1) Um dia sem-vergonha o de hoje. Faz que faz sol e não faz. Faz que quer chover e não chove. Faz que vai esfriar e não esfria. Instável, fingido, falso. E o resultado é que a gente acaba ficando com o mesmo estado de espírito. Indecisa, instável. Sem saber e sem ter o que fazer. Confusa. Garanto que, se estivesse na Bahia agora, não estaria assim. Lá estaria cheia de objetivos, repleta de alegria de viver. Perdida entre mil opções. Aquela terra... Ah! Aquela terra, aquele clima, aquelas pessoas... tudo faz com que lá a gente só valorize a vida. Com que a gente se sinta muito gente. Com muito valor e com muita precisão de viver. E não este trapo, esta coisa, este nada qualquer com que a gente só se sente aqui.
2) Um dia sem nenhum o que fazer importante. Duas colegas da Jussara , que trabalham com ela no Guaió (mercado), estão aí visitando-a. Meninas mocinhas, como ela, e simpáticas também, como ela. Vitória então, nem cheiro de Vitória mesmo. Também, já não a estou esperando mais. É melhor eu me conscientizar que ela só vai vir no fim do ano mesmo. E só pra trazer os sete milhões. Senão, nem pra isso viria mais. Eu sei que ela está se empenhando ao máximo, só pra me pagar os sete milhões. Assim, ela vai se sentir bem mais livre de mim e dos irmãos, que nada mais representamos pra ela.
3) Ai! Minha casa! Que dó ter de deixa-la! Este conforto, esta tranquilidade que tenho aqui, talvez não encontre nunca mais em lugar nenhum em toda a minha vida. O conforto destes três quartos e desta sala enorme! Desta cozinha imensa! Deste quintal amplamente grande. Destes dois banheiros, destes azulejos, desta pia de aço inox de duas cubas. Não. Vamos pensar positivo. Vou deixá-la para ir ao encontro de uma casa bem mais confortável que esta e, em pleno centro de Salvador na Bahia! Pra que melhor? E eu mereço! Não posso ficar presa só nisso que está aqui, e que tenho, quando um melhor lugar, melhores pessoas, melhor casa, melhores oportunidades, minha neta, meu filho, minha nora e uma porção de queridos amigos estão todos à minha espera lá na Bahia! Isto sem falar naquelas praias! Em Jehová (ou homens que melhor o valha). Em Jorge Amado! Em Zélia Gattai! Em Claudete! Em Clarindo! Em Betina! No Pelourinho! Na Cantina! Nos shows da Cantina! Não! Eu não posso me deixar prender por só isto aqui não, quando a minha felicidade, esta mesma que eu procurei em toda a minha vida aqui no estado de São Paulo e que não achei, está me esperando lá na Bahia! Aquele mar! Ah! Mar azul inesquecível! Ah! Marzão azul, azul, que me espera! Que nos espera! Não vais esperar mais por muito tempo não, eu te juro! Eu te juro que no máximo até o fim deste ano, estarei aí. E que, no máximo, até março do ano que vem. Não, não, não. É só até o fim deste ano mesmo estaremos aí de vez, definitivo. Adeus, coisas, pessoas e fatos já ultrapassados daqui. Já estou me despedindo de vocês pra sempre. Vou para outra vida. Para a minha verdadeira vida. Quero esquecer por completo que algum dia já vivi aqui e que já passei por todas as tragédias que precisei enfrentar aqui. Praça da Piedade, Beth e Osvaldo Bailado! Me lembro sempre e tanto de vocês! Mais um pouco e... olha eu aí, outra vez! Estou em falta e em falha com ambos. Mas, não é por pouco caso não. É por falta de tempo. Você sabe, Beth, como é esta cidade. Só correrias. E atrás de quê? Em razão de quê? Do Nada. Do Nada Absoluto. Ai que tensão! Não é tesão não. É tensão mesmo. Um sufoco. Um abafo. Uma depressão. E ser obrigada a conviver só nisso. E por isso. Dá pra entender? Dá ao menos pra desculpar?
4) É só para que a consciência doa mais que nós deixamos as coisas assim. Armas nós temos. E muitas. E se fôssemos lutar com um terço das armas que temos arrasaríamos a sua vida. E só não fizemos uso delas porque o uso da vingança não é o nosso feitio. E o não uso da vingança pôs ao nosso dispor uma arma maior: o desprezo. E ai! Como ele dói! E misturado com a dor de consciência, te arrasa muito mais do que se tivéssemos feito uso da vingança. Taí. Covardia? Medo? De quê? De mim, pobre diabo como você que não tem o respeito nem de si próprio. Belo exemplo você deu ao seu filho avançando com tapas e com palavras de baixo calão sobre uma pequena e inofensiva mulher que só foi aí reivindicar melhor tratamento e consideração para com os seus próprios filhos. Não adianta você querer que eles deixem de ser seus filhos. E eles são seus filhos para toda a eternidade e em qualquer lugar do mundo. E ninguém pode fazer com que seja o contrário, nem mesmo você. E eu nunca que queria estar na sua pele, devendo o que você nos deve, e fazendo o que você nos faz. Você é indigno de ser chamado de ser humano.
5) Abelo-me toda, e me dói tudo cada vez que sou obrigada a pensar neste assunto chamado Auade. Não vejo a hora que termine a ação e eu possa enterrá-lo de vez. Aí é que vou poder ir para a Bahia e nunca mais, por nada, vou precisar nem querer me lembrar dele.
6) A irritação dos olhos do Ita chega a me preocupar. Nunca vi igual. Assim de repente. Sai tanta água, pior do que alguém chorando, sem poder enfrentar a luz. Será conjuntivite? Ele precisa ir ver o quanto antes. Com os olhos, é preciso todo cuidado. Sono só, por maior que seja, não produz isso. Pelo menos eu nunca vi. Sono só faz a gente fechar os olhos. Ficam ardendo como se tivessem cheios de areia sim. Mas chorando, lacrimejando intensamente assim, não. Deve ser alguma infecção. Deus ajude que não seja nada grave. E que amanhã já tenha sarado. Se for conjuntivite ele vai precisar ficar em casa uns dias até passar.
7) Amanhã pretendo ir em Mogi logo de manhã, resolver a minha situação no INPS, ou seja, dar entrada em novo processo para ficar na Caixa. Depois, talvez, eu passe no Forum pra ver o andamento da Ação de Alimentos e na Ação do Executivo Fiscal. E preciso também me preocupar sobre o andamento da Ação da Justiça do Trabalho com relação ao processo que movi contra a Prefeitura. Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Namyohorenguekyo. Ajude-me, Gohonzon, para que tudo tenha o melhor resultado. E preciso também não me esquecer de por a carta do Capitão Expedito no correio só pra ver o que vai dar. E João não me escreve nada. Depois que Lorena nasceu, ele se distanciou mais de mim. Ficou com mais preguiça de me escrever. E Vitória que agiu como agiu movida só de más intenções? Não esperava isso dela. Agiu como se não fosse mais de nossa família. Como se nós, mãe e irmãos, nada mais tivéssemos com a sua vida. Ela sempre teve certas tendências esquisitas contra nós, sua família. E sempre se deu mal com isso. Ela ridicava os livros dos irmãos quando estudava, e foi perde-los na casa do Elias. Ela tirou dinheiro de mim na viagem que fizemos na Bahia, pra perder tudo o que recebeu na Gyotoku nas mãos do Paulo. Agora, fez esta sujeira toda que fez conosco, em benefício da Rosinha. Oxalá ela não venha a ter do que se arrepender como já aconteceu das outras vezes. Pensei que ela já tivesse aprendido a lição de que dor de barriga não dá uma vez só. Mas ainda ela não aprendeu. Me dói ter que pensar nela e ficar magoada como estou. Falsidade dói tanto...
8) Que eu fico até sem ação, eu fico. De repente, sem mais nem menos, sem a gente esperar, cair na realidade que ela nos traiu? Que faça bom proveito. Que o proveito que ela almejou, ao planejar tudo, lhe seja concedido em dobro. E eu não quero e prometo fazer o máximo pra não pensar mais nisso. O fim do ano está aí e, até lá, tudo será resolvido. Quase duas horas da manhã? Já? Deixa eu dormir. Está sob minha responsabilidade acordar o Ita logo mais às seis. Boa noite, meus filhos. Boa noite, Gohonzon. Boa noite, Deuses Budistas. Mas antes, ao menos um soneto de Florbela Espanca.
Clô
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