiros pra gastar à toa. A mãe dele faz tanto sacrifício para criar ele e ele não reconhece. Cinco mil cruzeiros pra quem não tem fez falta. E ainda mais a mãe dele estando doente. 

Saí pra fora, ele estava no portão, fui perguntando logo.

  - Você está com dinheiro? Ele então me mostrou. 

  - Me dá aqui. 

Ele me deu, e diz o Dudu que ele saiu chorando, pensando que eu tinha tomado o dinheiro dele. Entreguei-o à Miriam que o mandou para a Dinorá com um bilhete perguntando sobre o estado da Matilde. Dinorá mandou outro bilhete de resposta informando que, o Alexandre veio de manhã aqui, avisá-la que a mãe dela estava passando muito mal. Ela saiu daqui às seis horas, e quando chegou lá a mãe dela estava branca como uma cera, tivera uma hemorragia, ensopando um lençol, duas toalhas, e mais algumas peças de pano com sangue. Não aguentava nem parar em pé, já tinham arrumado gente pra levá-la ao hospital. E que devia ter ido para a Santa Casa, onde ficou internada. 

  - Se ela tem INPS por que não foi para o São Sebastião? Não sei por que ela gosta tanto da Santa Casa. Se o Ita chegasse cedo, a gente iria lá visitá-la; não sei que horas o Ita vai chegar. Nem sei se vai trazer o carro.

 

5) Sete horas da noite. Um ronco de Fiat. É o Ita chegando. Miriam abriu-lhe o portão e informou-lhe sobre a Matilde. Ele entrou perguntando:

  - Quer dizer que a mulher que estava doente era a tia Matilde?

  - Era. E você nem se mexeu pra fazer nada. 

 

  - Mas eu ia saber que era ela?

  - Mas em caso de doença a gente tem que socorrer, seja lá quem for. Não é só ela, fosse quem fosse, você tinha que fazer o que fosse possível, e até o impossível. De repente, é um caso grave de vida ou morte e, por omissão da gente, a pessoa morre. E daí? A nossa consciência como fica?

  - Mas eu estava com muito sono. Por isso nem saí lá fora. 

  - Mas devia ter saído. E ter sabido quem era e ter socorrido. Se alguém vem falar de doença é porque é sério. Ninguém brinca com doença. E se fosse a gente que precisasse? Num caso desse a gente deixa o sono de lado, os receios de lado, a comodidade de lado, e corre socorrer quem precisa. É um caso de humanidade. É uma prova de humanidade. 

  - E ninguém foi lá ver a tia como está?

  - Ir como? Se eu só fiquei sabendo agora à tarde e só agora de noite que eu souve que ela está na Santa Casa? Precisa você ir lá.

  - Eu não posso ir. 

  - Não pode ir por que?

  - Eu tenho um compromisso.

  - Compromisso com quem?

  - Com a turma da Papelão. 

  - Puxa, Ita, é um caso de doença. Não pode ser deixado de lado. Não pode ser deixado para amanhã. Tem que ser hoje. A gente precisa saber como ela está. Se está melhor, se já está bem. 

Ele tomou um banho rápido, e enquanto se vestia disse:

  - A senhora também, por que não foi lá? Deixa tudo pra mim. 

  - Ir lá como?

  - Pra ir no Comitê do Jânio bem que a senhora pode. Bem que a senhora via. E como que pra visitar a tia não pode?

  - Você pensa que é fácil sair de casa assim a qualquer hora sem carro? E com quem eu iria deixar a Lilinha?

  - E a Norá?

  - A Norá está na casa da mãe dela olhando as crianças. Não vai vir pra casa hoje. E ela hoje nem foi na escola. Desde cedo que ela está na casa da mãe dela.

  - Por que não trouxe as crianças pra cá? Devia ter trazido as crianças aqui pra casa. 

Não lhe respondi nada. Apenas fiquei pensando: trazer aquelas crianças pra cá? Só em último caso. Não tenho paciência pra aguentar aquelas crianças, ou seja, mais crianças. Tem dia que quase não aguento nem a Liliam, quanto mais aquelas crianças arteiras, choronas e barulhentas como é o Alexandre, a Domitila e a Vanessa. 

  - Que horas são?

  - Sete e quinze.

  - Eu vou lá.

  - É bom mesmo. Precisa saber como ela está. O que ela teve. E se está precisando de alguma coisa.

 

6) Tadinha da Norá. Como será que estará ela agora, sozinha lá com as crianças, e ainda preocupada com a mãe doente? E sem ainda saber como está sua mãe? Norá é forte. De fibra. Já passou por tanta coisa e continua firme, dinâmica. Ajuizada. De ideias inabaláveis. É uma menina de ouro. Como eu a admiro e a estimo. Tem uma força de vontade tremenda. Nada é difícil pra ela. Ela é dessas raras pessoas que merece ter tudo na vida. É uma menina sincera, honesta. Verdadeira. De uma personalidade invejável. 

 

7) O único óleo que eu tinha, o óleo que emprestei da Miriam e que iria usá-lo pra fazer o almoço amanhã, todo derramado sobre a pia. Que raiva! Se fosse a Lilinha ainda vá lá. Mas a Jussara! Não tem respeito por nada. Faz as coisas só visando o que é do interesse dela. Noutro dia foi mexer no Gohonzon com estupidez e derramou toda a água dos jarros de flores que estavam sobre. E depois, não limpou. Não. Eu que tive que jogar todas as cinzas molhadas e enxugar tudo, molhou incensos, chão, mesa, tudo. E deixou tudo sujo. Tudo bagunçado. Agora vai mexer na pia pra fazer o café e derruba a lata de óleo. Se prestasse pra fazer limpeza como presta pra fazer sujeira. Gritei. Xinguei. Fiquei mesmo furiosa. Dei até uns tapas na Liliam de tão nervosa. Ela só fechou a cara e foi lavar toda a louça que estava na pia. E a Liliam enchendo. E eu possessa. Dei mais uns tapas na Liliam. Jussara ainda de cara amarrada não gostou.

  - Está com raiva e bate na menina é?

  - Bato sim. Estou com raiva sim. E enquanto ficar aqui me enchendo eu bato. Não é tua.

 

8) Já quase duas horas e Lilinha, após um saracoteio danado até agora, não quer dormir. Como é que pode? Como é que eu posso? O Ita ainda não veio. 

 

                                                                                                       Clô 

 

 

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